segunda-feira, 21 de março de 2011

O pacto I Parte - Eldynir, o Dragão Diáfano




No inicio eles eram selvagens e inalcançáveis, mas quando o pacto de paz que selava o domínio dos céus foi rompido, eles tomaram a defesa dos homens. Assim se deu inicio a saga dos cavaleiros e seus dragões.

Não importava o quanto meus pés se afastavam da terra do vale, eu ainda conseguia ouvir os gritos das pessoas e o cheiro de sangue vertido. Quanto mais eles estalavam em meus ouvidos mais eu continuava seguindo em frente sem dar importância ao cansaço e ao choramingo de Julian atrás de mim. Não fazia ideia de até que ponto a raiva e o medo havia me feito insensível, apenas continuava andando, escalando com uma fúria desesperada as pedras que circundavam a nossa devastada terra natal e nos separava dos planaltos, o mar de gelo e em algum lugar além, a terra do fogo. Esta ultima deveria ser o nosso destino final. Lá estaríamos salvos segundo vovó. Salvos, mas como e porque eu não fazia idéia. Tudo o que conseguia sentir e pensar tinha a ver com aqueles gritos que me perseguiam, que ainda repercutiam interminável em meus ouvidos.

Vovó está morta assim como provavelmente toda a nossa aldeia. E a morte também parecia em nosso encalço, perseguindo nosso rastro, espreitando a oportunidade de uma rasteira. Incansável, eu andava, mais e mais. As costas comichando com aquela ameaça iminente que o medo fazia colar nela como uma companhia certeira. Nunca havia estado mais apavorado. Julian choramingava, arquejava de agonia e cansaço, implorava, eu o ignorava. Enraivado por sua fraqueza, por tamanha infantilidade, o torturava com prazer, com uma perversidade que havia brotado da dor e da raiva. Havia me tornado deveras um imbecil.

Quem eram eles eu não sabia. Jamais havia visto hoste mais bela e também mais terrificante. Suas armaduras reluziam negras como azeviche. Eram feitas de pedra da lua, isso eu sabia, já havia visto uma cair do céu uma vez, e sabia bem o que um ferreiro bem exímio poderia fazer com ela. No escuro elas reluzem como estrelas, mas sob a luz do dia parece treva liquefeita e espelhada. Nenhuma espada do mundo pode ferir a carne de uma pedra da lua, ou mesmo arranhar. Já aquelas armaduras os faziam invencíveis, mas ainda havia as asas. Negras também como as de um corvo. As asas lhes conferiam o domínio do céu.

O que criaturas tão incríveis poderiam querer em uma aldeia tão simplória como a nossa, derramando um sangue que não queriam beber? Eu não fazia ideia. Mataram homens e mulheres, velhos e crianças. Crânios e crânios esmagados sob o peso de suas maças. Matavam e revistavam a volta como que procurando por algo mais importante, enquanto isso simplesmente esmagava os vermes que encontravam pelo caminho. Vi tudo da tenda de vovó enquanto ela nos aprontava para fugir. “Cuidem um do outro.” Ela disse. “Só precisam chegar até a terra do fogo e estarão salvos.” Foi a ultima coisa que nos disse.

Rastejamos pela fileira de pedra que levaria até o topo do vale. Mimetizados em meio à paisagem negra conseguimos nos livrar da maça implacável daquelas mariposas da morte. De um nincho das rochas vi o que eles fizeram a nossa avó. Foi o que faltava para me fazer apressar o passo, seguir em frente sem ao menos parar para respirar. Eles queriam a nós dois, ou a um de nós, eu sabia, vi isso nos gestos em que interrogavam vovó momento antes de sua morte. O que eles procuravam enquanto esmagavam alguns vermes pelo caminho só poderia estar na tenda de vovó. Ou ao menos estivera. Foi o que pude concluir naquele breve momento. Sem mais qualquer conjectura obedeci a ultima ordem da mulher que nos criou. Ou pelo menos achava que obedecia...

Durante três dias caminhamos, corremos, rastejamos. Não sabia se o exercito negro da morte nos seguia, pois não havia olhado para trás em nenhum momento. Se fizesse não teria ido tão longe, também se Julian não fizesse tanto barulho atrás de mim eu não teria aquela segurança de seguir sem olhar para trás. Mas é claro que isso não justificava aquela minha atitude. Pisávamos já o mar de gelo e se meu sangue não estivesse tão quente pela excitação do medo eu teria percebido a diferença de ambiente de maneira mais eloquente. Sabia apenas que o chão sob nossos pés era níveo e liso como jamais havia sido o chão do nosso vale, e a brancura imaculada a nossa frente fazia doer meus olhos, afora isso não percebia mais nada da terra em que estávamos. Eu estava louco, e tinha uma débil esperança de que aquela loucura nos salvaria, ou apenas seguia as instruções de nossa avó de uma maneira que ninguém jamais faria?

