quarta-feira, 5 de maio de 2010

Heitor

Imagem encontrada na web
Há muito que não via pai, nem mãe, nem família nenhuma. A família de um guerreiro são os companheiros de batalha. Os irmãos vão caindo juntos com os inimigos, nem sempre com sepultura. Seus pertences sujeitos a pilhagem. O corpo; alimento para as aves. Os anos correm como por milagre; sem cama quente, sem comida decente. O calor humano se manifesta no campo e vai se dissipando suplantado pela lembrança das feridas, ou então avivado no ventre escuro dos abutres.
Quantas famílias seu braço pusera em segurança mesmo banhado de sangue? Quantos homens deu liberdade batendo-se com o inimigo como se fosse fera? E agora resta só o silêncio. O fim era frio, turvo, e solitário como o fundo do oceano. Não havia nenhuma gloria em perecer em um campo de batalha distante dos olhos daqueles por quem lutou. Imerso em total anonimato. Tão distante mesmo da memória daquela que lhe gerou. Sem um rosto conhecido. Sem uma palavra de conforto. Cercado de inimigos. Sentindo que era só mais um homem entre tantos. Sem nem mesmo pertencer mais a um lado do campo de batalha. Seus feitos se dissipam naquela aragem, em instantes não será mais nada. Seu braço forte encontrou imponente digno e agora o silêncio é sua mortalha. As aves desempenham um vôo solene, apenas espreitam pacientemente o nefasto momento de se regalarem-se de sua carne. A fumaça ao longe não vem de pira funerária, é apenas marca daquele novo embate.
Triste engano que se descobre apenas no fim; o único inimigo sempre foi à morte.
Seu último banho é de sangue. O vento vai levando aquele odor acre, indo se misturar com as outras mostras de barbaridade. O ceifeiro cruel lhe reduz a cacos pouco antes que tudo acabe como uma forma de castigo por bater-se com outros homens. Cerra lentamente os olhos, torcendo que aquela tortura não se prolongue. Seus ouvidos ainda ouvem com normalidade. Passos se aproximam para romper o silêncio de forma ultrajante. Prepara-se para ter o momento de morte violado. Que levem tudo; mesmo sua bela armadura agora de nada lhe serve mais.
Mas que surpresa! Mãos delicadas acolhem sua cabeça depositando-as em superfície macia, morna, perfumada. Sente carícias ternas em seu cabelo sujo de sangue. Sente saudade daquele calor emanado pela a vida. Gotas mornas gotejam em seu rosto. Por incrível que pareça não é sangue. Aquele cheiro lembra sua mãe que um dia esquecera para se tornar homem. Traz lembranças de braços femininos no qual se refugiou nos momentos de cansaço daquele terror da guerra. Abre os olhos para vislumbrar a Valquíria bondosa que vem acompanhá-lo ao fim. Seus olhos fitam uma desconhecida. Um rosto sem qualquer significado. Não imagina que em algum momento foi mesmo herói, que seu nome por alguém é lembrado. A morte afasta qualquer alento. Naquele colo finalmente expira. Vai embora sem deixar qualquer legado.

10 comentários:

Snake Eye's [Rebis Kramrisch] disse...

Deixa esses contos pra enviar pros concursos... mesmo que seja só um pedaço, muitos concursos exigem que os contos sejam rigorosamente inéditos. Vc manda e quando saiu o resultado, aí vc disponibiliza para o público.

Snake Eye's [Rebis Kramrisch] disse...

Bom demais para estar apenas num blog. Ainda insisto que envie seus textos pros concursos, pras seleções de antologia.

Beronique disse...

Celly, seus contos são mesmo uma inspiração, eu leio e me perco neles, com a sensação de despertar quando termino, vou ler os outros que escrevestes com teus amigos.

