quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Espetáculo


Todas as vezes que o circo chega à cidade, trazendo um tropel irritante, com seu barulho desordeiro, mobilizando uma massa humana, arrancando gritos e estampidos, tremo por dentro. Sou tomada por um medo que paralisa-me toda. Se estou à porta de casa, corro para dentro e fecho as portas até que o tropel passe. Se acontece o azar de eu estar na rua, adentro pela primeira porta que encontrar. Todos riem de mim quando admito; tenho medo de circo, de seu barulho insano, de seu arrastar de pessoas, de seu calor alucinado. Minhas netas me olham de maneira irrisória quando me vêem tremer como criança toda vez que a caravana circense faz sua marcha pelas ruas da cidade se anunciando. Fico calada tremendo em meu canto, me afogando em lembranças não tão boas. Porque elas não sabem que o circo é só desculpa para as pessoas libertarem a selvageria que sempre carregam presa no peito. Porque sempre que podem elas estão dispostas a gritar e rir em extravaso. Para libertar o que tanto escondem dentro de si acabam, sem qualquer decoro, achando graça até onde não existe.
Eu era menina quando vi um circo, não desses que as pessoas estão acostumadas a ver, outra espécie de circo, armado com um motivo parecido de atrair e divertir. Era recém-chegada em Diamantina, estava ainda naquele deslumbramento de pessoa nova em cidade tão bonita, principalmente por que saía pela primeira vez da fazenda de meu pai para morar na cidade. Tinha também recendendo em mim um ar de ingenuidade e abstração fruto do lugarejo provinciano onde antes morava. Certo dia, notei uma animação incomum se alastrar pelas ruas. Um vai e vem de pessoas, um riso solto no ar, uma excitação misteriosa nas faces de quem passava seguindo sempre para uma mesma direção. Sai à porta para ver o que acontecia. Sem querer me senti também animada e curiosa por aquele repentino rebuliço popular. Olhava as pessoas com aquela expressão entusiasmada estampada na face e também me animava, rindo também, mesmo sem saber dor que, contagiando-me daquela alegria. Então de repente, saindo dentre aquelas pessoas que se aglomeravam, veio uma vizinha, uma meninota da minha idade. Veio até mim e me puxou pelo braço. – Vamos lá, vamos ver de perto. Ela disse com aquele mesmo riso animado preso na face. Esperando uma surpresa boa me deixei ser guiada, me distanciei com ela guiando-me em meio a aquele contingente de pessoas em animação desvairada, em um empurra-empurra por uma visão melhor, em uma expectativa que só tornava maior aquela excitação geral. Como éramos pequenas, nos escorregamos sorrateiras até a fila da frente, tendo assim uma visão privilegiada na fileira principal. O que vi de inicio não me pareceu fazer nenhum sentido para toda aquela agitação, para justificar aquele apreço das pessoas em se empurrarem e se apertarem esticando o pescoço proferindo exclamações que enchia o ar de um murmurinho desconexo. Na praça principal havia apenas um palanque simples montado, dois homens em cada extremidade. E o que me chamou a atenção; ao centro do palanque havia um alçapão. Olhando pelas frestas do palanque, pude ver as botas de outro homem embaixo da armação. Questionei-me o que ele fazia ali escondido. Qual o espetáculo que encenariam ali, naquele palco tão singular. E as roupas grosseiras daqueles homens, suas caras sisudas e que me pareceram até mesmo hediondas chamou deveras a minha atenção. Em meio a minha inocência de menina provinciana fiquei esperando, também com expectativa, aquele espetáculo a qual todos torciam se revelar. Lembro que fiquei ali algum tempo na espera, enquanto as pessoas se impacientavam e clamavam entre resmungos e imprecações que se consumasse logo o ato a qual eles estavam ali, tão gentilmente disponibilizando um pouco de seus tempos e atenções.
