terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Rebento de Lilith


Ela não me legou uma vida, legou refluxos de uma sub-humanidade. Me ensinou a beber do lodo. Como um sucumbo a me alimentar de desejos de outros. E por perversa vaidade de quem só tem para oferecer o fel, me fez imagem de sua imagem. Desgraça de uma desgraça. Não aprendi a andar, mas a rastejar. A espremer em um estertor da minha vítima a ultima gota de suas veias, só assim aplacar o furor das minhas entranhas em eterna sanha. Tentar compensar com seiva humana essa eterna subnutrição. Desvalides de quem nada vale. Mas... para vergonha de sua progenitora, o verme asqueroso alimenta vontade clandestina. Rejeita secretamente malfazeja sina. Um dia ainda quer contemplar o céu.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Seleção de contos de fantasia

Aos interessados de publicarei seus contos de fantasia - qualquer gênero da fantasia;  fc, terror, etc - no site Benfazeja  enviem os contos para meu email: celly-monteiro@hotmail.com .

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

UM PAPAGAIO PALIMPSÉSTICO - Conto premiado de Newton Emediato Filho


 
Ilustração de João Batista Lazzarini

Naquele dia – na beira da tarde –, logo acima do curral oval de poucas gramas, estavam sentados Pedro pai e os meninos da fazenda. Todos sentados na parte de capim menos castigado pelo gado. O tempo caótico naquelas paragens... O vento – forte e frio – expulsava as nuvens nefastas, armadas longe. No vale as nuvens aglomeram e às vezes com trovões pequenos. Portanto, a qualquer momento poderia chover – é o fim da colheita das grandes plantações de milho e feijão na Soparimba.
Pedro pai manipula um saco plástico de adubo e, com suas mãos ásperas, dá retoques simétricos no quadrado de plástico. Para isso usa uma velha tesoura de ferro de tosar as crinas dos cavalos; tem válida serventia. Nesse saco plástico, reciclável, as palavras grafadas em letras grandes se encontram danificadas e até apagadas.
Ao lado daquele cocho, na grama, em repouso há três gravetos medidos de alecrim coletados no cerrado, horas atrás. Além disso, jogados no chão, um facão e uma foice mal amolados. Nesse chão, Pedro pai estendeu o saco tosco, bem aberto e desamassado, que permaneceu ali na espera sobre a areia misturada com o barro de estrume de gado seco. Pedro pai contém um riso enigmático nos lábios, experimenta os gravetos, alisa e morga-os. Repara bem. O experimento pode resultar, no final, em logro para os meninos de olhos espertos e ansiosos. Os gravetos, em forma de cruz, são amarrados com pedaços de embira.
– Pedro pai, quando ocê rasga a embira com as mãos embebidas de restos de água, ela traz cheiro tão bom! 
O graveto mais comprido, quando é alisado a canivetadas, morgado no amarro, forma em equilíbrio uma meia-lua. Logo após essa envergadura, também amarrado nas partes superiores dos dois gravetos – em forma de cruz –, o esqueleto da estrutura é testado contra o vento várias vezes seguidas. 
Sobre o saco plástico, a armação estruturada de forma aerodinâmica teve o amarramento ordenado – bem posto e caprichado. Tem de fazer, então que faça com calma, é fato indubitável!
 Pedro pai perscruta o tempo, pois o seu maior desafio está prestes a acontecer e tem que contar com a sorte e com o tempo. Verifica e aperta bem as amarrações do seu empreendimento. A rabiola, por fim, os meninos a fazem utilizando um bom barbante grosso e restos de outro saco plástico. Mas quando Pedro pai testa o seu protótipo imenso – capaz de assustar qualquer transeunte –, levantando-o contra o vento, percebe o estorvo e solta vitupérios, descartando de imediato a rabiola que rabeava – puxando de lado –, o que deixou os meninos boquiabertos e queixosos...
– Vumpt, vumpt... é o vento forte contra o enorme papagaio de Pedro pai. Nessa perspectiva, os meninos correm a conduzir, a uma certa distância, o papagaio, levantando-o até quanto pudessem. No vento muito forte o papagaio foi solto, rompendo os bambuzais... alçando vôo... decolando... enfim. Na verdade, bastou largá-lo e o tempo se encarregou, num instantâneo, de realizar o resto. Parecia mais que nem um passarinho; Pedro pai realçou isso em seu rosto, na hora.
Aquele papagaio imenso, que foi motivo de tanta burlescaria, agora estava nos céus da Soparimba. As escritas no plástico, ainda nas alturas, se deixam vislumbrar ora sim, ora não. A manivela com a linha de nylon adquire um peso dantesco e, aos poucos, Pedro pai libera mais e mais linha. O vento cada vez mais forte sopra no vale da solidão. O céu está carregado de uma cor turva que vai se acumulando – concentrando no vale.
O peso aumenta ainda mais quando os meninos acrescentam na linha pedaços de papéis com diversificadas palavras. Palavras escritas com carvão. As letras foram rasuradas quando corrigidas umas sobre as outras, assim rapidamente, quando Pedro pai reescreve uma palavra em cima da outra. Logo as palavras, amarradas na linha de nylon, atravessam as cercas do curral, as formas das árvores, e passam por cima da grande casa da fazenda, se elevam nas alturas: tudo aquilo se tornou muito garrido. Pedro pai manda os meninos enviar mensagens para o mundo de lá.
Paz, amor, alegria, “armonia”, abundância, “cassa”, roupa, perseverança, casa, “lápisc”... Seguem para o céu em meio às trovoadas.
A linha é liberada totalmente da manivela e Pedro pai não suporta tanta batalha pesada. Luta contra o tempo. Vêm os primeiros pingos da chuva, e ele, sapeca, corta com o seu canivete a linha sem que os meninos saibam. Deu a impressão de que a linha tivesse arrebentado por si mesma. Mesmo porque, àquelas alturas, o homem, resignado, não tinha como lutar mais contra a natureza.
O papagaio ainda fora visto, nas alturas, pela ultima vez sendo arrastado pelo vento forte nas nuvens agitadas. Os meninos, com suas cabeças erguidas para o céu puderam ouvir ainda as palavras de Pedro pai, indo na direção do paiol, enquanto eles fugiam para dentro da casa:
– Eu é que nunca vou sair da Soparimba!


