terça-feira, 21 de agosto de 2012

Eros e Psiquê – O perdão


E novamente me via engolfada em um embotamento. Mas enquanto que antes me ia a navegar mansamente em um mar de esquecimento e calmaria, agora sentia-me arrebatada por mãos negras que me esmagavam e me puxavam para o fundo de um rio de turvas águas.
Estava novamente no Aqueronte, de onde eu havia acabado de sair, só que desta vez via apenas de longe a face de Caronte, o barqueiro, enquanto afundava lentamente. Não era o sono que Zéfiros me provocava em seu manso aconchego ao me levar a uma núpcia que me esperava. Era o sono da morte; Hades me reclamava em sua morada agora sob os caprichos daquela que carregava o amor nos lábios.
Ladina, Afrodite havia me sentenciado a um ultimo encargo; a morte. Sabia ela que a vaidade me atroçoaria mais uma vez. Da primeira foi quando com ingenuidade havia exibido as minhas irmãs aquilo que meu consorte misterioso me presenteara e sem perceber lhe despertava perniciosa cobiça. E agora, ao julgar-me feia e indigna havia aberto aquela caixa à procura da minha beleza roubada diante das tão sofridas provas a qual ela havia afligido a mim como remissão do meu erro.
Eu já divisava o fundo lodoso onde na eternidade descansaria. Pedia perdão a minha filha por arrastá-la comigo a aquele limbo escuro quando com um sopro me vi arrebatada de volta para o mundo dos vivos.
O frio não mais me tomava, não me doíam mais as feridas. Apenas um toque morno me embalava, me envolvia devolvendo o calor ao meu corpo. E eu reconheci aquele toque, aquele calor que outrora havia me devolvido a vida todas as noites, afastando a solidão e o medo do abandono quando me via desgarrado do seio da minha família e em terra de ninguém.
Reconheci aquele cheiro doce que emanava de se hálito, de seu corpo. Abri os olhos e o amor me fitava. Eu sabia que não estava sonhando, jamais teria sonho igual ali onde estava.
A carruagem de Apolo brilhava sob seus cabelos e o brilho sofria recortes de suas diáfanas asas. Ele me cobriu, apertando-me de contra seu peito, me senti aquecida por aquela plumagem macia. Ele me envolvia em suas asas.  
Chorei e pedi perdão incapaz de fita-lo, um erro que quase me roubara a felicidade. Apertava os olhos me aconchegando a seu peito. Ele preferiu não me responder em palavras. Mostrou quão era generosa sua alma me enchendo de beijos. Beijou-me com delicadeza as faces, os cantos úmidos dos olhos e por fim, com volúpia, beijou-me a boca devolvendo a felicidade a muito arrebatada da minha vida.
Olhei-o finalmente. Seu olhar refletia alivio de findando um sofrimento tão antigo quanto o meu. Alisou meu cabelo revistando-me o rosto, revistando as marcas que meu erro me causara e depois balançou a cabeça pesaroso.
Lembrando-se pousou a mão em meu ventre saliente. Muito tempo havia passado. Ela havia crescido, reconhecia aquele toque tanto quanto eu. Inclinou-se para depositar um beijo sacro em meu ventre. E ficou a fitá-lo por um bom tempo, extasiado.
– Perdoe-me, - eu disse de novo. Jamais farei novamente, jamais ignorarei o que me disseres – o amor não sobrevive sem confiança.
- Eu sei. Ele respondeu – Tu pagaste tua pena, eu também. Do destino ambos fomos joguetes. Mas estou crescido, não sou mais aquele infante que brincava inescrupulosamente com os corações, fazendo e desfazendo casais, inflamando corações por capricho. Agora tenho dimensão do poder que tenho nas mãos. Sei quando dói sofrer de amor. Nasci do amor e no amor encontrei minha reparação.


N.A. Esse é um dos mitos que mais gosto, são muitos, mas enfim. Depois do mito de Ísis e Osíris vem esse ai. A comunhão do amor com a alma e assim a maturação do sentimento. Um mito que tem ares de fábula. Contos de fadas, um final perfeitinho. E são tantos elementos fantásticos envolvidos que é impossível a uma pessoa como eu não se sentir completamente enfeitiçada por essa história. Há muitas cenas que gosto, mas por um motivo que não lembro acabei retratando pela minha visão essa ai. Faz muito tempo que escrevi. De uma época em que ainda era estupidamente romântica. Ainda assim, por mais que eu tenha mudado não faz sentido deixá-lo engavetado. Vai que tenha alguém que aprecie. Então, para não deixar o meu blog entregue as teias de aranhas por tanto tempo resolvi postá-lo. 

3 comentários:

Laísa C. disse...

Quem bom que o tirou da gaveta de seus sonhos mágicos para nos abençoar com o feitiço de suas palvras...

luciano disse...

"De uma época em que ainda era estupidamente romântica", bem, que bom que ainda sobraram lampejos dessa época, na verdade Eros e Psique convivem dentro de nós e vez ou outra um deles se manifesta. Mais belo ainda é quando essa manifestação vem em forma de palavras poéticas como as suas. Está certa, realmente parece um conto de fadas. Parabéns, e, sendo um pouquinho abusado, estou tentando montar um blog, visita lá:http://cruxceleste.blogspot.com.br/, ele mau começou e já está cheio de teias de aranha. Abraços e não some não.

Celly Monteiro disse...

Mágica são suas palavras, Laísa. Luciano, já dei uma passadinha lá, obrigada pela leitura. :)

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^