domingo, 4 de agosto de 2013

A balada das profundezas



Ontem eu era uma sereia.  Cobria meu busto belíssima folhagem. Meus cachos dourados vagavam na ânsia da corrente. Vestia minha face o viço da infância. Eram tempos de descobertas, e abaixo de nós, ansiando nossa entrega, um oceano engolfava-se densamente em segredos, a espera da audácia de nosso mergulho.
Tuas escamas também tinham aquele verde pálido dos cardumes que reluziam argentinos sob o sol na superfície. Lá dourávamos nossa pele. E quanto tomados pelo medo do desaguar das águas em densidade, agarrávamos aos mastros e vigas fincados na superfície pela humanidade. Éramos seres das profundezas ancorados em palafitas.
Mas eu era menina, sempre apta a ofertar minha inocência pelo prazer das descobertas, tu, minha contraparte masculina, estava ali para, diante de qualquer mistério me fazer avançar em suas brechas.
Nas margens verdes onde a luz rutilava sobre nossas escamas prateadas, adiantava-se em consonância a balada das correntezas. Debutante que eu era fazia minha vez de aprender aquela valsa, e aquém de todos os outros, você era meu par. Seguia-me naquele embalo silencioso ritmado pelo desejo de se descobrir, se movimentar. Dobrar a inercia das águas ao ditame da nossa vontade. Manifestar a nossa liberdade em sincronia, movimento, entendimento...
Dançando em par aprendi o que era ser cardume, o que era ser correnteza, o fluir e escorrer, o derramar dos gestos e dissolver dos sentidos. Derretendo o eu encontramos os nós.  E depois de entendido na comunhão o sentido da liberdade, eu criatura das profundezas, não queria aquela sina de me ater a mastros com medo de afundar na escuridão. Peguei-o pela mão e mergulhamos oceano adentro.

Lá na imensidão, afogado pelas águas, um sol brilhava dourado coroado de estrelas.  

Um comentário:

Luciano silva vieira disse...

Além de belos seus desenhos ainda trazem todo este conteúdo, toda uma história por trás. Já sentia falta de seus escritos Celly.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^