terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Rebento de Lilith


Ela não me legou uma vida, legou refluxos de uma sub-humanidade. Me ensinou a beber do lodo. Como um sucumbo a me alimentar de desejos de outros. E por perversa vaidade de quem só tem para oferecer o fel, me fez imagem de sua imagem. Desgraça de uma desgraça. Não aprendi a andar, mas a rastejar. A espremer em um estertor da minha vítima a ultima gota de suas veias, só assim aplacar o furor das minhas entranhas em eterna sanha. Tentar compensar com seiva humana essa eterna subnutrição. Desvalides de quem nada vale. Mas... para vergonha de sua progenitora, o verme asqueroso alimenta vontade clandestina. Rejeita secretamente malfazeja sina. Um dia ainda quer contemplar o céu.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Seleção de contos de fantasia

Aos interessados de publicarei seus contos de fantasia - qualquer gênero da fantasia;  fc, terror, etc - no site Benfazeja  enviem os contos para meu email: celly-monteiro@hotmail.com .

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

UM PAPAGAIO PALIMPSÉSTICO - Conto premiado de Newton Emediato Filho


 
Ilustração de João Batista Lazzarini

Naquele dia – na beira da tarde –, logo acima do curral oval de poucas gramas, estavam sentados Pedro pai e os meninos da fazenda. Todos sentados na parte de capim menos castigado pelo gado. O tempo caótico naquelas paragens... O vento – forte e frio – expulsava as nuvens nefastas, armadas longe. No vale as nuvens aglomeram e às vezes com trovões pequenos. Portanto, a qualquer momento poderia chover – é o fim da colheita das grandes plantações de milho e feijão na Soparimba.
Pedro pai manipula um saco plástico de adubo e, com suas mãos ásperas, dá retoques simétricos no quadrado de plástico. Para isso usa uma velha tesoura de ferro de tosar as crinas dos cavalos; tem válida serventia. Nesse saco plástico, reciclável, as palavras grafadas em letras grandes se encontram danificadas e até apagadas.
Ao lado daquele cocho, na grama, em repouso há três gravetos medidos de alecrim coletados no cerrado, horas atrás. Além disso, jogados no chão, um facão e uma foice mal amolados. Nesse chão, Pedro pai estendeu o saco tosco, bem aberto e desamassado, que permaneceu ali na espera sobre a areia misturada com o barro de estrume de gado seco. Pedro pai contém um riso enigmático nos lábios, experimenta os gravetos, alisa e morga-os. Repara bem. O experimento pode resultar, no final, em logro para os meninos de olhos espertos e ansiosos. Os gravetos, em forma de cruz, são amarrados com pedaços de embira.
– Pedro pai, quando ocê rasga a embira com as mãos embebidas de restos de água, ela traz cheiro tão bom! 
O graveto mais comprido, quando é alisado a canivetadas, morgado no amarro, forma em equilíbrio uma meia-lua. Logo após essa envergadura, também amarrado nas partes superiores dos dois gravetos – em forma de cruz –, o esqueleto da estrutura é testado contra o vento várias vezes seguidas. 
Sobre o saco plástico, a armação estruturada de forma aerodinâmica teve o amarramento ordenado – bem posto e caprichado. Tem de fazer, então que faça com calma, é fato indubitável!
 Pedro pai perscruta o tempo, pois o seu maior desafio está prestes a acontecer e tem que contar com a sorte e com o tempo. Verifica e aperta bem as amarrações do seu empreendimento. A rabiola, por fim, os meninos a fazem utilizando um bom barbante grosso e restos de outro saco plástico. Mas quando Pedro pai testa o seu protótipo imenso – capaz de assustar qualquer transeunte –, levantando-o contra o vento, percebe o estorvo e solta vitupérios, descartando de imediato a rabiola que rabeava – puxando de lado –, o que deixou os meninos boquiabertos e queixosos...
– Vumpt, vumpt... é o vento forte contra o enorme papagaio de Pedro pai. Nessa perspectiva, os meninos correm a conduzir, a uma certa distância, o papagaio, levantando-o até quanto pudessem. No vento muito forte o papagaio foi solto, rompendo os bambuzais... alçando vôo... decolando... enfim. Na verdade, bastou largá-lo e o tempo se encarregou, num instantâneo, de realizar o resto. Parecia mais que nem um passarinho; Pedro pai realçou isso em seu rosto, na hora.
Aquele papagaio imenso, que foi motivo de tanta burlescaria, agora estava nos céus da Soparimba. As escritas no plástico, ainda nas alturas, se deixam vislumbrar ora sim, ora não. A manivela com a linha de nylon adquire um peso dantesco e, aos poucos, Pedro pai libera mais e mais linha. O vento cada vez mais forte sopra no vale da solidão. O céu está carregado de uma cor turva que vai se acumulando – concentrando no vale.
O peso aumenta ainda mais quando os meninos acrescentam na linha pedaços de papéis com diversificadas palavras. Palavras escritas com carvão. As letras foram rasuradas quando corrigidas umas sobre as outras, assim rapidamente, quando Pedro pai reescreve uma palavra em cima da outra. Logo as palavras, amarradas na linha de nylon, atravessam as cercas do curral, as formas das árvores, e passam por cima da grande casa da fazenda, se elevam nas alturas: tudo aquilo se tornou muito garrido. Pedro pai manda os meninos enviar mensagens para o mundo de lá.
Paz, amor, alegria, “armonia”, abundância, “cassa”, roupa, perseverança, casa, “lápisc”... Seguem para o céu em meio às trovoadas.
A linha é liberada totalmente da manivela e Pedro pai não suporta tanta batalha pesada. Luta contra o tempo. Vêm os primeiros pingos da chuva, e ele, sapeca, corta com o seu canivete a linha sem que os meninos saibam. Deu a impressão de que a linha tivesse arrebentado por si mesma. Mesmo porque, àquelas alturas, o homem, resignado, não tinha como lutar mais contra a natureza.
O papagaio ainda fora visto, nas alturas, pela ultima vez sendo arrastado pelo vento forte nas nuvens agitadas. Os meninos, com suas cabeças erguidas para o céu puderam ouvir ainda as palavras de Pedro pai, indo na direção do paiol, enquanto eles fugiam para dentro da casa:
– Eu é que nunca vou sair da Soparimba!