O conto em questão recebeu o Prêmio Projeto Manuelzão/UFMG e Menção Honrosa pela Editora Guemanisse Teresópolis/RJ
Newton Emediato Filho é finalista do conto curto pela Editora Via Literária Porto Seguro/BA dezembro 2010 com o conto "Ancestral".

Parabéns amigo e boa sorte!


sábado, 11 de dezembro de 2010

Ludmila


Na terra do Império Austral nasceu Ludmila, cuja face era da cor das nuvens, cujo cabelo era da cor do sol e seu espirito incontido luzia em seu peito recendendo como um astro vivo. Do nascer ao arrebol nas montanhas azuis só se ouvia o estalar de seu riso. E todos diziam; “- Ludmila, tu tens a alma daqueles que vivem entre as estrelas.” Seu pé era leve feito pluma e ágil feito flecha. Sua vontade não parava um só instante. Sorver da vida como um mel dos deuses Ludmila tinha pressa. Mas eis que as bruxas do Norte da menina tomou inveja. Lhe incomodavam alma tão livre, tão feliz e tão sincera. Deram-lhe uma caixinha de vidro onde selariam seu espirito.
“- Mas veja que linda menina! Disseram as feias megeras. – Pena ser para sempre menina, que sina triste lhe espera. Com tão grande e indomável espirito não cabe em corpo de moça adulta. Não será esposa, não terá filhos, sua existência será sempre incompleta... A menos que lhe prendam um pouco do espirito em uma caixinha de vidro a cada primavera.” E assim findou-se a alegria e o riso. Desde então vazio e espera. A cada ano prendiam-lhe um pouco do espirito. Também a felicidade de Ludmila eclipsou-se desta terra.





terça-feira, 16 de novembro de 2010

Trilogia Donas do Mundo - Resenha e comentários




Conheci essa história a partir de um trecho que a escritora Jossi postou em site. Foi impossível não ver enlaçada por um enredo tão criativo, tão divertido e tão bem conduzido como é no decorrer da história. Depois que eu consegui o livro, li com avidez o primeiro em poucas horas. Fui cutucar depois na comunidade da escritora para ver o que a galera achava, os comentários me surpreenderam.