Senti quando algo acontecia quando vi aquela massa de pessoas assumirem um temperamento incomum, quase selvagem; gritavam e se inquietavam em seus cantos, transmitindo uns aos outros sussurros e comemorações. Se acotovelavam e se aglomeravam ainda mais em direção ao palanque, quase esmagando a quem estava na primeira fileira. E desprendiam gritos e assoviavam, e esticavam ainda mais o pescoço a risco de cair em cima dos que lhe estavam à frente. Todos queriam um pouquinho do espetáculo, todos queriam uma visão privilegiada do que iria se suceder ali. Lembro que ainda não tinha idéia do que aconteceria quando vi subirem com aquele homem em cima do palanque. Dois homens o trazia com uma delicadeza que parecia que traziam um animal. Ele tinha as mãos nas costas, presas por grossas cordas. Trajava-se de andrajos, estava sujo e seu mau-cheiro podia ser sentido de longe. Sua face estava quase toda encoberta por aquela barba expressa e mal cuidada que exibia. Mechas desgrenhadas de seu cabelo também acabavam por esconder-lhe o rosto. Mas o brilho de seus olhos conseguia destacar-se em meio aquela profusão desleixada. Consegui enfim entender o que aconteceria ali quando mirei seus olhos. Tinha um brilho penoso desses que você ver quando fita um bicho ferido, e um vazio doloroso que nos faz desviar o olhar para também não ser tomado por aquele nada, também não ter esvaída nossas esperanças na vida ao encará-lo. Ao dar-me por mim do que se passaria ali, tentei sair, tentei fugir daquele circo de insanos, mas não me deixaram, de tão compactada que estava àquela massa humana, não consegui mover um pé do lugar. E imprensada da forma que me encontrava contra o palanque, não consegui nem mesmo me virar para não fitar o que ocorreria. Não demorou muito até que tudo estivesse acabado. Até aquele bando de selvagens sanguinolentos estivessem saciados de morte. Até que um corpo pendeu inexpressivo alçapão abaixo, depois de muito fazer vibrar de forma desvairada a platéia, enquanto se retorcia em sua agonia antecedente a morte.
Entendi uma coisa olhando cada uma daquelas faces excitadas deleitando-se de forma alucinante naquele espetáculo popular. Os homens guardam algo dentro de si, uma coisa selvagem e medonha que vive sedenta em seu cárcere, ávida por se alimentar de seja qual for o show, pouco se importam, só esperam um momento, uma oportunidade, um leve motivo para que possam emergir de dentro, vislumbrar o mundo de fora, mostrar a face, saborear a liberdade frente a qualquer espetáculo que lhe apresente oportunidade de se manifestar. E depois de saciarem como se pode, depois de perderem-se em pleno extravaso, depois do momento que dá passagem àquela loucura desvairada que levam dentro de si, revestem-se de novo em uma serena e lúcida imagem de cidadão decente. Por isso tenho medo do circo, ou de qualquer manifestação popular que se faça oportunidade dos homens libertarem aquela sede desvairada que levam dentro do peito.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O preço do silêncio


Que preço tem o silêncio? Custou-me a liberdade. Achei que estaria feliz quando ela parasse de gritar, mas agora que não ouso mais uma só palavra, mesmo de xingamento ou injuria. Agora, quando o que resta é um silêncio imaculado e opressivo, tenho um gosto amargo na boca. A ausência de nota no ar, que não delata nenhum movimento, nenhuma reação ostensiva, causa um vazio e trás velado nesse nada, algo de funesto que faz o medo morar quieto aqui no peito. Tento então afastar os pensamentos. E sempre que faço sinto-me como que fugindo de algo que quer me agarrar e esmagar-me como mãos negras em um espasmo de pavor. Seria o medo?
Faz um dia... Não, talvez já faça mais tempo. Seria o cativeiro que me enlouquece? Não foi a pior das nossas brigas, não dentre tantas outras, mas parece que dar-me as costas foi à única maneira que ela achou para resolver as coisas. Simplesmente parou de gritar, e devota-me então um tratamento de silêncio, de desprezo, de frio desprezo. Sempre pensei que ela fosse capaz de tudo, mas trancar-me no quarto até morrer? O engraçado é que não tenho nem fome nem sede. Penso que a teimosia me faz forte. Sempre fui assim; de um orgulho obstinado. Mas esse seu silêncio tem sido corrosivo, igual a uma aragem caustica que dilapida a pele a cada açoite. Porém, sinto-me ruindo é por dentro, a cada instante. Diluída nas ultimas lembranças, entorpecida, minha alma vai se impregnando da toxina do ódio e rancor e degenera-se aos poucos. À medida que esse suspense e silêncio tem o dom de tornar minha existência atemporal vou também me enchendo de maldade. Meu âmago é só ferida dolorida. Sinto arrebatado de mim toda pureza e bondade. E o que antes ainda era amor, perde-se na lembrança deste abandono.