O conto em questão recebeu o Prêmio Projeto Manuelzão/UFMG e Menção Honrosa pela Editora Guemanisse Teresópolis/RJ
Newton Emediato Filho é finalista do conto curto pela Editora Via Literária Porto Seguro/BA dezembro 2010 com o conto "Ancestral".

Parabéns amigo e boa sorte!


sábado, 11 de dezembro de 2010

Ludmila


Na terra do Império Austral nasceu Ludmila, cuja face era da cor das nuvens, cujo cabelo era da cor do sol e seu espirito incontido luzia em seu peito recendendo como um astro vivo. Do nascer ao arrebol nas montanhas azuis só se ouvia o estalar de seu riso. E todos diziam; “- Ludmila, tu tens a alma daqueles que vivem entre as estrelas.” Seu pé era leve feito pluma e ágil feito flecha. Sua vontade não parava um só instante. Sorver da vida como um mel dos deuses Ludmila tinha pressa. Mas eis que as bruxas do Norte da menina tomou inveja. Lhe incomodavam alma tão livre, tão feliz e tão sincera. Deram-lhe uma caixinha de vidro onde selariam seu espirito.
“- Mas veja que linda menina! Disseram as feias megeras. – Pena ser para sempre menina, que sina triste lhe espera. Com tão grande e indomável espirito não cabe em corpo de moça adulta. Não será esposa, não terá filhos, sua existência será sempre incompleta... A menos que lhe prendam um pouco do espirito em uma caixinha de vidro a cada primavera.” E assim findou-se a alegria e o riso. Desde então vazio e espera. A cada ano prendiam-lhe um pouco do espirito. Também a felicidade de Ludmila eclipsou-se desta terra.





Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^