Olha só o que saiu:

“A melhor parte é o leilão de homens, em que eles são postos sobre um palanque em praça pública e oferecidos como cachorros sem dono ahuahauahuaha... Não saco de FC, não gosto, ou penso que não gosto, pq isso sempre me remonta à Star War, Star Treck e babas afins, que não gosto - não gosto de futurismo tipo Jetsons. Mas eu duvido muito que haja, na literatura, um futurismo abordado da forma como a Jossi abordou, com mulheres governando o mundo e o mundo voltando a ser ecologicamente equilibrado. Nesse futuro, até dá vontade de sobreviver pra ver, rs.”

“Celly, concordo com você... acaricia o nosso lado feminista. A Jossi conseguiu nos mostrar um mundo bem melhor, não é??”

“Celly, o mundo que a jo nos apresentou é justamente o contrário hehehehe, simplesmente AMEI ver os "rapazes" fazer o serviço doméstico que sempre fizemos.”

“Eu li só um trechinho... mas esse livro tá na minha lista pra ler com certeza....Tive devaneios tão profundos apenas lendo esse trecho, imagina lendo a trilogia toda...rs.”

“Rebuliço??? RsrsrsrsCelly, eu simplesmente entrei em "erupção" desde o primeiro livro! A Jo conseguiu realizar e passar pra nós o sonho da maioria da mulherada! Eu A.D.O.R.A.R.I.A que futuramente o mundo se transformasse em uma nova Pangéia hehehe, "Euzinha" toda produzida em um leilão de homens! Nem preciso te dizer que eu me "esbaldaria", né? Rsrsrsrs”

“ Finalmente acabei de ler os dois livros da trilogia, e, bem, agora posso entender melhor a algazarra da mulherada rsrs
No segundo livro a Jossi se superou. É simplesmente perfeito. Acabei enchendo o saco dela repetindo sem parar; Adorei, Adorei... rsrsrs O mago Dalan é perfeito! Viu? Estou me repetindo de novo, mas é a empolgação kkk Achei o personagem muito bem construído. Tão fofo o romance dele com a Marjorie! Desde o começo foram meus personagens favoritos. A história da Cayari também seguiu um rumo bem legal, muito bonitinho.
Esse segundo livro é tão rico não é? Tão bem dosado de magia e mistério. Novamente me lembrou a “Marion”.
Me acabei de rir quando a Abhati disse que queria o Claudio, pensei comigo; bem feito, acabou ficando com a pior delas, e pelo jeito que a mulher é orgulhosa, ele vai sofre direitinho nas mãos da tirana. Já estou até imaginando kkk
Minha torcida pelo lançamento do próximo livro já começou. Mal posso esperar. ”

“Concordo com você Celly. A Jossi soube colocar bem a questão das diferenças nos relacionamentos.
E em Nova Pangéia as mulheres sendo mais jovens, mais velhas, mais "cheinhas", guerreiras, com poder político... todas se sentem tão bem em seus papéis, tão seguras de quem são e para que vieram.
Como seria um mundo em que pudéssemos "sentir" o que quiséssemos e escolher a quem e quantos quiséssemos, sem nos preocupar com o peso de termos que ser inteligentes, eficientes, lindas e maravilhosas todo o tempo.... só posso pensar... Wonderful World... rsrsrsrsrsrsrssrs...
Eu também adoro os personagens "mauzinhos" que acabam se deixando levar pelo amor. Mas não podem se tornar "bonzinhos", pois perde a graça... rsrsrsrsrsrssrsr...
Mas eu tenho um problema... se Nova Pangéia me parece um mundo perfeito... não sei o que pensar de mim mesma quando me pego "babando" pelo Dalan e pelo Oberon....rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs...
Estou com vocês na torcida pelo lançamento do 3°!!!!!”

Para o sossego dos leitores, o 3° lovro da trilogia está em vias de sair.



