quinta-feira, 20 de maio de 2010

Regresso - Um fragmento mais meu do que todos os outros

O caminho de casa tem cheiro de amêndoas. Um farfalhar ruidoso de bicho fugindo, folhas rugindo, passos morosos e pneus apressados. Nada como caminhar um pouco por um volume único de “O Senhor dos Anéis” e outro de “A Dama das Camélias” seguindo uma trilha guarnecida de autótrofos. É bom estar longe de um ambiente fechado, trepidante e abafado, que enquadra o mundo com suas janelas reduzindo tudo a uma seqüência de fleshs de imagens. No fundo, o gosto, leva um pouco de liberdade. Salpicado daquele jeito de noticias boas e ruins. A tepidez do sol emprega nova cor ao meu rosto. No futuro, possivelmente pintinhas novas acrescentadas à constelação. Já não me importo com os olhares curiosos nem os rebato com hostilidade. A meu lado tremula a superfície espelhada de um rio poluído. Confidente de segredos obscuros de toda uma população. Ainda assim tão bonito. Adornado pelo perfil intricado das Rhizophoras, Laguncularias, Avicennias e dos Conocarpus. As suas margens se escondem alguns batráquios, que só preferem chiar à noite. Incita minha imaginação tentar descobrir o que mais se abriga naquele ambiente úmido, misterioso, protegidos por aquele sombreado refrescado e tão fértil. Enquanto caminho todos os cheiros se apresentam com estranha nitidez. Ainda mais expressivos que qualquer som ou qualquer imagem. Em algum momento silvestre; levemente almiscarado. Ou até mesmo fétido, ácido, nauseantemente gorduroso... Porém, a cada instante o açoite do vento me traz de novo aquele cheiro doce de amêndoas frescas, maduras. Caminho sem nenhuma pressa enquanto que para mim mais um ciclo se fecha. Lá se vai mais uma manhã de inutilidade. Mas não me importa o cansaço, o calor que empapam as roupas e faz latejar a cabeça; o caminho de casa tem cheiro de amêndoas [...]

2 comentários:

Jossi Borges disse...

Lírico, lindo!!
É fragmento de um romance? E você vai nos deixar roendo as unhas de curiosidade?? Rss... Fale desse romance, Celly, por favor.
Tem o mesmo tom lírico, doce (como cheiro de amêndoas mesmo) que li em dois livros de Daphne Du Maurier...
Celly, não deixe todo esse talento engavetado ou no hd do seu micro, por favor.
Faça uma sinopse dos romances, e nos prometa que vai publicá-los, enviá-los a concursos, enfim, mostrá-lo ao mundo!
=))
Bjinhos!

Beronique disse...

(ops, mandei o outro com um errinho)

Acho que entendi o que quis dizer com esse ser um fragmento mais seu do que todos os outros, falavas da sua vida não é, do ciclo se fechando, e cada trecho se referia sagazmente a você e a esse ciclo, o gosto da liberdade, o sol, o caminho ao ar livre, o rio que lhe segue pelo caminho, o cheiro das amendoas te levando de volta para casa...quase pude sentir tudo na pele, mesmo que seja quase meia-noite, é como se fosse um dia ensolarado e com brisa na minha cabeça....hmmmmm....além disso me remeteu a lembranças passadas minhas, de um caminho que fazia muito parecido com esse teu (fiz até um texto sobre ele, mas ao inves de ser um dia bonito como o seu, era uma tarde chuvosa). Muito bonito o seu fragmento Celly!!

Bjos

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^