quarta-feira, 22 de junho de 2011

Feliz Aniversário Verônica




O Anjo Renunciado e a legião dos suicidas


How Hannah pôs seus olhos no abismo. O bafo quente que espargia das entranhas da terra queimou sua face reverberando em lufadas até onde seu pé estava firmado. Ruflou as asas para dissipar o intragável cheiro de enxofre que se exalava junto com o lufar. Era um esforço inútil, ele sabia. Tinha que se entregar ao ar tórrido, mergulhar na larva fervente. Não havia outra passagem que levasse as terras do além-mundo.

Seus olhos, de um azul glacial, refletiam como espelho as miríades que se desenhava abaixo de si. Lá, onde a dor e a agonia era a engrenagem que movimentava uma existência sub-humana, formas descarnadas se retorciam em uma dança frenética sem fim. Almas sucumbiam a torturas infindas de implacáveis algozes. Gritos e imprecações escapavam até seus ouvidos. Um ciclo diferente movimentava aquele canto do universo, onde o sol não se levantava nem a noite trazia o descanso. Um regime de escravidão pairava sobre aqueles campos onde as almas se apinhavam retorcendo-se em genuíno desespero deflagrando incansável tormento. A eternidade fazia morada naquele canto do universo impedindo que cada castigo tomasse seu fim.

Afastou seus olhos da cena que se desenhava ali embaixo. Ou teria arrebatado de si sua sanidade, sugada pelos olhos. Sorvida por cada alma imersa em ódio e sequiosa de vingança por qualquer outra que estivesse em melhor estado. Deu as costas para o abismo, o fogo que se projetava das entranhas desenhava o contorno de sua sombra na terra escura que momentos antes havia trilhado. Estendeu suas asas para o alto. Era a ultima vez que se contemplava naquela forma de criatura dominadora dos céus.

Volveu seu olhar ao céu. Era o olhar derradeiro da criatura que lhe pertencia. Lá deixava sua hoste. Seu escudo de luz celeste. Sua coroa de estrelas. Seus companheiros de eternidade. Era muito a se perder, mas How Hannah não se permitia fraquejar. Estendendo a mão para além de cada ombro firmou os dedos envolvendo aquele par de carne firme que se projetava de seu dorso. Com a força e a firmeza que lhe cabia rasgou uma a uma das belas asas que lhe fora doada. Um ato que apenas sua mão poderia consumar. Um grito de dor sacudiu o firmamento, do céu a terra, fazendo rachar até a mais forme montanha. As asas, sacudidas ao longe, era o tributo que faltava a How Hannah para descer ao abismo.

Um segundo tremor abalou a terra. O corpo de How Hannah despencava extenuado por um ato maior do que podia suportar. Seu sangue sagrado escorreu pela rocha. Por onde tocava fazia brotar a vida. Ramagens de liquens floridos forraram as paredes do abismo, e para os infernais foi como abrir uma ferida na carne do inferno. Um sopro de vida, que no abismo, nem o fogo que crepitava incessante conseguiu dissipar.

Foi grande o tempo que How Hannah ficou desacordado, imerso na própria dor. Parecia que nenhuma força havia lhe restado. Sua mente galgava limites que lhe fora proibido. Seu espírito bateu a porta do céu e havendo seus irmãos lhe rejeitado, voltou. Quando levantou-se de onde havia caído, seu corpo de mármore na terra havia feito um novo abismo. Onde seu sangue molhou, nasceu uma fonte de onde é possível beber da vida.

Da própria túnica How Hannah tirou uma tira ao qual vendou os olhos para preservar a própria sanidade. Munido de sua maça e seu alfanje, ultimas relíquias de sua santidade, voltou à borda do abismo. Ali se precipitou sem hesitar. Mergulhou na larva que fervia dos castigos infligidos aos pecadores. Para onde estava indo suas asas não serviriam.

Transpor os limites do inferno não foi nem de longe a tarefa mais fácil para How Hannah. Renunciar das próprias asas era nada perto do vilipendio da própria alma. Ter de sentir tanto sofrimento alheio, tanta suplica pela salvação, clemência diante da centelha de luz divina que sua alma emanava e ainda assim ser obrigado a ignorar cada apelo. Forçar-se insensível a cada nota de dor que chegava aos seus ouvidos, para How Hannah não havia tortura pior.


