quinta-feira, 3 de julho de 2014

A bússola de Ouro, um revolucionário livro que ensina as crianças a pensarem por si só


Conheci a Bússola de Ouro através do cinema, uma adaptação que fica tão distante da essência do livro que até dá para entender o seu fracasso. Para mim pareceu só uma história de aventura, com um mundo fictício rico e aprimorado, tendo como base a nossa realidade. A receita básica de qualquer história de fantasia. Achei legalzinho apenas pelos elementos novos ali colocados; a personificação da alma dos seres humanos em forma de animais, que andam e falam separadamente dos seres humanos, mas que do mesmo modo são indivisíveis a ele. Ursos polares que lutam de armadura e tem consciência humana e um código de hora tão forte e inabalável. Feiticeiras que voam graciosamente pelos ares e lutam com arcos e flechas, o aletiômetro, o instrumento em forma de bússola, leitor da verdade... enfim, isso e o ar esteampunk do filme me seduziram. Confesso que me apaixonei por Iorek Byrnison, o imponente e honrado urso de armadura, e não tem como desapaixonar ao ler o livro, ele e Lorde Asriel são de longe as figuras mais impressionantes do livro. Achei graciosa e intrigante a personagem interpretada pela Nicole Kidman (Sra. Coulter), mas depois de comparar a personagem do livro acho a atuação da atriz fraca e apagada, o mesmo a dizer do Lorde Asriel, mesmo toda a beleza e imponência do ator Daniel Craig não pode se comparar a força, beleza e presença de espírito do Lorde Asriel do livro.
Enfim, gostei do filme, mas logo esqueci, como se era de esperar de uma história mediana. Então descobri pela minha irmã a polêmica em volta da história, que segundo as palavras dela, o autor ensinava as crianças a questionarem os pensamentos e atitudes da igreja. Obviamente não havia percebido isso ao ver o filme, a questão é que talvez pela censura, ou não, a adaptação do cinema não apresenta nenhum pensamento subversivo, e os elementos que colocam realmente em choque o pensamento da igreja questionando sua atitude em detrimento do pensamento cientifico, não são evidenciados no filme, e o pior de tudo o desfecho que dá o cheque mate em uma gama de conceitos e fecham o pensamento do autor, não está na película, que ficou sem seu finalzinho, mesmo com a promessa não alcançada de uma trilogia.
Claro que eu não perderia de ler um livro cujo autor revolucionário ensina as crianças a questionarem a toda poderosa igreja católica. O que para mim significa, consequentemente, questionar a própria autoridade a qual são submetidas desde a essência de suas criações, pois não são os pais que impõem por herança uma religião aos filhos, (tá bom, não vamos colocar especificamente como religião, mas como um conjunto de crenças)... um conjunto de crenças tão bem defendidas e entrelaçadas que derrubá-las é dar por terra a própria credibilidade dos pais? Se o pai diz que é certo e ele está errado nesse ponto, pode estar errado em outros pontos também, e daí pode-se minar as bases de uma pirâmide, e ruir todo um conjunto de hierarquias. A essência de todo pensamento autoritário é firmado em crenças, crenças que são questionáveis, e se derrubadas, as pessoas não fazem ideias, derrubam toda uma estrutura que estão firmadas em cima delas, e o resultado é um desmoronamento em longa escala. Ensinar um individuo desde cedo a questionar a própria base em que se firma é o modo mais revolucionário de despertar a consciência deste individuo para a realidade que o cerca. É ensiná-lo a questionar o que para muitos é inquestionável, sobretudo por que, por mais que pareça absurdo para alguns, nada é inquestionável. Tratar esse pensamento na infância do individuo quando a maiorias das crenças serão implantadas e cristalizadas para mim parece a melhor das vanguardas, é claro que eu queria ver como o autor pretendia fazer isso.
De inicio não achei nada de mais, identifiquei apenas a defesa de um ponto de vista, a defesa de uma bandeira, mas, por mais fosse uma ideia que ia de contra a um sistema vigente, ainda era apenas uma ideia sendo defendida, um vendedor querendo vender o seu peixe, assim como seu concorrente, nada diferente daqueles que estão do outro lado. Isso para mim não é revolucionário, é só defender bandeiras e pronto. Fiquei um pouco escandalizada e antipática em relação à personagem por ser uma criança malcriada e versada na hábil arte da mentira, mas logo ficou muito evidente que eu estava sendo pedante e jogando o hipócrita jogo dos politicamente corretos ao fazer meus julgamentos, sobretudo por que para mim a intenção do autor ainda não estava clara.  
