quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Caneludo e Beredir- “O cavaleiro sem cavalo”

Imagem encontrada na Web


Houve um tempo em que no mundo todos os cavalos eram selvagens, exceto alguns poucos em que a mão do guerreiro já havia amaciado o animo e lhe feito montaria. Por tal feito qualquer homem assumiria então titulo de nobreza além de ascender belicoso degrau no exército real de Erin. Eu cresci admirando esse número tão reduzido de homens que haviam conseguido domar feras tão bestialmente selvagens e com isso aumentado o poderio do exército real. Dizia para todos: - Um dia hei de ser cavaleiro. Mas não havia quem não risse de mim depois daquela afirmativa. Levava uns tabefes na cabeça e ouvia: - Para cavaleiro antes tu precisas de um cavalo, meninote franzino. Depois de homem feito, perdi as contas das vezes que me meti ao meio da manada selvagem esperando agarrar também o meu a unha. Fora a sorte que não me dera um crânio rachado pelas patas esmagadoras daqueles corcéis. Porém as fraturas ainda as tenho hoje. Como eu insistia que ainda seria cavalheiro, deram a me chamar pelas ruas de “O Cavaleiro sem cavalo”. Era a maior humilhação para quem tinha um sonho como o meu. Mas não desistiria dele, apesar de tudo. Não sei que tipo de arte ou sorte tomava tão nobres guerreiros a ponto de conseguir levar um daqueles corcéis para casa. Até hoje não descobri. Sabia que metiam-se ao meio do bando em pleno tropel, agarravam o que lhe parecessem o mais franzino e distante dos outros e não largavam-lhe o pêlo por nenhuma arte do mundo. Eram então arrastados por dias até que o cavalo tomasse cansaço e também não lhes sobrasse nenhuma pele no corpo. Então os nobres animais reconheciam a coragem e o sofrimento do guerreiro e se deixavam ser amansados. Mas isso era sorte de um homem por cada temporada em que a manada se enveredava para as margens do povoado. Eu assim já havia tentado muitas vezes, mas nenhum deles deixava se quer eu chegar perto de seus pêlos. Depois tinha de agradecer a sorte de permanecer vivo depois de ter me metido no caminho da tropa tantas vezes.
Havia alguns dias que a manada tinha se aproximado e também já havia deixado aquelas terras para trás. Eu amargava aquela nova derrota e muitos arranhões no orgulho e no corpo. Mas aconteceu que não demorou para que em uma noite eu tivesse um sonho demasiado misterioso. Nele o senhor dos cavalos selvagens procurava por algo dentre os charcos do norte. Três noites se repetiu o mesmo sonho. Pensei que o senhor dos cavalos me representasse nessa busca incessante por um titulo de cavalheiro e por isso pouco dei importância ao fato. Porém, ao quarto dia o sonho mudou. Uma voz agradável chamava-me pelo nome a me dizer: - Beredir, Beredir, seu cavalo o espera nos charcos do norte. E para mim parecia que vinha da égua branca, fêmea do senhor dos cavalos.
Curioso por aquela mensagem misteriosa, não resisti, me enveredei pelos charcos nórdicos. E, com efeito, o que encontrei enterrado a lama, preso a uma rede de junco? Nada senão um exemplar daquelas criaturas. Digo exemplar porque não passava de um potrinho magrela e possivelmente recém-nascido. De corpo minúsculo e canelas enormes. Porém adorável com seus olhinhos oblíquos expressivos e aquela vivacidade de diabrete. Esperneava em meio às moitas e seu relinchar lembrava o canto esganado de uma gralha. A pobre criaturinha perdera-se ao embrenhar-se naquele pântano. E findada sua temporada na terra dos homens sua manada agora ia longe deixando o desditoso para trás. Foi custoso seu libertar daquela ramagem intricada, tanto pelo seu espernear, quanto porque suas pernas compridas muito atrapalhavam o resgate. Mas logo visto liberto, saudou-me com muitas lambidas compridas em agradecimento. Meu ser se encheu de contentamento porque eu tinha enfim meu cavalo, e ele não me custara nenhuma pele do corpo.
Muitos foram os risos de chacotas a que fui vitima no reino quando me viam trazer nos braços aquele embrulho diminuto e esquisito e depois de me perguntarem: O que trazes ai Beredir? Eu ter respondido: Meu cavalo. Assim, em meio ao alarde dos risos ouve motivos para muitos gritarem: Vejam-lhe o cavalo deste cavaleiro, não é ele quem leva seu próprio cavalo? Pouco me importava, pois já tinha tomado amor àquele potrinho desengonçado e naqueles primeiros meses, de tão pequeno que era, para onde ia levava-o comigo, no braço.
Para todos, ele era cria de uma égua amansada e por isso era maior o riso. Mas bastou alguns anos passarem para ter enfim minha montaria pronta. A essa altura, ninguém sabia do mistério que ameaçava a linhagem dos cavaleiros puros. Em tantos anos, nem sinal da manada selvagem. Os potrinhos que nasciam eram mirrados, não serviam para guerra. Enquanto que meu caneludo metamorfoseara-se em um garanhão garboso e reluzente ao qual ninguém conseguia montá-lo se não eu. Era então cavaleiro, mas ninguém dava-me importância pela forma como havia conseguido minha montaria. Até que nova mudança se sucedeu.
Tive outro sonho. Neste a égua branca dizia-me. “Beredir. Tome seu garanhão e leve-o para os rochedos do sul porque a passagem entre o reino dos homens e o reino dos cavalos está selada para sempre, e algum de nós resolvemos ficar, mas agora o bando carece de um senhor.” Tinha nas mãos uma escolha; obedecer à voz onírica devolvendo Caneludo aos seus, a sua família de cavalos selvagens e assim perder um fiel companheiro ao mesmo tempo em que abria também mão de um sonho de infância, ou manter caneludo a meus lado não comparecendo ao encontro. Por fim a consciência foi meu guia. A voz havia me dado era justo que eu a restituísse. Na manhã seguinte avisei a todos que o bando estava próximo, os poucos que acreditaram seguiram comigo até os rochedos sulistas. A voz mais uma vez não havia blefado. Os mais belos e ariscos cavalos do mundo se agrupavam entre as pedras. Suas crinas balançavam ao vento, as patas arranhavam a terra, as narinas chispavam. Mas nenhum tropel diante dos homens, nenhuma debandada repentina. Parecia até que nos aguardavam. Tirei a cela e os arreios de Caneludo, e com o coração esmigalhado deixei que ele se juntasse a sua manada.
Observei admirado vir a seu encontro a mesma égua branca de meu sonho. Reconheceram-se; relincharam e empinaram com alegria acercando-se um ao outro para depois empinarem novamente e balançarem o pescoço. Logo o bando o havia cercado e aquele ritual de reconhecimento se repetiu da parte de cada um deles. Era um belo espetáculo para todos que estavam ali. Mas logo deu o momento de eu ir embora. Com a cela e os arreios nas costas virei-me para seguir resignado. Entretanto, para minha surpresa, não tardou até que Caneludo estivesse a meu lado esbanjando aquela mesma alegria. O olhei espantado. Ele por sua vez saudou-me com suas costumeiras lambidas compridas. Voltei-me para a égua branca. Ela nos fitava. Logo estava diante de nós também. Todo o bando seguiu-lhe o exemplo. E assim, eu, Beredir “O cavaleiro sem cavalo”, acabei levando naquela manhã um bando inteiro de cavalos selvagens para o estábulo do exercito do rei.

Um comentário:

Anônimo disse...

gostei

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^