quinta-feira, 10 de julho de 2014

Coisas antigas

Estava revendo meus desenhos antigos, coisa de dez anos atrás, a época em que eu desenhava para matar o tempo. São péssimos, mas alguns levam a vantagem de serem engraçados. Lembro que eu criava uma história para cada um, às vezes eu tentava narrar essa história no próprio desenho, outras apenas deixava bastante subtendido e quem me perguntasse eu contava depois. Eram sempre histórias muito diversas uma das outras, por que eu pensava; "Se é para contar uma nova história tem que ser bem diferente das anteriores."  Acabo relembrando de todas elas sempre que pego a minha pasta antiga para rever.
Uma vez uma amiga me pediu um desenho, eu fiz e a entreguei.  Então ela disse: Conte-me. Eu: Conte o quê? Ela: A história desse desenho. Eu que não tinha criado nenhuma história para esse em especial tive que inventar alí na hora para que ela não ficasse desapontada.


Anos depois eu fiz um desenho pensando nos traços de uma amiga. E certa vez quando ela me pediu para ver o que eu desenhava, inclui na pasta esse desenho com alguns outros e levei. Ela foi olhando um por um, alguns ela fazia uma observação, outros não, então de um dele ela falou: Essa parece uma ratinha. Eu que pensava em dizer a ela que desenhara um deles pensando nos traços dela desisti e fiquei calada quando vi que era o mesmo desenho ao qual ela fizera aquela observação infeliz.  Outro dia, lembrando, ri muito disso.
 

Certa vez desenhei um homem pelado tomando banho em uma cachoeira, de costa, só mostrava a bunda dele, mesmo assim fiquei com muita vergonha de levar para casa, então dei a minha colega. O engraçado é que minha pasta é cheia de mulheres peladas e não me sinto nenhum pouco despudorada por isso.


Essa é a ilustração do Comandante John, o conto que foi publicado na antologia Beijos e Sangue. Outro dia uma amiga da minha irmã veio me dizer que o marido dela tinha gostado desse meu conto, ele estava lendo essa antologia, geralmente são os homens que se identificam mais com essa história, acho que é por que tem ares de fabula antiga de marinheiro. A história do comandante nasceu de inicio em poema, era um poema bem breguinha que eu fiz como se fosse uma música, não cheguei a transcrever em notas musicais por que não entendo nada do assunto, mas acho que ainda consigo cantar, se eu pegar a letra. Depois do poema fiz o desenho, e só muito mais tarde, em 2010, eu transformei em conto. Só que o poema era um pouco mais triste que a história do conto. Fala do trágico e impossível amor entre um valente homem do mar e uma sereia.


Tem também a ilustração do Canto do Cisne, essa também fiz primeiro o desenho, e como era uma história que persistia em minha cabeça, fiz o conto, o meu primeiro conto de verdade, eu posso dizer,  foi publicado aqui inicialmente, depois a Pat Cóvacs o publicou na antologia Beijos e Névoas.  Tem uma outra lustração, mais antiga, mas essa é ainda pior, por isso não tenho coragem de mostrar. O Canto do cisne é uma história de esperança, que trás a morte como o fim de uma maldição, e assim uma nova chance. Também mostra que a morte também pode ser bonita, principalmente a morte de um cisne encantado.  
Esse desenho é da fase que começaram os meus bloqueios, então eu os iniciava, mas não terminava. Sem paciência deixei o cenário essa coisa horrível.
A sereiazinha Lillã, essa é de uma história antiga. A primeira que comecei a escrever, acho que lá pelos meus 12 anos. Era meio que uma versão adolescente da sereia Madson misturado com a sereiazinha de Andersen com um toque profundamente ambientalista. Era uma história muito boba, mas há sempre o desconto de que eu só tinha doze anos. Lembro que na época essa história me fez conhecer (por pesquisa) a maioria das espécies de tubarões, mas infelizmente já esqueci tudo, só relendo pra lembrar.


