sábado, 27 de fevereiro de 2010

O estranho do vale sombrio


"Aqueles que se dizem senhores do próprio destino não passam de fantoches enganados."

As primeiras pedras do deserto doíam nos meus pés descalços como se eu estivesse pisando em brasas vivas. O sol de rachar batia em minha pele branquinha e me torturava. Eu não fazia ideia de que era tão difícil voltar. Aquele mundo me parecia tão absurdo, se eu olhasse pra trás ainda veria a planície coberta de uma vegetação amarelada, úmida e macia que há pouco eu tinha pisado, e na milha seguinte era como se o inferno me saldasse numa atmosfera quente, pesada e sufocante. Só havia alguns minutos que caminhava tentando encontrar o caminho de volta, mas parecia que uma semana tinha transcorrido. Exausta, cai de joelhos. Não sei quanto tempo fiquei ali sem forças para levantar, com meu corpo pesado e meus pulmões doendo do esforço de respirar aquele ar carregado. Sei apenas que depois de um tempo uma sombra passou por mim. Levantei o olhar, mas não havia ninguém. Mais ao longe, de algum lugar desconhecido, a voz do Cura me chamava. Depois disso o vento soprou fresco em meus cabelos, folhas farfalharam em algum lugar e eu podia ouvir pássaros cantando uma melodia misteriosa. Barulhos de passos apressados passaram por mim, voltei apressadamente minha cabeça para acompanhá-los, o mundo todo oscilou com o movimento, então eu cai com a cabeça na terra quente enquanto tudo a minha volta se misturava em um vórtice azul e ocre.
 Aqueles passos eram meus, eu corria sôfrega floresta adentro, deixando um rastro de seda e renda rasgada pelo caminho enquanto que os sapatos e as meias já havia perdido na entrada do bosque. Os galhos fustigavam a pele macia das minhas pernas e dos meus braços pequeninos, as lágrimas nodoavam meu rosto. Eu corria como um bicho selvagem e em alguns segundos eu já estava no antro mais escuro e insondável do vale. Só parei por que tropecei e caí. Tentei me levantar, mas meu pé estava preso em uma raiz. Tentei me desprender, mas a raiz estava enroscada em meu tornozelo parecendo um tentáculo pavoroso, e quanto mais eu puxava mais ela se enroscava em um aperto dolorido. Só então olhei em volta e percebi até onde havia adentrado. Estava cercada de raízes lodosas, gigantescas e assustadoras, iluminadas por uma luminescência verde de aparência espectral que espargia de alguns cantos parecendo olhos vigilantes. Ao dar-me conta de onde havia parado, senti medo. Uma espécie de desespero me fez lutar contra o tentáculo que agora puxava parecendo querer carregar-me a um daqueles antros enegrecidos que se reversavam dentre os lumes. Foi a custo que consegui libertar meu pé daquele aperto forte. Tentei me levantar, mas escorreguei no chão limoso. Meu pé estava machucado graças a meu esforço pra tentar livrar-me daquele tentáculo. Eu não conseguia andar o quanto mais correr como meu desespero pedia e toda a minha tentativa de fugir dali se resumiu a um patinar de quatro naqueles musgos, em pleno escuro. A minha volta, naquela floresta, era emitido um ressoar rouco e selvagem que aumentava ainda mais o meu pavor. Incapaz e desesperada, só pude chamar por ela. Ela que era o único motivo pelo qual eu havia ido até ali, como um capricho apenas. Chamei por Sorém e chorei debruçada no antro escuro daquela floresta sombria. Fiquei ali por muito tempo. Tanto que quem encontrou-me, encontrou-me a soluçar, molhada de lágrimas e suja do lodo e da terra úmida daquele lugar.
- Por que chora o filhotinho de homem? Depois de algum tempo ouvi de longe aquela indagação vinda de uma voz aveludada. Levantei minha cabeça abruptamente para vê-lo, mas não conseguia divisar nada naquele escuro. A voz continuou a indagar e pareceu-me até um conforto uma voz daquela naquele lugar, naquela situação em que eu estava.
- Estou perdida, não consigo encontrar o caminho de volta. Respondi sentando e enxugando os olhos com as costas do braço.
- Está com medo? O estranho perguntou.
- Não. Respondi incapaz de admitir mesmo em uma situação como aquela. A voz parecia cada vez mais perto.
- Está sim, eu sei, eu sinto. Ele afirmou. – Está com medo da floresta. Acrescentou. – Onde está a sua mãe?
- Ela me abandonou, foi embora e me deixou sozinha. Respondi não conseguindo reter a contração de novos soluços.
- Coitadinho do filhotinho de homem. Ele comentou finalmente deixando-se ver enquanto sorria um riso escarnecido. Era um homem, alto e resplandecente, emanando luz do próprio corpo. Mesmo ainda não tendo vivido muito eu já sabia, só de olhá-lo, que ele era o homem mais belo que eu poderia conhecer em toda minha vida.
- Não devia ter vindo a um lugar como esse. Ele comentou chegando mais perto.
- Ela já tinha me dito isso. Comentei perdida em lembranças.
- Sua mãe?