Minha resenha do 2° livro;


Livro Senhora da Paixão


Nesse segundo livro, o insólito mundo do futuro governado pelas reginas, às admiráveis amazonas futuristas, nos revela com esplendor todo seu encanto e magia, tomando ares ainda mais grandiosos, em um enredo mais uma vez surpreendente.
Marjorie, a viajante clandestina da mesma cápsula do tempo que trouxe os humanos do século XXI ao longínquo futuro de 3500 d.C. após ser capturada pelos monstruosos Arths, inimigos das reginas, fica dependente da ajuda do enigmático Dalan, um homem de passado sombrio que ninguém pode afirmar se confiável ou não, cercado pela duvida de que se tratar realmente de um mago como todos dizem, amigo das reginas, ou um charlatão aproveitador. Ainda assim Marjorie não tem escolha, pois ele se apresenta como a sua única chance de salvação do arrepiante destino que lhe aguarda ali, encarcerada em um dos calabouços de Phantom, a cidade fantasma dos Arths, sujeita a qualquer momento ser vitima da lascívia desumana dos seus grotescos raptores. Dalan também se apresenta como sua única chance de ajuda no resgate de Cayari, sua amiga regina seqüestrada do calabouço durante a noite por um homem misterioso assustador, que ainda por cima também poder trata-se de um mago, mas que perigosamente seduzido pelas vantagens oferecidas pelas artes das trevas.
Ao fugir de Phantom acompanhada pelo misterioso, mas, principalmente fascinante “Mago Dalan”, a vida de Marjorie acaba tomando rumos ainda mais surpreendentes. Sem perceber, ela se vê arrastada a uma aventura alucinante repleta de magia, novos perigos, fantásticas descobertas, e o melhor de tudo, ela poderá encontrar um amor verdadeiro.
Nesse segundo livro a escritora Jossi Borges se supera ao criar com excelente riqueza um enredo onde à fantasia e a ficção cientifica tomam doses certas. Descrevendo com minúcia uma realidade bastante sedutora e muito bem construída capaz de arrebatar o leitor a uma agradável viagem de onde é impossível não sair absolutamente ansioso pelo terceiro livro da trilogia. 

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Editora Estronho - Uma estronha novidade




Do curioso, ou por melhor dizer, estronho site de entretenimento voltado a literatura de terror e fantasia Estronho e Esquésito surge agora a novidade; A Editora Estronho, um projeto que promete movimentar a literatura nacional com preços bacanas, novas oportunidades e muitas novidades.

Sobre a editora; 
Segundo as palavras de M. D. Amado:
"O objetivo principal da Editora Estronho, continua sendo o mesmo do site, ou seja, lançar novos autores e mesclar seus trabalhos com autores experientes. Além disso, disponibilzar aos leitores, livros com preços mais acessíveis (através da venda direta no site da editora) e com melhor qualidade gráfica, não esquecendo obviamente da qualidade de conteúdo. Outro objetivo da editora é estreitar as relações entre autores e leitores, dando a oportunidade de um contato mais direto entre eles, através das páginas biográficas, comentários e eventos."


quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Obsolescência Biológica




Naquele dia ela bateu a sua porta cedo, não tão cedo que já não estivesse acordado. Acordava com as galinhas, e ficava ansioso que os outros também acordassem para que a casa ficasse movimentada, e o dia então finalmente começasse para todos. Aquela novidade para ele soou especial. Pressentiu alguma coisa escondida, alguma surpresa guardada para aquele dia em questão. A expectativa aumentou quando ela avisou que fosse tomar banho enquanto arrumava algumas coisas, pois iriam sair. Não perguntou o que era para não chateá-la com sua curiosidade. Melhor obedecer e não aborrecer.
Ensaboou-se com certo friozinho na barriga. Pensou em quanto gostava de surpresas. Gostava também da casa movimentada, do zunzum de vozes, de passos apressados para lá e para cá, daquele alvoroço tão intimamente familiar. Talvez fossem sair todos juntos. Seria um dia bom então, mesmo que fossem apenas no supermercado. Afora o cansaço, seria bom, tinha certeza.
Às vezes se distraia olhando o movimentar dos outros, as conversas que muitas vezes não lhe fazia sentido, mas cheia de uma afobação entusiasmaste, de um calor tão apreciativo. De tão distraídos nem o percebiam escutando, observando. E ele se divertia só de ouvir, mesmo sem ser incluído na conversa. Ouvir e tentar acompanhar um assunto alheio era melhor do que aquele jogo de quebra-cabeças que sempre se pegava fazendo, tentando preencher lacunas vazias de lembranças. Tentando fazer a custo tudo tomar um sentido. Esse jogo era chato, exaustivo, às vezes angustiante. Melhor era se distrair ouvindo os outros, com aquele entusiasmo quase inesgotável que possuíam.
Agora mesmo se perdeu tanto dele mesmo pensando que ela teve que o repreender. Estava demorando demais com o chuveiro ligado. Assim não havia conta de água que agüentasse. Que saísse logo do banheiro. Ela havia deixado sua roupa preparada em cima da cama o esperando e os chinelos a um canto. Era mesmo verdade, iriam sair. E ele iria junto.
Ah como apreciava sair, passear pelas ruas, olhar pela janela do carro, sentir a brisa no rosto, ver gente nova. Esquecera de dizer a ela o quanto apreciava passeios. Na mesa do café diria, mas também acabou se esquecendo. Mas quando lembrou de dizer quando iam saindo, não entendeu por que ela o tratara com aquela impaciência dizendo que ele não precisava dizer aquilo novamente. Era só uma forma de agradecer a chance daquele passeio mostrando a ela que ele estava feliz. Não queria aborrecê-la. mas sempre acabava fazendo, mesmo sem saber por que ou como. Prometendo não importuná-la mais resolveu guardar pra si mesmo aquele entusiasmo, aquela animação.
Todos haviam estado presentes a mesa do café, mas dos outros, só ele sairia com ela e o marido, e quilo aumentava ainda mais aquela sensação de importância. A mesma daquele primeiro dia na escola, quando havia uma roupa para ele preparada em cima da cama, um lanche reservado, a mochila com suas coisinhas e os três indo para um lugar que ele não imaginava o que era, ou como seria lá. A sensação de mistério, expectativa era muito parecida com aquela. Ela também aprontara suas coisinhas. Prepara um lanche só pra ele. Isso, além do suspense gostoso no ar, deixava nele a sensação de ser importante, de ser querido e lembrado, ao menos naquele momento. Sim, a sensação era muito parecida a aquele primeiro dia na escola.
Mesmo sendo tão cedo, todos já haviam acordado. Ela  acordara a todos eles. Ela estava sendo impagável naquele dia. Na mesa do café estiveram todos reunidos, e a forma como passavam olhares para ele mais do que o comum só aumentava aquela sensação de notoriedade. Ah, como aquele dia começara bom! Sentira até lágrimas nos olhos quando na porta, num relance de olhar, dera com todos aqueles olhos nele, todos eles respondendo a seu acenar de até logo antes de sair para o corredor. Que sensação estranha sem um motivo aparente! Uma emoção incompreendida. Talvez aquela expectativa lhe deixasse emotivo assim de repente. Ou talvez tivesse ficado muito tempo esquecido em casa, e a emoção fosse só gratidão.
Ela tinha estado especialmente carinhosa naqueles momentos seguintes do passeio, esperara paciênte ele, com seu andar moroso chegar até o carro, ajeitara o cinto para ele de bom grado. E depois quando pararam lhe dera o braço para apoio naquela aproximação tão confortante, tão alentadora. Era tão bom ter a atenção de sua menininha novamente. Ter seu carinho, sem precisar se sentir, ao menos naquele momento, apenas um empecilho para sua paz e felicidade. E naquele instante em que pararam e entravam naquele recinto tão espaçoso onde as pessoas se moviam silenciosamente como se fossem espectros, fantasmas apagados sem energia alguma, se sentiu novamente emocionado, pela aproximação carinhosa, pelo cuidado, por estar com ela mesmo em um lugar estranho. Mesmo naquele lugar que de imediato lhe pareceu tão pavoroso, onde não havia os gritos dos netos ou sua movimentação desvairada.
Lá ele foi especialmente recebido, exatamente como naquele primeiro dia da escola. As pessoas de branco lembravam os professores, com aquela atenção artificial e até incômoda. Mas os seus outros companheiros tão apáticos e conformados nada tinham de parecidos com aqueles de outrora, do raso de suas parcas lembranças. Ela esteve com ele durante alguns minutos. Passearam pelos corredores, sentaram-se em um banco no jardim e ficaram apreciando aquele silêncio que lembrava cemitério. Ele permanecia calmo, observando como sempre, apenas com não muito interesse. Ela no entanto parecia impaciênte. Duas ou três vezes a vira se preparar para levantar e desistira logo em seguida. Mas, decidindo-se finalmente logo levantou. Lhe entregou aquele lanche que havia preparado logo cedo, beijou rapidamente sua testa e partiu apressadamente sumindo logo em seguida com o marido pelos corredores. Como um dêjavú daquele primeiro dia de escola ficara aquela mesma sensação de abandono. Porém desta vez, tinha certeza; não era uma sensação falsa. Ele havia sido entregue a seus fragmentos de lembranças e aquele silêncio quase inquebrável até quem sabe quando seu fim chegasse.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Espetáculo