Os infernais abriam passagem ao anjo renunciado, mesmo em meio a suplicas e rogos malgrados. Sua presença ali embaixo inspirava uma insalubre sensação de repulsa e temor. Embora não pudessem tocá-lo, brigaram com gana por beijar com fervor as marcas que deixava seu rastro na ânsia que aquilo os tronassem melhores. Foi longa a marcha de How Hannah no inferno, dentre corpos descarnados, vísceras humanas reviradas, ácido e chamas que lambiam-lhe a pele sagrada como serpente voluptuosa. Custou até encontrar aquela que procurava. A alma que se mantinha intocada mesmo no abismo. Uma alma que outrora respondera pelo nome de Dora.

Dora, que para os demônios era um brinquedinho inútil que não reagia às provocações perniciosas e não se sujava no mesmo lodo do inferno igual aos outros. Uma segregada. Para os homens Dora era uma perdida, dilapidada e denegrida por seus narcóticos. Mas para How Hannah Dora era anjo com as penas chamuscadas, que não se habituara a experiência da vida. A fraqueza, o suicídio a mandara para o inferno. Mas Dora não pertencia ao inferno, não pertencia aos homens, também não pertencia aos céus. Por decreto maior Dora deveria pertencer ao limbo, mas ela não queria ir para o limbo, por isso havia rogado ao céu.

Do firmamento How Hannah viu a suplica da moça que ousava rezar no inferno. Naquele mesmo instante o céu havia perdido um dos seus arcanjos. How Hannah, incapaz de ignorar aquele apelo, soube imediatamente o que fazer.

Arrebatar Dora das mãos dos demônios que a cobiçava não foi tarefa fácil. Foi preciso a How Hannah Bater-se com cada um. Mas, entraves com demônios era tarefa do arauto das alturas desde o principio, e embora não lhe restasse ainda às asas, aquela nova tarefa soube muito bem empreender. E mesmo que os demônios derrocados encanecessem por ultimo do anjo renunciado, questionando-lhe de como pretendia ele sair do abismo sem suas lindas asas, How Hannah sabia o que havia ido ali fazer. Desde o principio sabia que não era impossível escalar o abismo. Ao inferno o anjo sem asas havia se sentenciado. Mas havia tão grande sentido naquilo. Havia indo em chamado ao medo e a solidão de Dora que seu coração tão bem soube responder. Nas terras do além faria ele seu paraíso iluminando a escuridão com sua áurea, onde caberia ele, sua “Alma Intocada” e aqueles que clamavam no abismo pelo perdão, a legião de almas suicidas.




N.A. O que de melhor uma contista pode dar senão suas palavras? Espero que Aprecie meu presente. Feliz aniversário grande amiga literária.

3 comentários:

Beronique disse...

Fiquei muito feliz com esse presente Celly, na verdade me senti honrada com ele!!
E é muito bom, é perfeitinho o que eu gosto, as paisagens infernais, os anjos caidos em meio ao lodo do inferno, tentando buscar sua alma alado ou traços humanos. Eu quero mais ^^!!!

Mto obrigada querida!!

Duachais Seneschais disse...

Não é? tb ficaria honrada ^^ Um presentão, hein, esse da Celly? E ainda tem continuação! A criatividade dessa moça não tem fim, é incrível.
Ficou MUITO legal, Celly, adorei. Quero ver como vai ser o desfecho desse drama, fiquei curiosa para saber mais sobre Dora e How Hannah.

Celly Monteiro disse...

Ô Dua, sempre tão gentil e adorável. E, que bom que me deixou matar a saudade de vc, moça sumida. Mas ainda precisamos voltar a nos falar pelo msn. Me falar como vão indo seus projetos.
Presentão? Que bom que vc achou, eu escreveria com prazer um pra vc tbm. Acho que já sei um pouquinho do seu gosto, mas preciso pesquisar mais um pouquinho. Claro que não sairá nada a altura dos teus textos, que são quse uma obra prima. Mas farei com prazer. Já já trago a continuação deste. Bjs garotas e obrigada pelos comentários.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^