Algo no sussurro de Julian chamou minha atenção finalmente. Ou seriam impulsos de um novo delírio? Não sei dizer. “Eles já não nos persegue, quando ele vai perceber.” sua voz era tão débil, ele também delirava, falava sozinho. Já não chorava ou reclamava. Só ao olhar pra trás pude compreender. Virei-me energicamente resmungando. “Então sua criança tola, acha que está salvo e que devemos relaxar? Eles vestem pedras da lua e possuem asas que os sustentam ao céu, e nós, nós estamos a céu aberto agora!” levantei as mãos indicando o céu e a imensidão descoberta acima de nós. Mas meu gesto parou no ar, Julian me olhava de maneira tão comovente.

Vi que apesar de ter sido tão imbecil e pouco indulgente ele se desculpava. Desculpava-se pelo o que iria acontecer. Seus olhos mostraram um caminho vermelho atrás de nós. Fitei aquelas marcas com olhar arregalado, só então me encarando francamente. Nossos pés sangravam de três dias de caminhada e eu sequer havia notado. Julian se desculpava por se importar com coisas tão bobas como sangue e cansaço. Seu corpo despencou na pedra de gelo a meu lado. Nada podia dizer ou fazer. Ergui o corpo do meu irmão de 9 anos e o coloquei nas costas.

Continuei a caminhar com meu fardo nos ombros. Estaria mentindo se dissesse que dei mais de três passos. Tombamos naquela terra branca, no lençol de leite como o meu povo chamava o mar petrificado. Eu já ouvira falar dele tantas vezes, mas não imaginava o que era sentir o gelado, o gelo bruto adentrar em sua pele e corroer a sua carne, toldar seus movimentos.

Eu estava caído como um boneco inerte, e era como se milhões de agulhas estivessem penetrando as partes sensíveis de meu corpo. Dezenas de pedrinhas pequenas pareciam ter se alojado em meus pulmões e se arrastavam pelo meu peito enquanto eu respirava. Sabia que o frio me tomava para si em uma marcha progressiva, cobrindo-me mais e mais como um cobertor entorpecente. Deitado naquele chão, eu só queria que aquilo logo acabasse.

Olhava aquele céu a minha frente, de um azul ofuscante, lembrei-me das lendas sobre criaturas que moravam em uma terra tão alta que de onde quer que olhássemos de sob o planeta não poderíamos enxergá-la; o arquipélago suspenso dos guerreiros de Noar. Entretanto, de lá das alturas eles podiam ver tudo o que se passava nas terras inferiores estando sempre a nos vigiar, por esse motivo deveríamos tomar cuidado com o que fazíamos, sobretudo por que eles sempre poderiam tomar a voz da justiça e nos julgar por pecados que por ventura cometemos.

Será que eram eles? As mariposas negras eram os guerreiros de Noar? Será que os ofendemos com algum ato abominável e por isso fomos castigados? Seria possível ter um castigo igual a aquele que a minha aldeia teve? As lendas diziam que os guerreiros de Noar velavam pela justiça, e poderia haver tudo menos justiça no genocídio do meu povo.

Logo eu não conseguia mais pensar. Apenas via o céu a minha frente obrigado pela paralisia das minhas pálpebras. Meu cérebro não articulava ideia, eu apenas via. Eles haviam chegado. Cobriam o céu como uma nuvem de gafanhoto. Vinham de muito além, acima do céu azul. Um deles estava tão perto, preparava-me sua maça, ia arremessá-la contra meu crânio. Sua face era bela em sua máscara de ódio e jubilo maldoso. Mas o seu corpo belo e perfeito foi coberto pelo fogo. O vi gritar e espernear no ar enquanto as penas de suas asas chamuscavam e sua armadura derretia. Pedra da lua é perecível ao fogo, apenas ao fogo.

Ele caiu em algum lugar daquele deserto de gelo. Além deles havia outras criaturas aladas no céu. Como eu havia me esquecido! Se lembrasse das criaturas que moravam na terra do fogo compreenderia ao menos um pouco aquela ultima ordem de vovó.

