terça-feira, 3 de março de 2015

A Besta e a Bela







_ Olá, Aslan. Disse a garota após pular o muro vindo até mim. Começava a achar que, assim como o criador, não havia lugar onde eu pudesse me esconder dela.
_ Por que insiste em me chamar de Aslan? _ falei com firmeza. _ Já lhe disse como me chamo.
_ E eu já lhe disse por que lhe chamo assim, _ rebateu-me sem nunca se intimidar. _ Em meu sonho havia uma mulher montada numa besta, um grande leão dourado. Você, Aslan.  Aquela ultima palavras ela disse de forma significativa, na voz sonora dos oráculos. Mas eu não podia creditar aos meus olhos ou meus ouvidos ou minha consciência presa naquele corpo de carne, não quando minhas feridas sangravam cheias de veneno, contaminadas pela saliva dos tantos demônios com os quais eu havia confrontado.  
_ Meu nome é Gabriel! Retruquei.  
A garota riu, e só então, talvez pela febre, eu pude perceber a beleza que existe naquele misto incongruente de malicia e ingenuidade.  _ Antes de você eu não poderia saber que os anjos coravam. Ela dissera passando por mim para sentar-se num amontoado de lixo ao meu lado.  Começava a achá-la por demais irritante. Saberia ela as interpretações mundanas daquela metáfora? Um enigma que ela não poderia fazer ideia. Ou poderia? Talvez por isso insistisse em me seguir, mesmo quando eu a havia deixado a salvo no santuário.
_ Eu só tenho você, Ash. Não quer mesmo se livrar de mim quando existem tantos demônios a solta por ai. Surpreendi-me ao ver que lia os meus pensamentos. De onde vinha aquela clarividência, afinal? Do fim dos tempos? Seria assim com todos eles?  Todo o meu ser se enchia de perguntas. Senhor, por que me deixaste tão cego nesta terra? Como farei o que tanto queres? Questionei em vão.  Não haveria resposta. Eu também estava sozinho. E minha dor se refletia nela. A revelia de qualquer vontade, a empatia me ligava àquela criança humana.
Sem pedir permissão, ajeitou-se para dormir aninhando-se entre as penas das minhas asas. Não lhe neguei a regalia, se ela conseguia dormir sob o caos de um apocalipse, que o fizesse. Sem escolha, permaneceria de vigília. Até quando? Até o momento de acordar e seguir? Até uma nova batalha? Uma mulher guiando um leão, ela dissera. Então que assim fosse, ela parecia mesmo ter melhor visão que a minha. Um leão cego,eu era...


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Meus selinhos ^^

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