quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cinderela estrangulada




E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...
Lord Byron


A noite cai lentamente cobrindo o mundo de sombras. O perfil imponente dos prédios é agora manto de treva que retalha o céu, salpicado de pontos luminosos ofuscantes, de tão fria consistência. À noite trás o alivio, é mais um dia de escravidão que se encerra. Arrasta seu corpo cansado pelas ruas da cidade. As mãos doloridas de empunhar vassoura e esfregão. Vai sonhando com a liberdade. Com o dia em que não precisaria mais de fazer faxina na casa de patrão sovina e explorador. Suspira de pensar como seria bom se um dia a salvação caísse do céu. E se tivesse belos olhos e uma graninha no banco seria ainda melhor. Seu passo a guia pelas ruas do subúrbio da cidade. O pé pequeno desvia a tempo de uma poça d água salvando de estragar o sapatinho de couro legitimo que herdara da patroa. Que pés pequenos e graciosos ela tinha a caminhar distraidamente arrastando-se rua acima. Enquanto a pequena diarista avança as ruas do seu subúrbio sonhando em escapar daquela sina, uma sombra se esgueira pelos becos seguindo seu perfil meio que encantado. Viu o pezinho pequeno apertado no sapato de couro gasto e a visão lhe aflorou uma gana assassina. Possuía uma paixão ardente por corpos pequenos. Adorava sentir como ossos frágeis podiam ser simplesmente esmigalhados. Deleitava-se ao experimentar o poder de ter se desfazendo entre os dedos uma carne quente e macia, de ouvir o som das fibras do tecido ósseo se esfarelando. Enquanto a perseguia uma sede crescia dentro dele e urgia em ser aplacada.
A surpreendeu em uma esquina. A excitação dilatava-lhe as pupilas. O peito arfava. O mundo estalava e se dissolvia em sensações de êxtase enquanto apertava-lhe aquele frágil pescoço que mais parecia osso de galinha sobre a pressão descomunal de seus dedos. A pequena diarista surpreendida, não teve chance se quer de gritar ou balbuciar derradeira suplica enquanto se via sendo erguida e comprimida contra uma parede por uma mão que esmagava-lhe o pescoço. Seu corpo esperneou ligeiramente. Suas mãos se estenderam até o punho algoz que lhe oprimia. Suas unhas ainda cravaram-se na carne latente do esforço que fazia. O pequeno sapatinho lhe escorregou dos pés. Um único suspiro assinalou-lhe a salvação para a vida de escravidão que lhe afligia.

Um comentário:

Lucas O. disse...

Olha só, não havia visto esse conto ainda, parabéns ;) Celly de Azevedo ou de Abreu? kk

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^