terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida de boneca quebrada

A colocaram na vitrine, assim ninguém percebia que estava quebrada. Veio com defeito de fábrica. Uma perna solta. Mas na vitrine ninguém percebia, e ainda servia para atrair compradores. Dali ela via o mundo, os passantes apressados, os olhares compridos dos pequeninos. Às vezes sorria, quase sempre resolvia. Eles entravam. “Eu quero aquele” e apontava o dedo diminuto em sua direção. O contentamento fazia bater seu coração de plástico. “Aquela não serve, veio com defeito” “Ah!” Mas não fazia diferença. Sempre escolhia outra e o contentamento era o mesmo. Se tivesse glândulas lacrimais a boneca choraria. Polimérico sintético era um material frio, e ainda por cima durava muito poluindo o mundo. Não sabia para quê durar tanto se ainda tinha vindo com defeito. E de fato, estava ali desde muito tempo. Acabava vendo todos irem embora um dia. Mas não dava para sentir saudade. Os passantes passavam apressados. Aprendeu que tudo passava. Menos ela.
E até o belo astronauta passou. Era feito daquele mesmo material que ela, porém lhe parecia que tinha sido de poeira das estrelas. Tinha aquele olhar sonhador de quem tinha contemplado o céu de perto. Era mesmo um lunático, ela sabia. Nunca havia saído antes da fábrica de bonecos. Para ele nunca importou aquela perna quebrada. Quando a viu lhe lançou aquele mesmo olhar sonhador, e lhe chamou de princesas das galáxias. Fazia de tudo para arrancar-lhe risadas. Saía de sua caixa à noite para ir visitá-la. Cantava trovas de amor. Da princesa, o astronauta tornou-se menestrel. Mas também aquela felicidade durou pouco, logo encontrou comprador. E o inevitável aconteceu. Desde então o coração de plástico também tomou defeito. Mas ela sabia que tinha sido bem feito, desde o principio fora impossível aquele amor, não deveria era ter se permitido se iludir. Romance de loja de brinquedos não pode se consumar. Mesmo que o destino os unisse no mesmo lar, os seus sacos de brinquedos não seriam os mesmos. E um amor alimentado por encontros furtivos era a coisa mais sofrida e perigosa de se concretizar. Ainda por cima era quebrada, não havia nenhuma chance de alguém lhe comprar. O sofrimento foi merecido. Aprendeu que era perigoso se enganar. Se vida de brinquedo não é fácil, imagina de boneca quebrada.
Mais um dia, com efeito. O dono olha o rendimento satisfeito. Sorri para sua boneca quebrada. Tão bonita, mas com defeito. Ao menos para alguma coisa servia. Apaga as luzes e fecha as portas. Escuro, solidão e silêncio. Até outro dia que será daquele mesmo jeito. Enquanto que uma redoma de vidro a separa do mundo. Mas fazer o quê? Ninguém quer uma boneca que veio com defeito.

6 comentários:

Snake disse...

Poxa, que triste! E eu esperando por um finalzinho feliz :(

Beronique disse...

Um conto adoravel, meigo, mesmo que triste, volto a dizer que gostei muito dele!!

Sora disse...

Que conto lindo! O final não é feliz, mas as coisas são assim mesmo, nem sempre tudo acaba bem. Adorei!

maya disse...

Belíssimo, como tudo que vc escreve, amiga! Bjo. Maya.

letrasmagicass disse...

Maldade sua li com a esperança de que algo revertesse a historia...protesto protesto protesto...kkk

Dézy Brauner disse...

Adorei, já tinha visto, pois minha amiga Sofia Geboorte me mostrou certa vez. É realmente muito bom.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^