quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Obscura obsessão


"Depois que o véu da noite cai sobre a terra coisas impossíveis podem acontecer, pois é quando o mistério toma poder, se tornando visível e papável."

Ela esperou que aquele dia terminasse em sua cama, abraçada a sua boneca de porcelana, que mais parecia boneca vodu. Assistiu com o coração comprimido o enterro do dia, sentia que morria junto com ele todas às vezes. Já fazia seis meses. Amaldiçoava a noite e buscava consolo ao dia. Se agarrava aos últimos feches de luz como a alma pecadora se agarra a sua cruz funerária para não ser levada ao inferno. De repente o azul tornava-se rubro, era só sangue se derramando. O céu conseguia pintar sua alma sangrando.
Deu as costas a janela aberta que deixava a amostra as últimas cores do dia agonizando lentamente. Depois seria tudo treva. Nada poderia descrever sua tristeza, seu estado inconsolável de condenada, de criatura que não tinha pra onde fugir ou mesmo se esconder depois que o véu da noite caia sobre ela.
Na mesinha de cabeceira viu aquele embrulho marrom. Seria ele sua saída, sua salvação? Seus pulsos coçaram à aquele pensamento, esfregou um no outro até que a gaze branca que o envolvia se tornou rubra. O cheiro de sangue sempre a enjoava, mas o cheiro do próprio sangue lhe era repugnante, só fazia duas semanas que tinha descoberto. Correu para o banheiro para lavar os pulsos recém-magoados, lavou também o rosto para passar o enjoo. Do espelho do banheiro uma criatura macilenta a observava; tinha um olhar baço, covas profundas ao redor dos olhos e uma palidez cadavérica.
Sem perceber se viu alisando o próprio rosto, enquanto lágrimas grossas saltavam livremente de seus olhos. Um furor imenso ameaçava dominá-la, uma raiva profunda quando lembrava de sua antiga beleza, de seu antigo, mas agora totalmente apagado, esplendor.
“A criatura mais bela dentre todas” Ele dissera em sua primeira visita. “A única realmente digna.” Hoje não havia nada mais do que o fantasma daquela antiga beldade. Uma criatura tétrica, puramente decadente dera lugar a ela. Mas ele não a abandonara ainda assim, todas as noites estava lá, impondo sua presença com uma insistência aterradora. Ele tinha a eternidade para dedicar a sua obsessão. Ela apenas aquela vida, miserável desde então.
Do espelho do banheiro ainda conseguia ver um pedacinho daquele embrulho marrom da mesinha de cabeceira, estranhamente ele parecia chamar sua atenção. Tremeu em pensar que aquilo poderia ser um sinal que daria certo dessa vez, não conseguia sequer imaginar a felicidade que teria.
Correu com avidez para o embrulho, mas parou estática no caminho; ele estava em sua cama, cheirando e beijando a marca de sua cabeça deixada no travesseiro.
O corpo todo dela gelou. Começou a tiritar como se fizesse 9° C dentro do quarto. Sempre reagia assim, todas às vezes durante seis meses.
- Olá meu amor, sentiu saudades minhas? Ele perguntou, com o sorriso sádico de sempre estampado em seus lábios roxos. Sentado em sua cama, com seu paletó desarrumado.
- Porque veio quando sabe que não quero vê-lo, que não o quero aqui. Ela gritou, histérica, beirando o desespero.
Shiu! Meu amor fale mais baixo. Repreendeu-a, com a voz mansa e dissimulada. – Dessa forma os outros te ouvirão, virão até aqui ver com quem falas; não verão ninguém e te julgarás ensandecida. Completou, com o olhar obliquo vidrado nela, cheio de seu cinismo costumeiro. Ela ficou petrificada diante de sua insinuação.
Ele sabia, ele também ouvira aquele telefonema? Como se lesse seus pensamentos ele continuou a falar mansamente, olhando as próprias unhas, aparentemente distraído. Sua querida avozinha ligou para o asilo de loucos essa manhã. Debruçou-se sobre a cama, cheirando o amarrotado que o seu corpo deixara sobre o lençol, alisou-o distraído e depois voltou novamente a falar.
- Eu ouvi. Levantando-se, ele a encarou, mantendo seu olhar fixo no dela, procurando deixá-la presa a seu olhar gelado e atemorizante de espectro maligno.