Agradeço ainda pelo comentário, é sempre muito bom ter quem nos leia e nos incentive, e é verdade, foi um texto reticente, um fragmentozinho de uma historinha imensa que escrevi. Estava tirando o pó dos meus arquivos literarios esses dias e encontrei alguns desses fragmentos avulsos que escrevia para criar outras possibilidades ao texto maior que fiz e resolvi postar, nem imaginei que fostes ler e gostar,isso é muito bom p mim! Estava pensando em postar outros trechos, mas a maioria tem esse mesmo jeito de 'coisa que fica no ar', pois tenho certa dificuldade com finalização/desfecho, não é por maldade não, rsrsrs! Mas só de saber que tenho uma leitora tão especial já me deixa inspirada! Valeu pela força Celly, volte sempre que quiser!

Abraçoss

Ps: Concordo com o Snake, devias mandar teus contos para concursos, és muito boa!

Beronique disse...

Obrigada novamente Celly, olha, alguns fragmentos eu vou postar sim,^^, mas outras coisas maiores tenho um pouco de receio...do que? Não sei ao certo, mas ainda tenho certa insegurança em relação aos meus textos, digamos, mais 'compridos' na web, rsrs, caso te interesse posso te mostrar algumas coisas em particular.

Quanto a esse fragmentozinho que postei...me surgiu uma curiosidade desde que vc comentou, e antes de matar a sua, mate a minha, rs: Qual foi sua visualização da cena? Pois não dei mtos detalhes de ambiente ou da personagem, ou sequer do que estava acontecendo, então fica um terreno fertil para várias interpretações. Com o que você leu e sentiu, o que você acha que estava acontecendo, quem era a personagem, o que ela estava fazendo ali? Nossa, ta parecendo aula de português, rsrs, mas fiquei com isso matutando 'se dei tão poucos detalhes, como será que ela imaginou (ou visualizou) essa cena?'. Podes me saciar a curiosidade? :)

Abçss!!

Beronique disse...

Celly, li teu comentário hoje de manha, numa brecha do trabalho e que vontade tive de te responder na hora, devem ter estranhando meu sorriso aberto enquanto lia o que você escreveu.

Idéias absurdas? Please, continue me mostrando as possibilidades que sua mente cria, acho que nunca imaginei que seria tão bom, acho que era exatamente o que estava procurando, essa interação com outra mente criativa, outras possibilidades que nem me passaram pela cabeça e que podem ser aquela coisa que estava procurando para deslanchar.

Isso me lembra outra vez aulas de redação. Já ouviu falar do exercicio 'criando um MOTE'? Em que só o inicio da narrativa era contado, dando então uma página aberta de possibilidades para a continuação? Nunca imaginei que fragmentos também poderiam ser motes e que alguém me abrir seu leque de possibilidades pudesse me ajudar tanto.

Mas vamos lá Celly: eu adorei a idéia do cavalo. De fato, não tinha nada a ver com isso, PORÉM, a narrativa tem a ver com algo sobrenatural, então comecei a ampliar as possibilidades quando você me deu essa idéia, pensando em misturar essa figura mitica (um centauro ou um fauno) com o clima sobrenatural.

Uau, um maniaco com um baú, onde colocaria seus restos mortais! Vou guardar essa idéia com carinho, gostei.

Imaginei mesmo que a informação da falta de roupa remeteria para uma possivel noite de amor (você ja assistiu ao filme Resident Evil (baseado num jogo de terror pelo qual fui fanatica qdo mais nova)?? Agora to me lembrando que essa cena (um pouco do q escrevi e um pouco do que vc interpretou) lembra muito o inicio desse filme....mas voltemos), e eu até gostaria, se a personagem não fosse tão jovem. Na verdade, a cena verdadeira (ou completa) não tem todos esses requintes incriveis que voce acrescentou (e que agora esta me deixando doida para fazer alterações), digo até que ela é um pouco insossa, rsrs, e esse fragmento que postei é uma modificação que fiz justamente para alterar o rumo das coisas.

Então você quer saber quem é a jovem, porque ela esta nua, assustada e o que acontece? (nossa, que má eu sou, você ja falou umas 3x que simmm, rsrs!), talvez eu não supere suas espectativas, como disse, a narrativa original pode ser um pouco mais sem graça....mas se quiser saber mesmo assim eu posso te mandar um trecho maior para você ler (acho q é mais legal do que apenas dizer como era a cena completa). Só não mando agora porque estou exausta (sai do trampo direto pro cinema, eheh, me encher um pouco de fantasia com o filme da Alice) e minha mente esta operando cada vez mais em camera lenta, rs, mas queria te responder antes do sono chegar.

