terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Tinta na ponta da varinha de condão

Fui um bebê na terra dos sangues azuis. Saltei do meu berço de ouro para acompanhar menino que passava no firmamento com estrela na mão. Mas logo me perdi e não soube encontrar o caminho de casa. Nenhuma ilha me esperava no fim daquela jornada.


Fui criança da terra dos meninos perdidos jamais achados. Andava descalço e cabelo emaranhado. Nosso riso cristalino dava voz às cachoeiras. Tinham a nossa tutela, apenas as salamandras do céu. Mas um dia tentando colher da cor da aurora com uma folha de parreira, sumi das vistas das salamandras coloridas. De novo eu era filhote sem ninguém.

Errei para as bandas do monastério. Aprendi a ler os escritos divinos com os sacerdotes do vale do sol. Mas lá era proibido guardar nos olhos aquele brilho de mistério, tentaram fazer da minha face uma máscara só. Saltei a muralha que guardava os herméticos partindo em direção ao "Horizonte Além".

Conheci os nômades de ideias, jamais se prendiam a uma ideia só. Assim que se cansavam da ideia achada, largavam e vagavam a procura de uma que já não fosse tão manjada. Aquela vida não me agradava, tanta procura para não ter nada na mão. Tornei-me miragem do deserto da solidão. Minha imagem afagava os sonhos dos poetas, dos românticos, dos sonhadores, mas desfazia-me com um toque assim que eles estendiam a mão.

Fui mocinha de contos de fadas, mas deixei meu príncipe encantado esperando na estrada com seu alazão com medo da maldição dos "Felizes para Sempre". Uma menina do cabelo comprido já havia me alertado do perigo da vida de tédio que era cuidar da casa, dos filhos, do marido. E no caminho nem mais um dragão...

Por fim resolvi ser gente, e um dia, com lápis e papel na mão, aprendi uma magica diferente.

5 comentários:

Yvis Tomazini disse...

Q bonito, cara...

O mundo de Lia disse...

Lindo, poetico. Me identifiquei sabia? rsrs

Nilo disse...

Fantastico, encontramos um pouquinho de nós mesmos em tuas frases.

Duachais Seneschais disse...

Achei uma coisa linda. Mais uma de suas mágicas!

"Por fim resolvi ser gente, e um dia, com lápis e papel na mão, aprendi uma magica diferente." Achou sua varinha de condão e deixou a mágica fluir pelas palavras de tinta.

E parece que sua varinha de condão jamais deixará de nos enriquecer com tua mágica, que ela continue sempre encantada. (e que a minha varinha de condão um dia faça mágicas tão lindas quanto a sua).

Celly Monteiro disse...

"e que a minha varinha de condão um dia faça mágicas tão lindas quanto a sua"!!!
Queria eu escrever como vc, com tamanha riqueza, maturidade e sensibilidade. A primeira coisa que li sua me fez cair o queixo. Fiquei super impressionada, até mostrei a minha irmã toda encantada. Aquele texto que começa em Erin, é uma coisa de louco, eu já havia te dito. E os outros textos que li seu não ficaram por baixo. Por isso não vou nem considerar essas palavras. Queria mesmo é que vc. queria mesmo é que vc criasse coragem e mostrasse seus textos as pessoas, ai sim vc ia acreditar em mim. Obrigada pela leitura, querida, e pela palavras. Bjos!

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^