Lá pelos meus 13 e 14 eu tinha outra ideia fixa, o Egito. Gostava tanto da história do Egito antigo que quis escrever um romance ambientado lá, nos primórdios da civilização humana. Então criei a minha versão da Unificação do Baixo e alto Egito em um só, através de um casamento. Uma história romântica, abolicionista e feminista. Claro que assassinei a história, e a medida que ia pesquisando e via o quanto um discurso feminista e abolicionista como o que eu queria criar era a coisa mais estúpida e inverossímil que se podia escrever tratando-se de história antiga, (claro que atropelar a história de Menés nem contava na soma, rs) larguei de escrever, ainda bem, por que não passava por minha cabeça a pretensão que era escrever um romance histórico aos 14 anos sobre uma civilização que ainda é obscura para os maiores historiadores. Mas a ideia me rendeu muitos desenhos e por um tempo só desenhava faraós e mulheres com kohl nos olhos e túnica plinsada.





Esse é um desenho com os dois personagens principais dessa malfadada ideia. Togie é um anagrama da palavra Egito assim como Iracema é de America. Nessa época eu já tinha devorado a maioria dos livros de José de Alencar.

Tem também a história do príncipe Megaio e Euilin, a jovem do cetro. Esse eu não vou contar, o desenho já conta a história, é só observar direitinho os detalhes. Eu comecei a transformar em conto, mas acabei largando sem terminar, fica aqui um lembrete para mim. É, eu era péssima com perspectiva, infelizmente hoje não sou muito melhor.



Essa Clara é a personagem do primeiro fragmento que postei aqui, a mesma história do conto Lampejo que foi publicado na antologia Beijos e Sangue. Até hoje não terminei esse rabisco. 


Tem a Jila, uma jovem que foi criada por um dragão sem sequer saber da existência de humanos



A Malena, a bruxa condenada a fogueira pela Santa Inquisição, só que seu poder bloqueou as forças do universo, então não conseguiram queimá-la, mas ainda assim não exoneraram de sua pena, então ela ficou esquecida em seu pelourinho, presa por raízes, por que a crueldade da inquisição já havia se enraizado nos corações das pessoas.  

Shellyn é uma guerreira, minha irmã insiste que ela é uma anã. 

Lanoy é uma humana que sobrevive a um golpe de estado armado pelo tio e é acolhida pelos elfos. Quando se aproximava da terra dos elfos, o elfo Yandal acerta uma flecha de luz em seu coração para que ele não fosse tomado pelas trevas, só assim os elfos poderia ajudá-la, tomar partido naquele conflito e acolher a moça, só que a flecha de luz não pôde ser retirada, então tiveram que quebrá-la, assim parte do artefato mágico fica em seu coração para sempre, a vantagem é que sua alma nunca poderá ser corrompida e ela se tornaria desde então responsabilidade dos elfos.  



E uma fábulazinha que eu inventei sobre a liberdade, o fato dos homens não saberem fazer uso da liberdade sem atropelar os direitos dos outros. Liberdade era uma harpia que muito amava os homens e sempre que podia descia a terra para ensiná-lhe coisas de muita serventia, e os humanos muito a amavam também, tanto que se sentiram enciumados de seu concorrente ao coração da moça, o céu, por mais que ela se dedicassem a eles, ela sempre acabava alçando voo e partindo para ser livre nas alturas, então eles tramaram um plano para mantê-la presa a terra para sempre e desta forma ser para sempre dele. Atraíram-na até o cume de uma montanha e arranjaram um jeito de prender os seus pés em uma goma muito resistente, a goma se petrificou e ela ficaria realmente presa a terra para sempre se não tivesse aberto mão daquilo que a possibilitava andar pela terra, os pés. Assim foram os homens que a perderam, para sempre, obtendo dela apenas pequenas vislumbre ou fugazes aparições. 





E por fim os que mais acho engraçados: A história de uma sereia que pesca um tritão sem perceber e o seguinte, O plano de Éris, a deusa da discórdia, para provocar discórdia no Olimpo, ela faz com que todos os deuses se apaixonem por uma vestal, que é uma sacerdotisa da deusa Vesta, algo parecido com uma freira, daí as deusas ficam todas furiosas, e os deuses, coitados, em vão lançam seus galanteios à jovem indiferente. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A bússola de Ouro, um revolucionário livro que ensina as crianças a pensarem por si só