Desnorteada, o que lembro daquelas primeiras horas foi que ela trancara atrás de si a porta, depois de olhar para o quarto com aquele vazio nos olhos e fingindo que não me enxergava ali, encolhida ao lado da cama. Corri para trancar a porta com raiva e vi que ela já estava trancada por fora. Era um castigo. Deveria engolir aquela humilhação e esperar até que acabasse. Era inevitável não me entregar ao pranto, que a aquela altura era enxuto como uma névoa de dor que apenas enfluía do peito. Ainda tenho o peito pesado desse pranto que não me quer molhar a face. Talvez também por teimosia. Penso que também estou me fazendo forte com relação às lágrimas.
Não voltei a vê-la. Também não me disse mais palavra. Depois de um vago momento de murmurinho, também a casa se engolfou naquele silêncio. Tentei fugir pela janela, mas me pareciam soldadas. Tive raiva dela e esse foi o princípio daquele sentimento negro que tomava-me como uma torrente arrasadora, com uma força desvairada. Questionei-lhe com sinceridade. O que ela queria tratando-me daquela forma. Trancando-me entre aquelas paredes limitadas por tantas horas. E o nada foi à resposta que só alimentava minha raiva. Então comecei a agir como ela. Usei as mesmas armas: gritei e lancei coisas contra a parede. Proferi um milhão de insultos e palavras imorais e novamente minha ira era alimentada. Exausta, adormeci. Quando acordei o quarto estava arrumado, as coisas no seu lugar de volta. Mas a porta ainda trancada e nenhuma palavra. Nenhum som por um bom tempo. Em algum momento a porta voltou a ser aberta. Rostos estranhos despontaram no limiar. Olharam com interesse para dentro. Aos gritos perguntei quem eram, o que faziam ali e o que ela queria com isso. Quem sabe advertidos do meus animo por ela não deram-me atenção. Olharam até quando quiseram com apenas a cabeça passando da porta e uma curiosidade irritante a amostra e depois foram embora trancando-me novamente. Enquanto eles estavam por perto uma chama quente de esperança e conforto queimava em meu coração. Então cheguei a encarar meus erros. Analisei a situação. E lançando a toalha branca cheguei a lhe pedir perdão abdicando de todo o ódio acariciado antes. Mas a resposta continuou sendo-me o seu silêncio. Logo a movimentação na casa se aquietou. Da presença dela e daqueles estranhos nenhuma resposta mais. Comecei a encarar com realidade a crueldade no coração das pessoas. Desacreditei de muitas coisas também, incluisive na bondade e no perdão. Ela havia me abandonado. Não era verdade o que me diziam de laços de amor e afeto. De um sentimento inquebrável entre a mãe e sua cria. Eu estava só naquele quarto, com aquele peso no peito e tão abandonada e maltratada que parecia que enlouquecia. Que parecia que não havia mais barreiras do tempo, que não havia mais necessidades físicas, que não havia mais nenhum alento na vida. Vida;... tudo de repente se embotava de uma forma que se resumia aquele silêncio. Aquele nada. Aquele vazio. Aquele ódio. E aquele medo que parecia me sufocar toda vez que virava o rosto ao lado para onde ficava a porta do banheiro. Penso que tenho que me lembrar de algo. Algo que tem a ver com aquele silêncio. Preencher aquela lacuna.
Então finalmente eu tento. Lembro daquela briga que não tinha nada de diferente das outras exceto por aquele cansaço. Sim já estava cansada, como um recipiente que de tão cheio a qualquer momento iria transbordar e me trazia aquela sensação de que não dava mais.
Os gritos continuam. A mágoa sufoca-me o peito. Tapo os ouvidos. Nada a faz parar. O recipiente parecia transbordar. Tranquei-me no banheiro e...