- Sim. Respondi. "Aquela que eu tinha como mãe ao menos. Sorém, minha irmã mais velha que me criara e me amava como mais ninguém, mas isso só até alguns dias atrás." Meus pensamentos estavam contaminados de rancor.
- Não vai puni-la desse jeito, ela não te quer mais. Ele disse agachando-se perto de mim, com o rosto na altura do meu.
- Eu sei. Mas agora quero ir embora. Respondi.
- Está arrependida de ter vindo aqui não é filhotinho?
- Sim, ela não se importa se estou aqui, não adianta. Estranhamente em sua presença eu expressava meus pensamentos abertamente.
- Sim, ela não te quer, mas você veio ao lugar certo, aqui todos te querem.
Quando ele disse aquilo olhei em volta, aquelas luzes me pareceram mais do que nuca com olhos, olhos que me espreitavam cobiçosos. Por um momento apurei minha visão e divisei mãos ossudas penderam de um corpo totalmente escondido pelas trevas, apenas os olhos luziam, um brilho fosco e verde que faziam meu estômago se contrair de medo. Podia ter sido apenas minha imaginação incitada pelo meu medo, mas não quis tirar a prova, balancei a cabeça nervosamente para ele e disse em tom choroso e rebelde:
- Não, eu quero sair daqui. Fui firme apesar da nova ameaça das lágrimas. Ele, em resposta, sorriu e por um instante me esqueci do medo e do esforço de reprimir as lágrimas para apenas me perder em admirada contemplação de sua imagem. Sua pele pálida fosforescia em meio ao breu podendo apenas tornar-se visível em meio às trevas, no entanto seus olhos resplandeciam luz vigorosamente como dois diamantes reluzentes, duas estrelas ou mesmo dois archotes de brilho prateado, iluminando o foco de sua direção. E enquanto sorria, simplesmente não podia compreender o que ele era, se belo, divino, ou a criação de um sonho meu; um devaneio.
- Sua vontade não importa aqui. Ele disse me despertado para realidade.
- Você já pertence a essa floresta, não te deixarão sair daqui, jamais retornará para o mundo que conhece. Acrescentou com um ar sério estarrecedor. Nada pude fazer se não chorar copiosamente, esquecendo da vergonha de me deixar ser flagrada chorando, estava arrependida de ter ido ali apenas para punir Sorém, mas nada mais poderia ser feito depois do erro cometido. No entanto eu o ouvi dizer; - A não ser... Parou de propósito esperando ver minha reação. Assim como ele queria perguntei, incapaz de me conter. – A não ser o quê? levantei o olhar até ele, esperançosa.
- Minha voz é maior que a de todos aqui, se eu a quiser para mim eles não brigarão por ti.
Eu abracei meu joelhos semi-escondendo meu rosto. – Não quero ir com você também. Disse com firmeza.
- Quanta resolução para um filhotinho desse tamanho! Ele comentou, sua voz aveludada parecia um afago naquele lugar frio e escuro. – Mas, sinto afirmar que você já é minha. Sussurrou para mim como se me contasse um segredo. Sua expressão era impassível. Abaixei meu rosto escondendo-o novamente, tentando entender o que aquilo poderia significar. Com gestos delicados ele me fez erguê-lo novamente para que eu pudesse encará-lo. Seu toque era misteriosamente quente e reconfortante.
- Posso ver a curiosidade que se esconde atrás desses olhinhos. Ele comentou enquanto fitava-me de maneira perscrutadora. – Você quer conhecer o mundo e todos os mistérios que há. Afirmou. Eu não respondi, mas era verdade. Como ele sabia?
- Eu sou a porta aberta para todos os mistérios. Revelou com expressão séria, e aquela era uma coisa que eu já sabia, olhando para ele não poderia nunca duvidar.
- Quero sair daqui. Disse, pensando em como poderia fazê-lo, não me vinha nada na cabeça.
Ele se levantou, passou por mim olhando distraído tudo a sua volta, e voltando seu olhar novamente para mim, por cima do ombro, negociou.
- Poderá vir comigo agora e se tornar minha filha, compartilhar de minha herança, ou voltar para seu mundo, sendo que mais tarde se tornarás minha esposa.
Eu nada pude dizer, estava confusa e nada compreendia do que se passava ali, então ele sorriu novamente, chegando mais perto, baixando-se para me olhar nos olhos novamente e novamente esqueci que tinha medo e que estava perdida. Mas ele ainda esperava uma resposta.
- Meu pé está machucado. Respondi. Com outro sorriso misterioso ele afirmou que sabia, me ergueu no colo e seguiu, refazendo comigo em seus braços o mesmo caminho que eu tinha percorrido naquela manhã, com minha alma imersa em magoa e revolta.
Seus braços eram quentes e confortáveis. Suspirando como resquícios de um último soluço me encolhi, aconchegando-me nele enquanto era levada para a borda da floresta.
Abri os olhos indiferente ao sol que me cegava, a surpresa estava evidente em meu semblante. Como eu pudera esquecer, eu já o tinha visto antes, eu já conhecia Vaska!!!

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^