Conheci a Bússola de Ouro através do cinema, uma adaptação que fica tão distante da essência do livro que até dá para entender o seu fracasso. Para mim pareceu só uma história de aventura, com um mundo fictício rico e aprimorado, tendo como base a nossa realidade. A receita básica de qualquer história de fantasia. Achei legalzinho apenas pelos elementos novos ali colocados; a personificação da alma dos seres humanos em forma de animais, que andam e falam separadamente dos seres humanos, mas que do mesmo modo são indivisíveis a ele. Ursos polares que lutam de armadura e tem consciência humana e um código de hora tão forte e inabalável. Feiticeiras que voam graciosamente pelos ares e lutam com arcos e flechas, o aletiômetro, o instrumento em forma de bússola, leitor da verdade... enfim, isso e o ar esteampunk do filme me seduziram. Confesso que me apaixonei por Iorek Byrnison, o imponente e honrado urso de armadura, e não tem como desapaixonar ao ler o livro, ele e Lorde Asriel são de longe as figuras mais impressionantes do livro. Achei graciosa e intrigante a personagem interpretada pela Nicole Kidman (Sra. Coulter), mas depois de comparar a personagem do livro acho a atuação da atriz fraca e apagada, o mesmo a dizer do Lorde Asriel, mesmo toda a beleza e imponência do ator Daniel Craig não pode se comparar a força, beleza e presença de espírito do Lorde Asriel do livro.
Enfim, gostei do filme, mas logo esqueci, como se era de esperar de uma história mediana. Então descobri pela minha irmã a polêmica em volta da história, que segundo as palavras dela, o autor ensinava as crianças a questionarem os pensamentos e atitudes da igreja. Obviamente não havia percebido isso ao ver o filme, a questão é que talvez pela censura, ou não, a adaptação do cinema não apresenta nenhum pensamento subversivo, e os elementos que colocam realmente em choque o pensamento da igreja questionando sua atitude em detrimento do pensamento cientifico, não são evidenciados no filme, e o pior de tudo o desfecho que dá o cheque mate em uma gama de conceitos e fecham o pensamento do autor, não está na película, que ficou sem seu finalzinho, mesmo com a promessa não alcançada de uma trilogia.
Claro que eu não perderia de ler um livro cujo autor revolucionário ensina as crianças a questionarem a toda poderosa igreja católica. O que para mim significa, consequentemente, questionar a própria autoridade a qual são submetidas desde a essência de suas criações, pois não são os pais que impõem por herança uma religião aos filhos, (tá bom, não vamos colocar especificamente como religião, mas como um conjunto de crenças)... um conjunto de crenças tão bem defendidas e entrelaçadas que derrubá-las é dar por terra a própria credibilidade dos pais? Se o pai diz que é certo e ele está errado nesse ponto, pode estar errado em outros pontos também, e daí pode-se minar as bases de uma pirâmide, e ruir todo um conjunto de hierarquias. A essência de todo pensamento autoritário é firmado em crenças, crenças que são questionáveis, e se derrubadas, as pessoas não fazem ideias, derrubam toda uma estrutura que estão firmadas em cima delas, e o resultado é um desmoronamento em longa escala. Ensinar um individuo desde cedo a questionar a própria base em que se firma é o modo mais revolucionário de despertar a consciência deste individuo para a realidade que o cerca. É ensiná-lo a questionar o que para muitos é inquestionável, sobretudo por que, por mais que pareça absurdo para alguns, nada é inquestionável. Tratar esse pensamento na infância do individuo quando a maiorias das crenças serão implantadas e cristalizadas para mim parece a melhor das vanguardas, é claro que eu queria ver como o autor pretendia fazer isso.
De inicio não achei nada de mais, identifiquei apenas a defesa de um ponto de vista, a defesa de uma bandeira, mas, por mais fosse uma ideia que ia de contra a um sistema vigente, ainda era apenas uma ideia sendo defendida, um vendedor querendo vender o seu peixe, assim como seu concorrente, nada diferente daqueles que estão do outro lado. Isso para mim não é revolucionário, é só defender bandeiras e pronto. Fiquei um pouco escandalizada e antipática em relação à personagem por ser uma criança malcriada e versada na hábil arte da mentira, mas logo ficou muito evidente que eu estava sendo pedante e jogando o hipócrita jogo dos politicamente corretos ao fazer meus julgamentos, sobretudo por que para mim a intenção do autor ainda não estava clara.  