Sorrateira as mãos negras vêem novamente me torcer entre seus dedos, me esmagar. Finalmente consigo entender; ela chama minha atenção para um canto do aposento. Finalmente compreendo. Me encolho ainda mais em meu canto ao lado da cama. Tenho que encarar tudo de frente. Já não posso mais fugir. Com muito custo consigo finalmente fitar a porta do banheiro escancarada. O piso agora nodoado. Um súbito aperto comprime meu peito. Finalmente sinto o silêncio se quebrar em mil estilhaços. O som ecoando no vazio:
- Mãe. Tenho medo!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Caneludo e Beredir- “O cavaleiro sem cavalo”

Imagem encontrada na Web


Houve um tempo em que no mundo todos os cavalos eram selvagens, exceto alguns poucos em que a mão do guerreiro já havia amaciado o animo e lhe feito montaria. Por tal feito qualquer homem assumiria então titulo de nobreza além de ascender belicoso degrau no exército real de Erin. Eu cresci admirando esse número tão reduzido de homens que haviam conseguido domar feras tão bestialmente selvagens e com isso aumentado o poderio do exército real. Dizia para todos: - Um dia hei de ser cavaleiro. Mas não havia quem não risse de mim depois daquela afirmativa. Levava uns tabefes na cabeça e ouvia: - Para cavaleiro antes tu precisas de um cavalo, meninote franzino. Depois de homem feito, perdi as contas das vezes que me meti ao meio da manada selvagem esperando agarrar também o meu a unha. Fora a sorte que não me dera um crânio rachado pelas patas esmagadoras daqueles corcéis. Porém as fraturas ainda as tenho hoje. Como eu insistia que ainda seria cavalheiro, deram a me chamar pelas ruas de “O Cavaleiro sem cavalo”. Era a maior humilhação para quem tinha um sonho como o meu. Mas não desistiria dele, apesar de tudo. Não sei que tipo de arte ou sorte tomava tão nobres guerreiros a ponto de conseguir levar um daqueles corcéis para casa. Até hoje não descobri. Sabia que metiam-se ao meio do bando em pleno tropel, agarravam o que lhe parecessem o mais franzino e distante dos outros e não largavam-lhe o pêlo por nenhuma arte do mundo. Eram então arrastados por dias até que o cavalo tomasse cansaço e também não lhes sobrasse nenhuma pele no corpo. Então os nobres animais reconheciam a coragem e o sofrimento do guerreiro e se deixavam ser amansados. Mas isso era sorte de um homem por cada temporada em que a manada se enveredava para as margens do povoado. Eu assim já havia tentado muitas vezes, mas nenhum deles deixava se quer eu chegar perto de seus pêlos. Depois tinha de agradecer a sorte de permanecer vivo depois de ter me metido no caminho da tropa tantas vezes.
Havia alguns dias que a manada tinha se aproximado e também já havia deixado aquelas terras para trás. Eu amargava aquela nova derrota e muitos arranhões no orgulho e no corpo. Mas aconteceu que não demorou para que em uma noite eu tivesse um sonho demasiado misterioso. Nele o senhor dos cavalos selvagens procurava por algo dentre os charcos do norte. Três noites se repetiu o mesmo sonho. Pensei que o senhor dos cavalos me representasse nessa busca incessante por um titulo de cavalheiro e por isso pouco dei importância ao fato. Porém, ao quarto dia o sonho mudou. Uma voz agradável chamava-me pelo nome a me dizer: - Beredir, Beredir, seu cavalo o espera nos charcos do norte. E para mim parecia que vinha da égua branca, fêmea do senhor dos cavalos.
Curioso por aquela mensagem misteriosa, não resisti, me enveredei pelos charcos nórdicos. E, com efeito, o que encontrei enterrado a lama, preso a uma rede de junco? Nada senão um exemplar daquelas criaturas. Digo exemplar porque não passava de um potrinho magrela e possivelmente recém-nascido. De corpo minúsculo e canelas enormes. Porém adorável com seus olhinhos oblíquos expressivos e aquela vivacidade de diabrete. Esperneava em meio às moitas e seu relinchar lembrava o canto esganado de uma gralha. A pobre criaturinha perdera-se ao embrenhar-se naquele pântano. E findada sua temporada na terra dos homens sua manada agora ia longe deixando o desditoso para trás. Foi custoso seu libertar daquela ramagem intricada, tanto pelo seu espernear, quanto porque suas pernas compridas muito atrapalhavam o resgate. Mas logo visto liberto, saudou-me com muitas lambidas compridas em agradecimento. Meu ser se encheu de contentamento porque eu tinha enfim meu cavalo, e ele não me custara nenhuma pele do corpo.
Muitos foram os risos de chacotas a que fui vitima no reino quando me viam trazer nos braços aquele embrulho diminuto e esquisito e depois de me perguntarem: O que trazes ai Beredir? Eu ter respondido: Meu cavalo. Assim, em meio ao alarde dos risos ouve motivos para muitos gritarem: Vejam-lhe o cavalo deste cavaleiro, não é ele quem leva seu próprio cavalo? Pouco me importava, pois já tinha tomado amor àquele potrinho desengonçado e naqueles primeiros meses, de tão pequeno que era, para onde ia levava-o comigo, no braço.