Não havíamos ainda alcançado a terra do fogo, mas eles estavam ali, os lagartos do céu. Dragões de todos os tipos pintavam o céu de colorido. Havia os negros e reluzentes que mais pareciam vestidos de pedra da lua também. Havia os vermelhos flamejantes cujas escamas pareciam cobrir-se de larva fervente. Havia os verdes escama de jade moradores das florestas e cavernas, e o mais belo de todos que poderia vislumbrar; o dragão diáfano, cujas escamas eram mais puras que aquela neve, peroladas, pareceria concentrar luz. Tratava-se do mais sagrado de todos os dragões, o maior e mais majestoso deles. Nunca pensei viver para ver um deles, e ao que parecia era a ultima coisa que veria.

O céu esfumaçava, os guerreiros alados pareciam moscas esturricadas no ar. Alguns deles investiam contra o pescoço dos dragões com a intenção de abatê-los em um só golpe, mas não passavam de débeis mariposas perto de tão majestosas criaturas. Não sei se partiram em debandada, tudo parecia aquietar-se. O frio me tomava, senti me engolfar em névoa, em nada. Depois senti a pele arder, tudo queimava, eu queimava de febre, o mundo queimava. Abri meus olhos. O céu se inflamava em elipse. Uma cortina de fogo me envolvia. Eu ardia. Ele soprava. O dragão diáfano soprava, o gelo derretia, eu me empapava. Afundávamos.

Agarrei a mão de Julian. O mar se abria em fenda para nos receber. Vi-me nadando desesperado agarrado a Julian, era tão inútil. Então algo nos cobriu e nos suspendeu. Vi o chão ficar distante. Uma corrente de ar parecia soprar de duas direções nos açoitando. Um zunido nítido de bater de asas em meus ouvidos. E aquele mesmo zunido embalou-me ao sono. Tudo se embotou e escureceu.

9 comentários:

Yane Faria disse...

Ai estou amando esse conto, não sei pq mas amo histórias de dragões, não sabia dessa minha paixão até ler o primeiro livro a pouco tempo atrás, estou facinada. Vou esperar ansiosa a próxima parte.

Beronique disse...

Manda mais, manda mais, muito bom esse conto, histórias de dragões são sempre tão recheadas de coragem e fascinio, e você não poderia ser autora melhor para escrever um conto sobre criaturas tão fabulosas! Com alma, enredo e descrições fieis a historias da terra média ^^ Curiosa pra saber o destino dos dois irmãos!!

Eric Musashi disse...

Muito bom, Celly, adorei o clima sombrio, meio de suspense, até, proporcionado pela primeira pessoa.

Leve fé naquela minha sugestão de fazer o retcon, deixando tudo no mesmo universo.

Parabéns!

Emoções disse...

Lindo conto. Lindo blog. Voltarei sempre.
Fica na paz.

luciano disse...

Incrível, é inesgotável o que se pode contar sobre os dragões, estou esperando a continuação dessa aventura!

Duachais Seneschais disse...

Sério, sério mesmo, Celly!
Não consigo assimilar a vastidão da sua criatividade! Por todo e qualquer campo (principalmente a fantasia e o sobrenatural) ela se estende.
É fascinante o universo que vc criou, ele me cheira a épico e sucesso, com toda a certeza. Não vi continuação e, claro, tenho que pedir!
A confusão do rapaz, o desespero, o sacrifício e instruções de sua avó, os dragões salvadores, as tais mariposas negras, os Guerreiros de Noar... tantos elementos que se interligam nesse conto e nos deixam desejando mais: mais informações, mais respostas, mais personagens, mais conto!!

Se permite a essa descarada desaparecida que vos fala, gostaria de dar algumas de minhas sugestões:

"Nenhuma espada do mundo pode ferir a carne de uma pedra da lua, ou mesmo arranhar." - Não sei pq, mas 'carne' não me parece o termo apropriado. Não sei, me faz pensar que a armadura é um organismo vivo (a não ser que seja mesmo xD mas acho que não)

"Cuide um do outro" - Acho que seria 'cuidem'.

"Foi o que faltava para me fez apressar o passo" - 'Foi o que faltava para me fazer' ou 'Foi o que fez me apressar o passo'.

Celly Monteiro disse...

Como agradecer mais uma vez as suas sugestões que me são tão caras? Obrigada querida. Nossa, que saudade viu, tive que deixar um Berrador lá no FanFiction Express. rs Vc recebeu né? rsrs
Muito obrigada pela visita e pelos comentários como sempre muito gentis. Bjos!

Rudinei Schneider disse...

Adorei seu conto Celly parabens pela enorme criatividade estou so pela segunda parte agora o/

Anônimo disse...

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Meus selinhos ^^

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