sábado, 3 de setembro de 2011

Penélope


Penélope e os Pretendentes - John William Waterhouse, 1912

No começo os dedos corriam velozes, movia o fuso sem habilidade. O fio era grosseiro, irregular, cheio de volumes. O pé pisava afoito no tear, frenético. A mão graciosa, os dedos finos e claros como hastes de cristais, moviam-se maviosos. Era mais belo vê-los trabalhando que o resultado da peça, mas tudo era graça e havia pressa. Seu espírito efervescia em uma ânsia, precisava viver, precisava experimentar. Havia a leveza, havia a beleza visível nas formas puras. A natureza transbordava-lhe de seiva. Seu movimento era um flanar harmonioso, afoito. Uma vontade de ser vista, apreciada. Na alcova não falta uma magnólia perfumada...
Hoje o trançado é moroso, mas o bordado é perfeito. Suas mãos trançam suavemente o fio, volta por volta com uma delicadeza primorosa, serena. Os dedos não são mais lisos e diáfanos, a pele é delicada, mas rugosa. Seus movimentos são perfeitos, não erram o compasso, mesmo que não houvesse luz no quarto, já os sabe de có.  Já não há mais pressa, os dias já não são mais os mesmos, os pretendentes estão à porta na promessa de terminada aquela fazenda colocar-se no lugar de seu amado Odisseu. Há o cansaço, o desagrado, a desilusão, a iminência de um amor perdido, jamais esquecido.
Mas, é ao apagar da vela que o coração amadurecido de mulher revela seu ardil, desfaz a cada fio aquela promessa, adiando mais um dia aquela espera por um amor que dentro dela jamais feneceu. 

3 comentários:

Laísa C. disse...

Um prosa de beleza rara...Chega a encher meu coração com a leveza de tuas palavras que correm tão facilmente na leitura, aprecio sua escrita Celly...
Perdoe-me o sumiço, estou sem internet em casa...

Sofia Geboorte disse...

O ritmo me lembrou o de um relacionamente que começa frenético e cheio de pressa, isso no inicio do casamento, e depois vai ficando mais devagar e sábio, mais cuidado com os pontos tecidos, mas ainda assim com o vigor de um amor jamais esquecido.
Suas palavras sempre possuiem uma singeleza na descrição que as deixam tão belas e profundas ao ponto de encantar e inspirar.

Duachais Seneschais disse...

Ahhh!!! Penelope à espera de Ulisses!
Amo mitologia grega, amo seus escritos e amo J W Waterhouse, vc, mas uma vez, me acertou em cheio hahahahaha

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^