Para todos, ele era cria de uma égua amansada e por isso era maior o riso. Mas bastou alguns anos passarem para ter enfim minha montaria pronta. A essa altura, ninguém sabia do mistério que ameaçava a linhagem dos cavaleiros puros. Em tantos anos, nem sinal da manada selvagem. Os potrinhos que nasciam eram mirrados, não serviam para guerra. Enquanto que meu caneludo metamorfoseara-se em um garanhão garboso e reluzente ao qual ninguém conseguia montá-lo se não eu. Era então cavaleiro, mas ninguém dava-me importância pela forma como havia conseguido minha montaria. Até que nova mudança se sucedeu.
Tive outro sonho. Neste a égua branca dizia-me. “Beredir. Tome seu garanhão e leve-o para os rochedos do sul porque a passagem entre o reino dos homens e o reino dos cavalos está selada para sempre, e algum de nós resolvemos ficar, mas agora o bando carece de um senhor.” Tinha nas mãos uma escolha; obedecer à voz onírica devolvendo Caneludo aos seus, a sua família de cavalos selvagens e assim perder um fiel companheiro ao mesmo tempo em que abria também mão de um sonho de infância, ou manter caneludo a meus lado não comparecendo ao encontro. Por fim a consciência foi meu guia. A voz havia me dado era justo que eu a restituísse. Na manhã seguinte avisei a todos que o bando estava próximo, os poucos que acreditaram seguiram comigo até os rochedos sulistas. A voz mais uma vez não havia blefado. Os mais belos e ariscos cavalos do mundo se agrupavam entre as pedras. Suas crinas balançavam ao vento, as patas arranhavam a terra, as narinas chispavam. Mas nenhum tropel diante dos homens, nenhuma debandada repentina. Parecia até que nos aguardavam. Tirei a cela e os arreios de Caneludo, e com o coração esmigalhado deixei que ele se juntasse a sua manada.
Observei admirado vir a seu encontro a mesma égua branca de meu sonho. Reconheceram-se; relincharam e empinaram com alegria acercando-se um ao outro para depois empinarem novamente e balançarem o pescoço. Logo o bando o havia cercado e aquele ritual de reconhecimento se repetiu da parte de cada um deles. Era um belo espetáculo para todos que estavam ali. Mas logo deu o momento de eu ir embora. Com a cela e os arreios nas costas virei-me para seguir resignado. Entretanto, para minha surpresa, não tardou até que Caneludo estivesse a meu lado esbanjando aquela mesma alegria. O olhei espantado. Ele por sua vez saudou-me com suas costumeiras lambidas compridas. Voltei-me para a égua branca. Ela nos fitava. Logo estava diante de nós também. Todo o bando seguiu-lhe o exemplo. E assim, eu, Beredir “O cavaleiro sem cavalo”, acabei levando naquela manhã um bando inteiro de cavalos selvagens para o estábulo do exercito do rei.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O dia da Profecia


Quando eu era pequena já me falavam que esse dia chegaria. Sentia meu coração se comprimir de agonia e o medo deixava-me lívida. Ao menos uma coisa naquela profecia era coerente com a verdade. As pessoas são facilmente corrompidas. Por dinheiro, fraqueza, pelo amor, sim pelo amor também. Mas não por isso, sempre senti que eles falavam a verdade. Sem qualquer razão lógica, eu simplesmente sentia. Não era apenas crendice de fanáticos religiosos. Havia uma gravidade no final daquela afirmação, algo de definitivo que me provocava um tremor e essa certeza. Então pensava nas pessoas, imaginava o tanto de dor e sofrimento que seria trazido ao mundo nesse dia. Então sempre era tomada por uma compaixão profunda que muitas vezes se refletia em dor física. E esse amor sempre me foi como um estigma. Ainda mais nocivo que aquela ameaça iminente. A humanidade aos poucos foi caminhando para seu declínio. Construindo passo a passo a sua ruína. Meu grito não era o bastante. Meu alerta desesperado, um fiasco. Tacharam-me de louca, me forçaram a um tratamento doloroso de descargas elétricas como se fosse eu a doente. Eu, uma das poucas pessoas que tinha os olhos aberto ao que acontecia. Mas com um tempo isso não mais importava. Me mantive a deriva. As pessoas se ofereciam de bom grado a tornar-se hospedeiros de demônios fotossensíveis. E que ironia, meus profetas fanáticos também não se salvaram. Nascia na terra um novo exercito. E os humanos simplesmente se entregavam em troca do alivio. O inferno pelo limbo. Eu não podia deter o destino. Estava escrito. Eu nada podia.
