sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O preço do silêncio


Que preço tem o silêncio? Custou-me a liberdade. Achei que estaria feliz quando ela parasse de gritar, mas agora que não ouso mais uma só palavra, mesmo de xingamento ou injuria. Agora, quando o que resta é um silêncio imaculado e opressivo, tenho um gosto amargo na boca. A ausência de nota no ar, que não delata nenhum movimento, nenhuma reação ostensiva, causa um vazio e trás velado nesse nada, algo de funesto que faz o medo morar quieto aqui no peito. Tento então afastar os pensamentos. E sempre que faço sinto-me como que fugindo de algo que quer me agarrar e esmagar-me como mãos negras em um espasmo de pavor. Seria o medo?
Faz um dia... Não, talvez já faça mais tempo. Seria o cativeiro que me enlouquece? Não foi a pior das nossas brigas, não dentre tantas outras, mas parece que dar-me as costas foi à única maneira que ela achou para resolver as coisas. Simplesmente parou de gritar, e devota-me então um tratamento de silêncio, de desprezo, de frio desprezo. Sempre pensei que ela fosse capaz de tudo, mas trancar-me no quarto até morrer? O engraçado é que não tenho nem fome nem sede. Penso que a teimosia me faz forte. Sempre fui assim; de um orgulho obstinado. Mas esse seu silêncio tem sido corrosivo, igual a uma aragem caustica que dilapida a pele a cada açoite. Porém, sinto-me ruindo é por dentro, a cada instante. Diluída nas ultimas lembranças, entorpecida, minha alma vai se impregnando da toxina do ódio e rancor e degenera-se aos poucos. À medida que esse suspense e silêncio tem o dom de tornar minha existência atemporal vou também me enchendo de maldade. Meu âmago é só ferida dolorida. Sinto arrebatado de mim toda pureza e bondade. E o que antes ainda era amor, perde-se na lembrança deste abandono.
Desnorteada, o que lembro daquelas primeiras horas foi que ela trancara atrás de si a porta, depois de olhar para o quarto com aquele vazio nos olhos e fingindo que não me enxergava ali, encolhida ao lado da cama. Corri para trancar a porta com raiva e vi que ela já estava trancada por fora. Era um castigo. Deveria engolir aquela humilhação e esperar até que acabasse. Era inevitável não me entregar ao pranto, que a aquela altura era enxuto como uma névoa de dor que apenas enfluía do peito. Ainda tenho o peito pesado desse pranto que não me quer molhar a face. Talvez também por teimosia. Penso que também estou me fazendo forte com relação às lágrimas.
Não voltei a vê-la. Também não me disse mais palavra. Depois de um vago momento de murmurinho, também a casa se engolfou naquele silêncio. Tentei fugir pela janela, mas me pareciam soldadas. Tive raiva dela e esse foi o princípio daquele sentimento negro que tomava-me como uma torrente arrasadora, com uma força desvairada. Questionei-lhe com sinceridade. O que ela queria tratando-me daquela forma. Trancando-me entre aquelas paredes limitadas por tantas horas. E o nada foi à resposta que só alimentava minha raiva. Então comecei a agir como ela. Usei as mesmas armas: gritei e lancei coisas contra a parede. Proferi um milhão de insultos e palavras imorais e novamente minha ira era alimentada. Exausta, adormeci. Quando acordei o quarto estava arrumado, as coisas no seu lugar de volta. Mas a porta ainda trancada e nenhuma palavra. Nenhum som por um bom tempo. Em algum momento a porta voltou a ser aberta. Rostos estranhos despontaram no limiar. Olharam com interesse para dentro. Aos gritos perguntei quem eram, o que faziam ali e o que ela queria com isso. Quem sabe advertidos do meus animo por ela não deram-me atenção. Olharam até quando quiseram com apenas a cabeça passando da porta e uma curiosidade irritante a amostra e depois foram embora trancando-me novamente. Enquanto eles estavam por perto uma chama quente de esperança e conforto queimava em meu coração. Então cheguei a encarar meus erros. Analisei a situação. E lançando a toalha branca cheguei a lhe pedir perdão abdicando de todo o ódio acariciado antes. Mas a resposta continuou sendo-me o seu silêncio. Logo a movimentação na casa se aquietou. Da presença dela e daqueles estranhos nenhuma resposta mais. Comecei a encarar com realidade a crueldade no coração das pessoas. Desacreditei de muitas coisas também, incluisive na bondade e no perdão. Ela havia me abandonado. Não era verdade o que me diziam de laços de amor e afeto. De um sentimento inquebrável entre a mãe e sua cria. Eu estava só naquele quarto, com aquele peso no peito e tão abandonada e maltratada que parecia que enlouquecia. Que parecia que não havia mais barreiras do tempo, que não havia mais necessidades físicas, que não havia mais nenhum alento na vida. Vida;... tudo de repente se embotava de uma forma que se resumia aquele silêncio. Aquele nada. Aquele vazio. Aquele ódio. E aquele medo que parecia me sufocar toda vez que virava o rosto ao lado para onde ficava a porta do banheiro. Penso que tenho que me lembrar de algo. Algo que tem a ver com aquele silêncio. Preencher aquela lacuna.
Então finalmente eu tento. Lembro daquela briga que não tinha nada de diferente das outras exceto por aquele cansaço. Sim já estava cansada, como um recipiente que de tão cheio a qualquer momento iria transbordar e me trazia aquela sensação de que não dava mais.
Os gritos continuam. A mágoa sufoca-me o peito. Tapo os ouvidos. Nada a faz parar. O recipiente parecia transbordar. Tranquei-me no banheiro e...
Sorrateira as mãos negras vêem novamente me torcer entre seus dedos, me esmagar. Finalmente consigo entender; ela chama minha atenção para um canto do aposento. Finalmente compreendo. Me encolho ainda mais em meu canto ao lado da cama. Tenho que encarar tudo de frente. Já não posso mais fugir. Com muito custo consigo finalmente fitar a porta do banheiro escancarada. O piso agora nodoado. Um súbito aperto comprime meu peito. Finalmente sinto o silêncio se quebrar em mil estilhaços. O som ecoando no vazio:
- Mãe. Tenho medo!

Um comentário:

Beronique disse...

É um conto bastante denso Celly, me identifiquei com muitas passagens dele, sobre o silêncio, sobre o medo...fica algo no ar, algo como uma lembrança que esta na ponta da lingua, no limiar do pensamento, mas não sai e vc fica tentando descobrir o que é, ainda estou tentando imaginar o que aconteceu, e imagino que vc colocou estrategicamente o fato oculto para que fique a criterio de cada um que ler imaginar o que teria acontecido. O final indireto também nos remete a usar a imaginação. Gostei muito.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^