sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O dia da Profecia


Quando eu era pequena já me falavam que esse dia chegaria. Sentia meu coração se comprimir de agonia e o medo deixava-me lívida. Ao menos uma coisa naquela profecia era coerente com a verdade. As pessoas são facilmente corrompidas. Por dinheiro, fraqueza, pelo amor, sim pelo amor também. Mas não por isso, sempre senti que eles falavam a verdade. Sem qualquer razão lógica, eu simplesmente sentia. Não era apenas crendice de fanáticos religiosos. Havia uma gravidade no final daquela afirmação, algo de definitivo que me provocava um tremor e essa certeza. Então pensava nas pessoas, imaginava o tanto de dor e sofrimento que seria trazido ao mundo nesse dia. Então sempre era tomada por uma compaixão profunda que muitas vezes se refletia em dor física. E esse amor sempre me foi como um estigma. Ainda mais nocivo que aquela ameaça iminente. A humanidade aos poucos foi caminhando para seu declínio. Construindo passo a passo a sua ruína. Meu grito não era o bastante. Meu alerta desesperado, um fiasco. Tacharam-me de louca, me forçaram a um tratamento doloroso de descargas elétricas como se fosse eu a doente. Eu, uma das poucas pessoas que tinha os olhos aberto ao que acontecia. Mas com um tempo isso não mais importava. Me mantive a deriva. As pessoas se ofereciam de bom grado a tornar-se hospedeiros de demônios fotossensíveis. E que ironia, meus profetas fanáticos também não se salvaram. Nascia na terra um novo exercito. E os humanos simplesmente se entregavam em troca do alivio. O inferno pelo limbo. Eu não podia deter o destino. Estava escrito. Eu nada podia.
Mas ainda havia aquele amor, a dor. E quando o dia finalmente chegou, quando céu começou a sangrar. Aquele estranho me disse. Era uma alma serena e intocada em meio à profusão de gritos selvagens em aflição, de pessoas em correria desesperada por conta daquele liquido acido que escorria do céu. “O que eu faço?” Eu pensava. “Como lutar contra isso?” Meu corpo se comprimia em espasmos de dor. Eu hiperventilava. Pessoas passavam sangrando por mim. O acido corroia-lhe o corpo e os demônios se agarravam as aquelas almas prolongando-lhe a vida enquanto houvesse naquele recipiente um resquício de carne, enquanto houvesse ainda um abrigo. Sem qualquer piedade, queriam apenas não se dissolverem ao sol. A estridência daqueles gritos quase fazia estourar meus tímpanos, eu os ainda ouso até hoje. Jamais parou de repercutir em meus ouvidos aquela sinfonia infausta.
Porém ele disse: “Seu amor...” E sua voz parecia o repicar de sinos em meio àquela confusão. Meus olhos o fitaram, e quando ele teve assim a minha atenção, completou dizendo: - Essa sempre foi à única salvação possível. Nova luz pareceu raiar no céu quando ele me disse isso. Uma luz límpida e não rubra como a que outrora eu via. Então meu ser se tomou de leveza. Toda a agonia, toda aquela dor deu lugar a beatitude que me vinha como consolo. Finalmente eu havia entendido. Imediatamente consegui entender o que aqueles gritos me pediam. Comecei a cerrar as portas de prédios que poderiam servir de abrigo, quebrar vidraças, desforrar telados. Muitos iguais a mim começaram a seguir o exemplo. Trabalhamos incansáveis até que não houvesse mais abrigo na terra. O dia da salvação havia chegado.

Um comentário:

Guilherme Augusto Codignolle Souza disse...

Ainda estou meio fascinado com a forma como seu texto fluiu... o.O

Gostei muito daqui. Conquistou um novo seguidor.

Eu tbm tenho um blog, se puder passa la e me segue tbm se gostar do que encontrar:

http://codignolle.blogspot.com

Meu Twitter:

https://twitter.com/guicodignolle

o/

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^