Por um momento ele a envolveu procurando aliciá-la, fazê-la admirar sua aparência, aquele seu cabelo luzido em seu desalinho sensual, seus olhos negros penetrantes, seus traços perfeitos. Mesmo que seu rosto fosse tão pálido e sem vida, era belo, ela não podia negar. Mas ele não poderia esconder aquela flor rubra em seu peito, uma flor que estava sempre a gotejar. Ela desviou o olhar, fria e enojada. Antes ele até que conseguia seduzi-la, mais isso fora no começo, quando ela não o conhecia direito e não fazia ideia do que ele era capaz. Hoje mesmo que ele conseguisse perturbá-la por causa de sua confusão psicológica, só duraria até que ela baixasse o olhar e desse com aquela flor rubra, tão evidente e repugnante quanto ele.
Sabendo que não mais poderia dominá-la daquela forma ele partiu para outra cartada, tão manjada quanto a de antes.
- Ela irá interná-la. Continuou como se não tivesse tido intervalo. – Mas posso dar um jeito nisso pra você, posso te livrar dela, então serão finalmente só nos dois... Será lindo. Ele falava como se tivesse alucinações, como se já estivesse vendo o futuro, seus olhos brilhavam e ele sorria vitorioso.
- Não! Ela gritou desesperada, tapando em seguida a boca como se quisesse conter a propagação do próprio grito. As lembranças começavam a invadi-la com fúria, ele já havia proposto aquilo antes, e... Ele tinha feito. Seus olhos instintivamente correram até um porta retrato em sua mesinha de cabeceira, onde a foto de um rapaz simpático e sorridente olhava pra ela.
Sim, olhava, não olharia nunca mais. Seu coração parecia ter sido pisoteado por elefantes. Ela sangrava e ele sabia, agora mesmo olhava pra ela deliciado, por que adorava vê-la sangrar.
Ao lado do porta retrato seus olhos avistaram o embrulho marrom com o emblema do correio, ele não fazia ideia do que era. Sentia que aquela seria sua última tentativa, e mesmo não sabendo o que aquilo poderia significar, sabia que de uma forma ou de outra estaria finalmente liberta. A dor deu lugar a uma lividez, até tentou sorrir pra ele, mas nos últimos tempos qualquer esforço que fizesse para esboçar um sorriso se transformava em careta.
- Quero que deixe-me dar meu próprio jeito. Ela falou tentando parecer doce, quase amável.
Ele sorriu por que viu um brilho de maldade em seu olhar quando se dirigia ao embrulho marrom e o envolvia em seus braços.
Lentamente ela rasgou o invólucro, deixando-se revelar um livro grosso e antigo, revestido de couro escuro. Letras vermelhas revelavam o titulo do livro. Estava escrito; “Manual de Magia Negra” em letras sinuosas e macabras. Um brilho de vitória relampejou em seus olhos porque finalmente ele estava prestes a tê-la para si completamente, não só de corpo, mas também de alma.
Um sorriso maléfico brincava nos lábios dela enquanto folheava com cautela e atenção aquele livro funesto, impregnado de uma energia negra. Depois de se prender demoradamente em uma folha ela o encarou.
- Você me ajudará? Não quero ir para um hospício. Se justificou. Seus olhos tinham um quê de sedução e maldade que o fez entrever as delícias de um futuro compartilhado juntos, em plena cumplicidade.
- Sabe que faria tudo por você meu amor, minha escolhida. Ele disse com fervor, enquanto beijava com delicadeza seus pulsos vermelhos. – Sabe bem que sou capaz de tudo para não nos separarmos. Completou, agora procurando-lhe a boca para beijá-la.
Ela deixou que ele a beijasse, sabendo que aquele gosto horrível de putrefação jamais sairia de sua boca. Não sabia como ele conseguia fazê-lo, não conseguia se quer imaginar o que aquela criatura podia, mas já tivera provas o suficiente pra jamais duvidar de que ele podia ser capaz tudo.
- Quero que me dê forças. Ela disse entrelaçando seus dedos com os dele, que pra ela não passavam de gravetos gelados.
Abraçada firmemente a seu livro, ela cruzou as ruas frias e escuras da sua cidade, mas não estava sozinha, um rapaz alto, pálido e belo a guiava em meio a noite nevoenta até um vale guarnecido de cruzes, e quase totalmente encoberto de névoa. Árvores secas de troncos desfolhados e retorcidos disputavam espaço entre as cruzes antigas e lápides esquecidas.