Mas então é isso? É só um livro de aventura, com alguma ação e artimanhas e um toque subversivo? Não, ao final eu compreendi que a Bússola de Ouro é sem dúvida um dos livros que eu iria querer que meus filhos lessem (se eu tivesse filhos) com a intenção de edificar-lhe o pensamento sem doutriná-lo, justamente por que me parece que é essa a intenção do autor. Assim que eu terminei de ler o livro, e apenas no final à gente percebe isso, eu entendi o que o autor queria passar para as crianças leitoras. Certamente a lição final de Lyra é a que fica em nossas mentes, finalmente a intenção clara e evidente que tantos demoram uma vida toda para entender, mas que se tivesse sido lá no inicio, lá na infância (se eu tivesse lido esse livro antes, quem sabe...), talvez as nossas vidas fossem completamente diferentes. Somos completos sozinhos, tenha a nossa alma a personificação clara de um Daemon ou não, e devemos estar sozinhos e conscientes para fazermos nossas escolhas e ponderações independente da opinião e das crenças dos outros, por maior autoridade e inteligência que eles demonstrem ter, pois no fim, o nosso julgamento do certo ou errado é o que deve vigorar, assim os nossos erros e acertos serão só nossos e independentes, e a consciência plena disso é o que eu chamo de maturidade. É assim que toda pessoa deve ser e agir, sem a influência clara de doutrinas, carregadas de uma rigidez e conceitos inverossímeis que deformam a alma das pessoas, que sufocam e matam a sua mais genuína essência e o pior, inibem a liberdade da alma humana. Se todos tivessem a total consciência de sua plenitude e que seus pensamentos devem vigorar independentes de influencias externas, talvez as pessoas fossem mais felizes e mais confiantes para trilarem seus caminhos e não se agarrassem a sistemas frágeis que manipulam, escravizam e deturpam a essência humana. 
Apesar de sua trama girar sob um tema essencialmente “herético”, o autor não deixa claro estar defendo um lado realmente, do contrário, a questão fica muito neutra com o próprio desenrolar da trama, a partir do momento que os eventos que levaram Lyra ao seu desfecho mostrá-la exatamente que ela não deve se guiar a partir dos valores e opiniões dos outros senão dela mesma e do que ela julga ser o certo ou errado. A questão fica mais firme quando a heroína se percebe sozinha tendo que fazer suas decisões e escolher trilhar seu próprio caminho. E por mais que pareça haver uma oposição do pensamento religioso com o pensamento científico, o que eu identifiquei no livro foram às bases claras das raízes neo-criacionistas, onde a ciência e a religião convergem, e os métodos científicos são usadas para explicações teológicas de um modo atual.
No mais, a essência da discussão levantada no livro é um tanto complexa, a própria natureza do pó e o que ele representa é apresentada de forma complexa e talvez intencionalmente obscurecida. Mas talvez essas questões sejam esclarecidas melhor nos próximos livros. De maneira análoga os dois personagens centrais, os pais de Lyra são complexos, de personalidade forte e intenções dúbias. De modo que a gente fica se perguntando o porquê de suas ações e se elas os fazem mocinhos ou bandidos, ou nenhum dos dois, pois, por mais que eles demonstrem argúcia, graça e sedução (e realmente nos seduza e nos deixe em dúvida), seus atos são igualmente cruéis e questionáveis. Talvez esses personagens reflitam a complexidade das dualidades, o bem e o mal, a imagem do anjo e o demônio, complexidade inerente à natureza de qualquer humano, mas de modo transcendente na trama, de um jeito que seus atos estejam acima dessas questões.
Ainda partindo de analogias, no final, algo me fez ver uma leve comparação com a árvore da vida, do Kabalah.  Quando Lyra, depois de se perceber como um individuo uno ao seu Daemon, sua alma, e assim um ser completo, e desta forma suficientemente capaz de fazer suas próprias escolhas e escolher o seu próprio caminho, alcançando um estado de individuação, eu diria, ela resolve seguir a ponte aberta através do pó, o pecado original que possibilitou ao homem o poder de deus, então segue até a cidade erguida no céu, teria ela alcançado Kether? Não dá pra saber, talvez eu esteja interpretando além das intenções do autor, e talvez ele apenas quisesse ser levemente irônico com a ultima frase onde diz: “Ela voltou-se para o outro lado. Atrás deles, ficavam a dor, a morte e o medo; à frente deles, a incerteza, o perigo e mistérios inimagináveis. Mas eles não estavam sozinhos. Assim, Lyra e seu daemon deram as costas ao mundo em que nasceram, virando-se na direção do sol, e caminharam para o céu.”  Talvez eu vá descobrir com o próximo livro, a “Faca Sutil” e talvez eu volte com uma impressão diferente da história, mas por enquanto é isso.


Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^