sábado, 24 de julho de 2010

Reminiscências [Fragmento]

Um sapatinho apertava um pé minúsculo que corria freneticamente, parava para em seguida desempenhar a mesma corrida frenética. Uma saia azul esvoaçava com o movimento, completando uma vestimenta repleta de panos. Uma moça misteriosa corria de maneira selvagem por um caminho de pedras que seguia em desfiladeiro. Sua expressa cabeleira ondulava com o vento e o movimento lembrava o tremular de uma bandeira negra. O ar a sua volta estava turvado por uma névoa que vinha da praia mais abaixo. Com grande facilidade ela cruzou o caminho íngreme de pedras escuras e limosas e desceu até a praia. Lá começou a catar os presentes nacarados que o mar deixava na areia. Escolhia dentre todas as maiores e mais rosadas conchas para abrigá-las no bolso improvisado com a dobra da saia. Seguiu assim até dar com uma piscina natural formada pela água do mar represada pelo encontro de algumas pedras. A piscina era verde e refletia cristalina, de uma beleza irresistível a jovem. Chegou-se a ela agachando-se na margem de forma a quase molhar toda a barra da saia. De dentro do bolso improvisado retirou umas das maiores e mais perfeita concha e empenhou-se a lavá-las na superfície cristalina. Assustando com o encrespar da água, alguns peixinhos que sobreviviam naquele lugar tão limitado perto da imensidão do mar. Entretida com o movimento dos bichinhos ela parou o que fazia só para observar aquelas criaturas prateadas de olhos graúdos, tão ariscos quanto ela. Como eu sabia daquilo não poderia dizer, o fato é que era me dado a entender. Quando a superfície do lago voltou a sua forma lisa, o reflexo no espelho d’água se tornou mais nítido, foi então que eu pude reconhecer algo de mim naquela moça. Os olhos que fitavam distraídos a superfície do laguinho eram os meus, apesar de todo o resto da minha aparência estar bem mudada, talvez pela singularidade das roupas e do cabelo.
– Eles não estão interessados, mas eu estou. Uma voz de repente se fazia ser ouvida. Fomos arrebatadas daquela curiosa contemplação por alguém que se chegava a seu lado. A moça que se parecia tanto comigo, se levantou abruptamente para encarar o recém-chegado com o mesmo interesse que devotava aos peixinhos miúdos. 
- O que disse? Ela perguntou, com expressão séria. Uma onda de reconhecimento invadiu o ambiente, tinha certeza que ela conhecia o desconhecido alto e loiro que a fitava, com olhos mais azuis que o próprio céu. 
- As delicadas conchas que tens entre as mãos, que ofertava distraída aos peixinhos, eu a quero. Ele explicou. A que mais lhe agradar terá que ser minha. O rapaz tinha um sorriso nos lábios cheios de uma sedução totalmente direcionada a moça.
Esta, por sua vez, desviou o rosto. – Vocês comerciantes não teriam produto melhor de negocio? Ou seriam assim tão aficionados ao que fazem que mesmo algo sem valor que escolhi para mim querem agora barganhar? Pelo o seu tom de voz despreocupado dava-se para ver que a jovem nada fazia se não um gracejo com o motivo de desafiar o rapaz. 
O rapaz não perdeu a oportunidade para lançar uma nova investida contra a resistência que a menina fazia a seu charme. – Quem disse que não tem valor, se é algo seu, agora para mim é um tesouro também. 
- Tal qual aqueles que trouxestes do mar? A moça tornou-se enfim curiosa.
- Não, ali só tem ouro e prata. Jóias frias e com pouco significado. Essa concha que tens nas mãos para mim é muito mais valiosa. Queres negociar? 
- Não. Já que é de tanto valor prefiro guardar comigo tal tesouro. A moça respondeu. Os olhos do rapaz brilharam de contentamento frente à reação da jovem, pareciam ferver de entusiasmo quando ele começou a negociar. – Mas esse teu tesouro só terás valor comigo. A jovem levantou os ombros, indiferente. - Dou-lhe uma lembrança eterna por ele que marcará com algo bom todas as suas vidas, ou mesmo saciarei qualquer curiosidade tua sobre os mistérios do mundo, claro que valendo apenas uma pergunta. Ele tentou barganhar. 
- Não há moeda melhor de cambio para vocês comerciantes, que algo que não poderiam trocar? Brincou a jovem. – Se negocio é porque disponho. O Jovem afirmou.
Curiosa, a moça arqueou a sombracelha direita. Os olhos do rapaz brilharam, ela estava prestes a cair, era muito fácil.
- Quem és tu afinal? Caira como um pato.
- Sou um negociador. Ele disse estendendo a mão junto com um sorriso de vitória. A moça rebateu o olhar com incredulidade.
- Eu disse que só responderia apena uma pergunta. O rapaz justificou-se. 
- És um enganador. A moça protestou mostrando sorriso. – Desse fato eu já sei.
- Então não desperdiçasse sua chance com algo tão fácil. Ele sorriu ainda de mão estendida. Com um sorriso a jovem esticou a mão, ficou algum tempo com os dedos dobrados em cima da palma da mão do rapaz, enquanto os dois se olhavam silenciosos, experimentando o momento de primeiro contato de pele.
Mas um chamado ao longe a fez sobressaltar-se. 
- Chamam-me. Ela justificou, largando na mão do jovem a concha rósea que tinha presa entre os dedos.
- Então é mesmo Catarina o seu nome? Ele perguntou. Ela apenas assentiu, antes de sumir rapidamente pelo mesmo caminho.

3 comentários:

Beronique disse...

Celly, gostei muito e fiquei bastante curiosa por uma série de coisas, quem é a moça, porque as conchinhas eram tão preciosas que o rapaz queria tanto uma em particular, ele é mesmo um negociante ou algo maior e mais sobrenatural? O que acontece em seguinda, vc tem mais??? (eitaa...qta pergunta hein, rsrs)

F. Otavio M. Silva disse...

Muito legal seu blog, vou passar mais vezes agora.....

dá uma passada no meu
http://otaviomsilva.blogspot.com/
e/ou nesse q participo
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Forte abraço.

Caio Murdock disse...

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Até a próxima!

Meus selinhos ^^

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