quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reminiscências


Lembro de quando tinha treze anos e voltei ao interior em visita a uma tia. Sabia ser bezerro que encontra as porteiras abertas. Só não sabia que o medo, indutor da obediência, havia deformado a alma rebelde. Naquela época já era alienígena. Meus primos brincavam na rua livremente como bezerros soltos no pasto. Eu bezerro habituado ao curral, queria acompanhá-los em sua rotina como um pássaro antes engaiolado anseia em sentir o vento bater em suas asas. Mas a exposição excessiva a aquele sol inclemente começou a deixar marcas implacáveis em minha pele.
O bom senso emprestado pelos grilhões me obrigou a recuar novamente para as quatro paredes e me resignar às sombras da casa de tia. Mas havia a minha prima e suas amigas com suas vidas libertas. Tão pleno desfrute da liberdade me fazia lembrar daquela natureza primitiva tão dolorosamente enjaulada. Quis juntar-me as elas, ser novamente bicho selvagem, liberto no inocente deleite de explorar aquele mundo ao qual pertencia. Abraçar o horizonte sem o receio de ter seu pé restrito pelas correntes.- Iremos sozinhas, sua prima fica para não queimar a pele branca. - Foi a resposta das amigas da minha prima. Engoli um nó diante daquele sentimento que naquela época ainda não conhecia. Procurei nos olhos da minha prima aquela mesma rechaça.
Minha prima me amava, mas também não me compreendia. Para ela eu também era a bonequinha estragada pela mãe. A que levava as correntes invisíveis da obediência.
Eu a admirava. Sonhava em ser tão livre quanto ela. Sonhava em ter coragem de quebrar as correntes.
Por ironia para a minha mãe eu era a filha rebelde. Também ela não me compreendia. O que eu fazia, mesmo sangrando pelos grilhões, era apenas mérito de sua autoridade. Nada que eu fizesse jamais seria bom por que não passaria de uma semi-obediência. Conhecia a alma rebelde e desconsiderava o esforço. Via apenas a própria força que fazia para manter firmes as amarras.
E essa semi-obediente não era uma coisa nem outra. Nem liberta, nem dócil, nem feliz. Como sempre apenas dois pratos oscilando na balança, sem chegar a peso algum.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^