quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Espetáculo


Todas as vezes que o circo chega à cidade, trazendo um tropel irritante, com seu barulho desordeiro, mobilizando uma massa humana, arrancando gritos e estampidos, tremo por dentro. Sou tomada por um medo que paralisa-me toda. Se estou à porta de casa, corro para dentro e fecho as portas até que o tropel passe. Se acontece o azar de eu estar na rua, adentro pela primeira porta que encontrar. Todos riem de mim quando admito; tenho medo de circo, de seu barulho insano, de seu arrastar de pessoas, de seu calor alucinado. Minhas netas me olham de maneira irrisória quando me vêem tremer como criança toda vez que a caravana circense faz sua marcha pelas ruas da cidade se anunciando. Fico calada tremendo em meu canto, me afogando em lembranças não tão boas. Porque elas não sabem que o circo é só desculpa para as pessoas libertarem a selvageria que sempre carregam presa no peito. Porque sempre que podem elas estão dispostas a gritar e rir em extravaso. Para libertar o que tanto escondem dentro de si acabam, sem qualquer decoro, achando graça até onde não existe.
Eu era menina quando vi um circo, não desses que as pessoas estão acostumadas a ver, outra espécie de circo, armado com um motivo parecido de atrair e divertir. Era recém-chegada em Diamantina, estava ainda naquele deslumbramento de pessoa nova em cidade tão bonita, principalmente por que saía pela primeira vez da fazenda de meu pai para morar na cidade. Tinha também recendendo em mim um ar de ingenuidade e abstração fruto do lugarejo provinciano onde antes morava. Certo dia, notei uma animação incomum se alastrar pelas ruas. Um vai e vem de pessoas, um riso solto no ar, uma excitação misteriosa nas faces de quem passava seguindo sempre para uma mesma direção. Sai à porta para ver o que acontecia. Sem querer me senti também animada e curiosa por aquele repentino rebuliço popular. Olhava as pessoas com aquela expressão entusiasmada estampada na face e também me animava, rindo também, mesmo sem saber dor que, contagiando-me daquela alegria. Então de repente, saindo dentre aquelas pessoas que se aglomeravam, veio uma vizinha, uma meninota da minha idade. Veio até mim e me puxou pelo braço. – Vamos lá, vamos ver de perto. Ela disse com aquele mesmo riso animado preso na face. Esperando uma surpresa boa me deixei ser guiada, me distanciei com ela guiando-me em meio a aquele contingente de pessoas em animação desvairada, em um empurra-empurra por uma visão melhor, em uma expectativa que só tornava maior aquela excitação geral. Como éramos pequenas, nos escorregamos sorrateiras até a fila da frente, tendo assim uma visão privilegiada na fileira principal. O que vi de inicio não me pareceu fazer nenhum sentido para toda aquela agitação, para justificar aquele apreço das pessoas em se empurrarem e se apertarem esticando o pescoço proferindo exclamações que enchia o ar de um murmurinho desconexo. Na praça principal havia apenas um palanque simples montado, dois homens em cada extremidade. E o que me chamou a atenção; ao centro do palanque havia um alçapão. Olhando pelas frestas do palanque, pude ver as botas de outro homem embaixo da armação. Questionei-me o que ele fazia ali escondido. Qual o espetáculo que encenariam ali, naquele palco tão singular. E as roupas grosseiras daqueles homens, suas caras sisudas e que me pareceram até mesmo hediondas chamou deveras a minha atenção. Em meio a minha inocência de menina provinciana fiquei esperando, também com expectativa, aquele espetáculo a qual todos torciam se revelar. Lembro que fiquei ali algum tempo na espera, enquanto as pessoas se impacientavam e clamavam entre resmungos e imprecações que se consumasse logo o ato a qual eles estavam ali, tão gentilmente disponibilizando um pouco de seus tempos e atenções.
Senti quando algo acontecia quando vi aquela massa de pessoas assumirem um temperamento incomum, quase selvagem; gritavam e se inquietavam em seus cantos, transmitindo uns aos outros sussurros e comemorações. Se acotovelavam e se aglomeravam ainda mais em direção ao palanque, quase esmagando a quem estava na primeira fileira. E desprendiam gritos e assoviavam, e esticavam ainda mais o pescoço a risco de cair em cima dos que lhe estavam à frente. Todos queriam um pouquinho do espetáculo, todos queriam uma visão privilegiada do que iria se suceder ali. Lembro que ainda não tinha idéia do que aconteceria quando vi subirem com aquele homem em cima do palanque. Dois homens o trazia com uma delicadeza que parecia que traziam um animal. Ele tinha as mãos nas costas, presas por grossas cordas. Trajava-se de andrajos, estava sujo e seu mau-cheiro podia ser sentido de longe. Sua face estava quase toda encoberta por aquela barba expressa e mal cuidada que exibia. Mechas desgrenhadas de seu cabelo também acabavam por esconder-lhe o rosto. Mas o brilho de seus olhos conseguia destacar-se em meio aquela profusão desleixada. Consegui enfim entender o que aconteceria ali quando mirei seus olhos. Tinha um brilho penoso desses que você ver quando fita um bicho ferido, e um vazio doloroso que nos faz desviar o olhar para também não ser tomado por aquele nada, também não ter esvaída nossas esperanças na vida ao encará-lo. Ao dar-me por mim do que se passaria ali, tentei sair, tentei fugir daquele circo de insanos, mas não me deixaram, de tão compactada que estava àquela massa humana, não consegui mover um pé do lugar. E imprensada da forma que me encontrava contra o palanque, não consegui nem mesmo me virar para não fitar o que ocorreria. Não demorou muito até que tudo estivesse acabado. Até aquele bando de selvagens sanguinolentos estivessem saciados de morte. Até que um corpo pendeu inexpressivo alçapão abaixo, depois de muito fazer vibrar de forma desvairada a platéia, enquanto se retorcia em sua agonia antecedente a morte.
Entendi uma coisa olhando cada uma daquelas faces excitadas deleitando-se de forma alucinante naquele espetáculo popular. Os homens guardam algo dentro de si, uma coisa selvagem e medonha que vive sedenta em seu cárcere, ávida por se alimentar de seja qual for o show, pouco se importam, só esperam um momento, uma oportunidade, um leve motivo para que possam emergir de dentro, vislumbrar o mundo de fora, mostrar a face, saborear a liberdade frente a qualquer espetáculo que lhe apresente oportunidade de se manifestar. E depois de saciarem como se pode, depois de perderem-se em pleno extravaso, depois do momento que dá passagem àquela loucura desvairada que levam dentro de si, revestem-se de novo em uma serena e lúcida imagem de cidadão decente. Por isso tenho medo do circo, ou de qualquer manifestação popular que se faça oportunidade dos homens libertarem aquela sede desvairada que levam dentro do peito.

Um comentário:

Beronique disse...

Puxa vida Celly,que forte hein! E eu comecei lendo achando que era um conto do cotidiano (ñ deixa de ser de certa forma, porém com ressalvas),achando graça do temor da senhora em se esconder do circo, mas ao passo que o conto avança vamos nos deparando,quase bestificados,em como estamos diante de um espetaculo cruel, que nada tem a ver com a coisaalegre de um circo. Muito bem construido, adorei!

Bjs

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^