sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Terra e Éter


Um gosto amargo toma o meu paladar, uma névoa escura e dolorida eflui do meu peito tomando espaço e se densificando por dentro.  Abandono a sala, tranco-me no quarto. Meu corpo pende desolado em cima da cama. Uma onda de tristeza retesa-me toda.  Minhas mãos se juntam instintivamente. Um nó se avoluma na garganta. Um frio percorre a camada interna da minha pele. Meus dedos se apertam uns contra os outros. Meus olhos se estreitam. Suspiros rompem no peito. O desespero é sempre o mesmo. O barulho da TV uma nova tortura. Esse pedido de socorro, uma nota a se ignorar.
Todos desempenham seu papel de marionete lindamente repetindo todos os dias o mesmo ato com um silêncio e resignação indiferente. A dor invade-me em torrentes. Abaixo as pálpebras, vida de marionete quebrada  desempenhado  passos que não foram ensaiados, que não terão nenhuma importância nessa comédia da vida. O mundo caminha em sua desordem, como se puxa a sineta para que ele possa parar? Muito tarde para seguir a marcha? O barulho parece cada vez mais estridente, uma caricia a minha insanidade. Finalmente uma lágrima se desprende. Filha única, se solidifica no caminho. Um ultimo chamado, meu peito arfa contendo uma coisa que se liberta irá me destruir.
Sinto seu peso ao meu lado na cama, viro o rosto com raiva, também é maneira de esconder a lágrima congelada. Agora a revolta faz arfar o meu peito. Sinto sua mão pesar em minha cabeça. O toque vem carregado de calor de humanidade, um calor que tanto procuro e não acho no mundo lá fora. Sua mão desce até o meu ombro, puxa-me para perto. Beija-me o rosto enxugando a lágrima estagnada. Convulsões de soluço abalam o meu firmamento. Encolho meu corpo, suas mãos me envolvem. As lágrimas agora jorram em torrente. Seu abraço não muda nada, continuo abandonada neste mundo de abutres.
Ouso sua voz doce em meu ouvido. Não entende por que mesmo sua presença não me trás calma. De tanto insistir com o seu carinho viro-me a sua procura. Minha mão envolve o seu pescoço, procuro tua boca. Você me olha com censura, ignoro sem pudor. Mas um suspiro de dor nos afasta. Você se dissolve em minhas mãos. Estarrecida, permaneço petrificada. A mão no ar num gesto de tentar contê-lo entre os dedos, o olhar cristalizado pelo sentimento liquefeito, a boca ainda entreaberta na ânsia daquele beijo.
Vida ou morte nos separa. Queria-o como consolo para esta vida desgraçada. Como  um prêmio em meio a uma idealização inspirada pelos sonhos e desejos de uma alma entremeada ainda na carne. Tu já não podes solidificar mais nenhuma vontade. Avançado nas lições de desprendimento, eu sou a rocha que tu queres transformar em ar. Tu, a personificação dos meus desejos em vida. Morta ou viva poderemos nos amar. 

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Meus selinhos ^^

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