Mas ainda havia aquele amor, a dor. E quando o dia finalmente chegou, quando céu começou a sangrar. Aquele estranho me disse. Era uma alma serena e intocada em meio à profusão de gritos selvagens em aflição, de pessoas em correria desesperada por conta daquele liquido acido que escorria do céu. “O que eu faço?” Eu pensava. “Como lutar contra isso?” Meu corpo se comprimia em espasmos de dor. Eu hiperventilava. Pessoas passavam sangrando por mim. O acido corroia-lhe o corpo e os demônios se agarravam as aquelas almas prolongando-lhe a vida enquanto houvesse naquele recipiente um resquício de carne, enquanto houvesse ainda um abrigo. Sem qualquer piedade, queriam apenas não se dissolverem ao sol. A estridência daqueles gritos quase fazia estourar meus tímpanos, eu os ainda ouso até hoje. Jamais parou de repercutir em meus ouvidos aquela sinfonia infausta.
Porém ele disse: “Seu amor...” E sua voz parecia o repicar de sinos em meio àquela confusão. Meus olhos o fitaram, e quando ele teve assim a minha atenção, completou dizendo: - Essa sempre foi à única salvação possível. Nova luz pareceu raiar no céu quando ele me disse isso. Uma luz límpida e não rubra como a que outrora eu via. Então meu ser se tomou de leveza. Toda a agonia, toda aquela dor deu lugar a beatitude que me vinha como consolo. Finalmente eu havia entendido. Imediatamente consegui entender o que aqueles gritos me pediam. Comecei a cerrar as portas de prédios que poderiam servir de abrigo, quebrar vidraças, desforrar telados. Muitos iguais a mim começaram a seguir o exemplo. Trabalhamos incansáveis até que não houvesse mais abrigo na terra. O dia da salvação havia chegado.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cinderela estrangulada




E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...
Lord Byron


A noite cai lentamente cobrindo o mundo de sombras. O perfil imponente dos prédios é agora manto de treva que retalha o céu, salpicado de pontos luminosos ofuscantes, de tão fria consistência. À noite trás o alivio, é mais um dia de escravidão que se encerra. Arrasta seu corpo cansado pelas ruas da cidade. As mãos doloridas de empunhar vassoura e esfregão. Vai sonhando com a liberdade. Com o dia em que não precisaria mais de fazer faxina na casa de patrão sovina e explorador. Suspira de pensar como seria bom se um dia a salvação caísse do céu. E se tivesse belos olhos e uma graninha no banco seria ainda melhor. Seu passo a guia pelas ruas do subúrbio da cidade. O pé pequeno desvia a tempo de uma poça d água salvando de estragar o sapatinho de couro legitimo que herdara da patroa. Que pés pequenos e graciosos ela tinha a caminhar distraidamente arrastando-se rua acima. Enquanto a pequena diarista avança as ruas do seu subúrbio sonhando em escapar daquela sina, uma sombra se esgueira pelos becos seguindo seu perfil meio que encantado. Viu o pezinho pequeno apertado no sapato de couro gasto e a visão lhe aflorou uma gana assassina. Possuía uma paixão ardente por corpos pequenos. Adorava sentir como ossos frágeis podiam ser simplesmente esmigalhados. Deleitava-se ao experimentar o poder de ter se desfazendo entre os dedos uma carne quente e macia, de ouvir o som das fibras do tecido ósseo se esfarelando. Enquanto a perseguia uma sede crescia dentro dele e urgia em ser aplacada.
A surpreendeu em uma esquina. A excitação dilatava-lhe as pupilas. O peito arfava. O mundo estalava e se dissolvia em sensações de êxtase enquanto apertava-lhe aquele frágil pescoço que mais parecia osso de galinha sobre a pressão descomunal de seus dedos. A pequena diarista surpreendida, não teve chance se quer de gritar ou balbuciar derradeira suplica enquanto se via sendo erguida e comprimida contra uma parede por uma mão que esmagava-lhe o pescoço. Seu corpo esperneou ligeiramente. Suas mãos se estenderam até o punho algoz que lhe oprimia. Suas unhas ainda cravaram-se na carne latente do esforço que fazia. O pequeno sapatinho lhe escorregou dos pés. Um único suspiro assinalou-lhe a salvação para a vida de escravidão que lhe afligia.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^