Ela escolheu um lugar ao lado de uma cova depredada, quase totalmente cobertas por urzes. Abaixo de uma árvore de tronco grosso e ressequido. Sentou-se no chão de terra fresca, e começou a desenhar em torno de si o desenho que as figuras do livro indicava; o desenho complicado de uma estrela que tinha trinta pontas. Ele a observava de perto, com olhar meticuloso, mas sem perder o animo.
“Por um número de trinta uma alma pura foi trocada, agora por esse mesmo número qualquer alma ruim será taxada” O livro dizia. Ela não queria entender o que significava, queria apenas uma solução.
Ela dispós uma vela em cada ponta em torno de si e o olhou pedindo auxilio. – Não tenho poder para ascender às velas, é preciso uma força que ainda não possuo. Admitiu, aparentando estar envergonhada.
Ele sorriu se aproximando, abaixou-se até ela, e em um gesto orgulhoso de mãos acendeu todas as velas. Com um misterioso sorriso de vitória ela leu pra si as seguintes linhas do livro.
“Como tributar um inimigo.
Aquele que por suas próprias forças conseguir acender as velas do Trintenaograma terá sua alma tributada, sua essência penderá na chama de modo que qualquer sopro poderá apagar sua existência, desde então será uma criatura maleável e impotente, aprisionada dentro de seu próprio circulo de dor e maldade.”
Respirando fundo ela lançou o primeiro sopro, uma corrente de ar passou por ela o atingindo, ele a olhou confuso e perturbado, pouco a pouco a consciência da traição estampava-se em sua face, revelando choque e frustração.
- Não poderia ter feito isso, eu a amo. Ele gritou, olhando-a fixamente com olhar de censura e mágoa.
- Seu amor quase me destruiu. Ela gritou, procurando encontrar forças para continuar o que tinha feito. Apagou mais velas, duas, três, quatros velas de uma só vez. Um frio maior e mais violento a percorreu indo refugiar-se nele, sacudindo-o todo.
- Eu a escolhi, não pode fugir disso, você é minha. Ele esbravejou, dessa vez furioso, estampando claramente dor em seu semblante. Ela fechou os olhos para não ver e ser forçada a sentir pena daquele que só lhe trouxe desgraça.
Mobilizando o resto de forças que lhe sobrara ele fez o vento soprar contra ela, removendo os galhos secos do chão e lançando-lhe de encontro. Ela protegeu-se com os braços contra os projeteis que a ameaçava e continuou a assoprar mais e mais velas. Os galhos das árvores se desprenderam dos troncos e voaram todos contra ela, era tudo que ele poderia fazer, pois o circulo a protegia de sua maldade. Ela foi atingida na cabeça, sentiu o local latejar e viu as mãos banhadas de sangue, mas não desistiu, continuou a assoprar, até não restar mais nenhuma vela acesa. Com a última vela apagada ele deu um grito agudo e penoso. Estava do seu lado agora, dentro do circulo, porém totalmente incapaz e indefeso. Ele chorava lágrimas de sangue ao olhar pra ela, afirmando com todas as forças que lhe restava que a amava mais do que tudo, suplicando para que ela não o abandonasse sozinho e solitário pra sempre. Mas ela não teve nenhuma pena, acolheu sua cabeça entre as mãos e o beijou, era o encantamento que faltava, o livro dizia.
“O beijo da traição condenará sua alma em masmorras inescapáveis.” No final da folha estava escrito.
Estava consumado.
O chão tremeu sobre eles, a terra parecia se remexer, ela tentou se afastar, mas ele a agarrou. Ele estava fraco, desesperado, não queria apartar-se dela, fosse aonde fosse. Com muito esforço ela conseguiu se desvencilhar dele, a ponto de ver uma mão enegrecida e ossuda emergir da terra e puxá-lo para baixo lentamente. Ela o viu lutar como pôde, se agarrar a terra que se desfazia em suas mãos, escorregar e se debater em plena aflição. Até os dedos de suas mãos se estraçalharem na terra e seus cotos não conseguirem mais o reter de nenhuma forma. Então enfim ele se rendeu, olhou para ela, para lhe proferir sua última jura de amor. Com um último grito desesperado ele sumiu para sempre de sua vida.
Ela suspirou aliviada, depois de seis meses de terror tudo finalmente estava acabado.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^