sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um conto da Fantasista no JC



Semana passada um amigo publicou um dos meus contos em sua coluna no “Jornal da Cidade” o JC, um conceituado jornal daqui de Aracaju. Disponível também na página virtual do jornal:

 

Sua coluna é uma das minhas preferidas. Acabei recebendo muitas dicas de quem entende do assunto. Foi uma ótima experiência. Obrigada Osmário.



quinta-feira, 20 de maio de 2010

Regresso - Um fragmento mais meu do que todos os outros

O caminho de casa tem cheiro de amêndoas. Um farfalhar ruidoso de bicho fugindo, folhas rugindo, passos morosos e pneus apressados. Nada como caminhar um pouco por um volume único de “O Senhor dos Anéis” e outro de “A Dama das Camélias” seguindo uma trilha guarnecida de autótrofos. É bom estar longe de um ambiente fechado, trepidante e abafado, que enquadra o mundo com suas janelas reduzindo tudo a uma seqüência de fleshs de imagens. No fundo, o gosto, leva um pouco de liberdade. Salpicado daquele jeito de noticias boas e ruins. A tepidez do sol emprega nova cor ao meu rosto. No futuro, possivelmente pintinhas novas acrescentadas à constelação. Já não me importo com os olhares curiosos nem os rebato com hostilidade. A meu lado tremula a superfície espelhada de um rio poluído. Confidente de segredos obscuros de toda uma população. Ainda assim tão bonito. Adornado pelo perfil intricado das Rhizophoras, Laguncularias, Avicennias e dos Conocarpus. As suas margens se escondem alguns batráquios, que só preferem chiar à noite. Incita minha imaginação tentar descobrir o que mais se abriga naquele ambiente úmido, misterioso, protegidos por aquele sombreado refrescado e tão fértil. Enquanto caminho todos os cheiros se apresentam com estranha nitidez. Ainda mais expressivos que qualquer som ou qualquer imagem. Em algum momento silvestre; levemente almiscarado. Ou até mesmo fétido, ácido, nauseantemente gorduroso... Porém, a cada instante o açoite do vento me traz de novo aquele cheiro doce de amêndoas frescas, maduras. Caminho sem nenhuma pressa enquanto que para mim mais um ciclo se fecha. Lá se vai mais uma manhã de inutilidade. Mas não me importa o cansaço, o calor que empapam as roupas e faz latejar a cabeça; o caminho de casa tem cheiro de amêndoas [...]

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Heitor

Imagem encontrada na web
Há muito que não via pai, nem mãe, nem família nenhuma. A família de um guerreiro são os companheiros de batalha. Os irmãos vão caindo juntos com os inimigos, nem sempre com sepultura. Seus pertences sujeitos a pilhagem. O corpo; alimento para as aves. Os anos correm como por milagre; sem cama quente, sem comida decente. O calor humano se manifesta no campo e vai se dissipando suplantado pela lembrança das feridas, ou então avivado no ventre escuro dos abutres.
Quantas famílias seu braço pusera em segurança mesmo banhado de sangue? Quantos homens deu liberdade batendo-se com o inimigo como se fosse fera? E agora resta só o silêncio. O fim era frio, turvo, e solitário como o fundo do oceano. Não havia nenhuma gloria em perecer em um campo de batalha distante dos olhos daqueles por quem lutou. Imerso em total anonimato. Tão distante mesmo da memória daquela que lhe gerou. Sem um rosto conhecido. Sem uma palavra de conforto. Cercado de inimigos. Sentindo que era só mais um homem entre tantos. Sem nem mesmo pertencer mais a um lado do campo de batalha. Seus feitos se dissipam naquela aragem, em instantes não será mais nada. Seu braço forte encontrou imponente digno e agora o silêncio é sua mortalha. As aves desempenham um vôo solene, apenas espreitam pacientemente o nefasto momento de se regalarem-se de sua carne. A fumaça ao longe não vem de pira funerária, é apenas marca daquele novo embate.
Triste engano que se descobre apenas no fim; o único inimigo sempre foi à morte.
Seu último banho é de sangue. O vento vai levando aquele odor acre, indo se misturar com as outras mostras de barbaridade. O ceifeiro cruel lhe reduz a cacos pouco antes que tudo acabe como uma forma de castigo por bater-se com outros homens. Cerra lentamente os olhos, torcendo que aquela tortura não se prolongue. Seus ouvidos ainda ouvem com normalidade. Passos se aproximam para romper o silêncio de forma ultrajante. Prepara-se para ter o momento de morte violado. Que levem tudo; mesmo sua bela armadura agora de nada lhe serve mais.
Mas que surpresa! Mãos delicadas acolhem sua cabeça depositando-as em superfície macia, morna, perfumada. Sente carícias ternas em seu cabelo sujo de sangue. Sente saudade daquele calor emanado pela a vida. Gotas mornas gotejam em seu rosto. Por incrível que pareça não é sangue. Aquele cheiro lembra sua mãe que um dia esquecera para se tornar homem. Traz lembranças de braços femininos no qual se refugiou nos momentos de cansaço daquele terror da guerra. Abre os olhos para vislumbrar a Valquíria bondosa que vem acompanhá-lo ao fim. Seus olhos fitam uma desconhecida. Um rosto sem qualquer significado. Não imagina que em algum momento foi mesmo herói, que seu nome por alguém é lembrado. A morte afasta qualquer alento. Naquele colo finalmente expira. Vai embora sem deixar qualquer legado.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^