Mas então é isso? É só um livro de aventura, com alguma ação e artimanhas e um toque subversivo? Não, ao final eu compreendi que a Bússola de Ouro é sem dúvida um dos livros que eu iria querer que meus filhos lessem (se eu tivesse filhos) com a intenção de edificar-lhe o pensamento sem doutriná-lo, justamente por que me parece que é essa a intenção do autor. Assim que eu terminei de ler o livro, e apenas no final à gente percebe isso, eu entendi o que o autor queria passar para as crianças leitoras. Certamente a lição final de Lyra é a que fica em nossas mentes, finalmente a intenção clara e evidente que tantos demoram uma vida toda para entender, mas que se tivesse sido lá no inicio, lá na infância (se eu tivesse lido esse livro antes, quem sabe...), talvez as nossas vidas fossem completamente diferentes. Somos completos sozinhos, tenha a nossa alma a personificação clara de um Daemon ou não, e devemos estar sozinhos e conscientes para fazermos nossas escolhas e ponderações independente da opinião e das crenças dos outros, por maior autoridade e inteligência que eles demonstrem ter, pois no fim, o nosso julgamento do certo ou errado é o que deve vigorar, assim os nossos erros e acertos serão só nossos e independentes, e a consciência plena disso é o que eu chamo de maturidade. É assim que toda pessoa deve ser e agir, sem a influência clara de doutrinas, carregadas de uma rigidez e conceitos inverossímeis que deformam a alma das pessoas, que sufocam e matam a sua mais genuína essência e o pior, inibem a liberdade da alma humana. Se todos tivessem a total consciência de sua plenitude e que seus pensamentos devem vigorar independentes de influencias externas, talvez as pessoas fossem mais felizes e mais confiantes para trilarem seus caminhos e não se agarrassem a sistemas frágeis que manipulam, escravizam e deturpam a essência humana. 
Apesar de sua trama girar sob um tema essencialmente “herético”, o autor não deixa claro estar defendo um lado realmente, do contrário, a questão fica muito neutra com o próprio desenrolar da trama, a partir do momento que os eventos que levaram Lyra ao seu desfecho mostrá-la exatamente que ela não deve se guiar a partir dos valores e opiniões dos outros senão dela mesma e do que ela julga ser o certo ou errado. A questão fica mais firme quando a heroína se percebe sozinha tendo que fazer suas decisões e escolher trilhar seu próprio caminho. E por mais que pareça haver uma oposição do pensamento religioso com o pensamento científico, o que eu identifiquei no livro foram às bases claras das raízes neo-criacionistas, onde a ciência e a religião convergem, e os métodos científicos são usadas para explicações teológicas de um modo atual.
No mais, a essência da discussão levantada no livro é um tanto complexa, a própria natureza do pó e o que ele representa é apresentada de forma complexa e talvez intencionalmente obscurecida. Mas talvez essas questões sejam esclarecidas melhor nos próximos livros. De maneira análoga os dois personagens centrais, os pais de Lyra são complexos, de personalidade forte e intenções dúbias. De modo que a gente fica se perguntando o porquê de suas ações e se elas os fazem mocinhos ou bandidos, ou nenhum dos dois, pois, por mais que eles demonstrem argúcia, graça e sedução (e realmente nos seduza e nos deixe em dúvida), seus atos são igualmente cruéis e questionáveis. Talvez esses personagens reflitam a complexidade das dualidades, o bem e o mal, a imagem do anjo e o demônio, complexidade inerente à natureza de qualquer humano, mas de modo transcendente na trama, de um jeito que seus atos estejam acima dessas questões.
Ainda partindo de analogias, no final, algo me fez ver uma leve comparação com a árvore da vida, do Kabalah.  Quando Lyra, depois de se perceber como um individuo uno ao seu Daemon, sua alma, e assim um ser completo, e desta forma suficientemente capaz de fazer suas próprias escolhas e escolher o seu próprio caminho, alcançando um estado de individuação, eu diria, ela resolve seguir a ponte aberta através do pó, o pecado original que possibilitou ao homem o poder de deus, então segue até a cidade erguida no céu, teria ela alcançado Kether? Não dá pra saber, talvez eu esteja interpretando além das intenções do autor, e talvez ele apenas quisesse ser levemente irônico com a ultima frase onde diz: “Ela voltou-se para o outro lado. Atrás deles, ficavam a dor, a morte e o medo; à frente deles, a incerteza, o perigo e mistérios inimagináveis. Mas eles não estavam sozinhos. Assim, Lyra e seu daemon deram as costas ao mundo em que nasceram, virando-se na direção do sol, e caminharam para o céu.”  Talvez eu vá descobrir com o próximo livro, a “Faca Sutil” e talvez eu volte com uma impressão diferente da história, mas por enquanto é isso.


2 comentários:

Anônimo disse...

Estou lendo o livro e me tem admirado a história em si, seria possível um mundo assim ser real? Estou gostando bastante...

Celly Monteiro disse...

Acredito que ficará ainda mais admirado com os dois segundos livros, são ainda mais surpreendentes. Bem, eu não sei se mundos assim existem, mas sabemos de muito pouca coisa a respeito de tudo, no mais eu ia adorar se existisse. **

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^