Então eu acho que ainda fico te devendo o desfecho dessa historia, rsrs, mas agradeço muito mesmo por expressar suas ideias, descobri que era disso que eu precisava, portanto, fique a vontade para dizer quantas coisas malucas quiser, rsrs, me ajudou muito!! :D

Bem Celly, eu fico nessa antes que comece a cochilar sem saber se estou sonhando ou acordada mais, rsrs.

Abraços!!

jossi disse...

Muito bonito, Celly! De onde vem tanta inspiração, tanto lirismo? Heitor é o nome de meu filho, quer dizer, ele é "Hector", mas dá no mesmo, a origem do nome é a mesma. Amo esse personagem, um dos mais magníficos da mitologia grega, e você fala dele desse jeito especial, todo seu... comovente.
Lindo.
Parabéns!

=))

Celly Monteiro disse...

Obrigada Jossi. Fico feliz que tenha gostado. Então vc batizou seu filho de Hector por causa do personagem? Heitor é um dos personagens masculino da mitologia grega que mais gosto também, principalmente pelo seu fim dramático. Não sei pq, mas adoro dramas.

Jossi disse...

Celly, qdo eu coloquei o nome no meu filho, não lembrei do fim trágico do Heitor, porém já simpatizava com ele... e qdo penso nesse modelo de homem, fiel, corajoso, bom marido, bom pai... eu penso também no meu marido. Mas o significado de "Hector" é bem bonito: "sustentador da vitória".
Espero que traga sorte na vida do "meu" Hector, rsss...

Qto ao herói grego,ele é, sim, o meu ideal de homem perfeito. Não consigo perdoar os autores gregos, que deram ao mais charmoso e bondoso dos heróis troianos um fim tão doloroso. Mas talvez por isso a história dele são tão linda, e o amor de Andrômaca tenha sido tão profundo!!!

Celly, estou lendo todos os seus textos, viu? E depois, quero conversar com vc sobre eles.

Como Snake disse, eles são bons demais pra estarem apenas no blog.

;)

Beronique disse...

Monotona, magina, eu é que posso me tonar repetitiva te agradecendo tanto, rs, obrigada again and again Celly!
(Gostei do D. Aranha, ahaha!!)

Então você quer mais de Cher e Legolas? rsrs, será um prazer, mas para que não te confunda de novo digo que esse trecho q postei foi a ultima coisa q escrevi da historia (que nunca pensei na ideia de um livro para ela, puxa, você me dá umas perspectivas paradisiacas moça, rs, mas eu gosto), bem na época em que tive que parar tudo para a apresentação da tortugrafia, digo, do TCC, rsrs, ai não voltei mais a escrever, mas sabe que a cada opinião que você me dá desses fragmentos, mais vontade eu tenho de voltar a escreve-los a todo vapor? É incrivel! Posso te mandar o inicio dessa historia sem problemas (ja te falei que ADORO curiosos? eu mesma sou uma curiosa compulsiva, ahaha, então pode ser curiosa insaciavel o quanto quiser comigo)é só me falar quando, ok?

Celly, novamente grata pela sua visita e palavras, uma boa noite!!

Bjos

Beronique disse...

Foi um domingo especial sim, principalmente porque quase todos meus domingos são parecidos com os seus, em casa na frente do pc, rsrs,ai esse pequenos momentos acabam virando grandes momentos.

Antes de te mandar o inicio do ultimo fragmento que postei, quero te perguntar duas coisas: Dessa vez o trecho não era tão solto como aquele outro, tinha um ambiente mais construido, explicava melhor o que acontecia, mas ainda assim era só um pedaço de algo maior, ou seja, sera que dessa vez você visualizou algumas outras coisas que não estavam na cena, imaginando de onde vinha a situação ou o que os personagens eram, ou algo assim? Outra coisa (meio bobo, :p), pelo que você leu que idade você imagina que têm os personagens?

Sacie minha curiosidade e que já sacio a sua, rs!

Bj

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
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