Todas as vezes que o circo chega à cidade, trazendo um tropel irritante, com seu barulho desordeiro, mobilizando uma massa humana, arrancando gritos e estampidos, tremo por dentro. Sou tomada por um medo que paralisa-me toda. Se estou à porta de casa, corro para dentro e fecho as portas até que o tropel passe. Se acontece o azar de eu estar na rua, adentro pela primeira porta que encontrar. Todos riem de mim quando admito; tenho medo de circo, de seu barulho insano, de seu arrastar de pessoas, de seu calor alucinado. Minhas netas me olham de maneira irrisória quando me vêem tremer como criança toda vez que a caravana circense faz sua marcha pelas ruas da cidade se anunciando. Fico calada tremendo em meu canto, me afogando em lembranças não tão boas. Porque elas não sabem que o circo é só desculpa para as pessoas libertarem a selvageria que sempre carregam presa no peito. Porque sempre que podem elas estão dispostas a gritar e rir em extravaso. Para libertar o que tanto escondem dentro de si acabam, sem qualquer decoro, achando graça até onde não existe.
Eu era menina quando vi um circo, não desses que as pessoas estão acostumadas a ver, outra espécie de circo, armado com um motivo parecido de atrair e divertir. Era recém-chegada em Diamantina, estava ainda naquele deslumbramento de pessoa nova em cidade tão bonita, principalmente por que saía pela primeira vez da fazenda de meu pai para morar na cidade. Tinha também recendendo em mim um ar de ingenuidade e abstração fruto do lugarejo provinciano onde antes morava. Certo dia, notei uma animação incomum se alastrar pelas ruas. Um vai e vem de pessoas, um riso solto no ar, uma excitação misteriosa nas faces de quem passava seguindo sempre para uma mesma direção. Sai à porta para ver o que acontecia. Sem querer me senti também animada e curiosa por aquele repentino rebuliço popular. Olhava as pessoas com aquela expressão entusiasmada estampada na face e também me animava, rindo também, mesmo sem saber dor que, contagiando-me daquela alegria. Então de repente, saindo dentre aquelas pessoas que se aglomeravam, veio uma vizinha, uma meninota da minha idade. Veio até mim e me puxou pelo braço. – Vamos lá, vamos ver de perto. Ela disse com aquele mesmo riso animado preso na face. Esperando uma surpresa boa me deixei ser guiada, me distanciei com ela guiando-me em meio a aquele contingente de pessoas em animação desvairada, em um empurra-empurra por uma visão melhor, em uma expectativa que só tornava maior aquela excitação geral. Como éramos pequenas, nos escorregamos sorrateiras até a fila da frente, tendo assim uma visão privilegiada na fileira principal. O que vi de inicio não me pareceu fazer nenhum sentido para toda aquela agitação, para justificar aquele apreço das pessoas em se empurrarem e se apertarem esticando o pescoço proferindo exclamações que enchia o ar de um murmurinho desconexo. Na praça principal havia apenas um palanque simples montado, dois homens em cada extremidade. E o que me chamou a atenção; ao centro do palanque havia um alçapão. Olhando pelas frestas do palanque, pude ver as botas de outro homem embaixo da armação. Questionei-me o que ele fazia ali escondido. Qual o espetáculo que encenariam ali, naquele palco tão singular. E as roupas grosseiras daqueles homens, suas caras sisudas e que me pareceram até mesmo hediondas chamou deveras a minha atenção. Em meio a minha inocência de menina provinciana fiquei esperando, também com expectativa, aquele espetáculo a qual todos torciam se revelar. Lembro que fiquei ali algum tempo na espera, enquanto as pessoas se impacientavam e clamavam entre resmungos e imprecações que se consumasse logo o ato a qual eles estavam ali, tão gentilmente disponibilizando um pouco de seus tempos e atenções.
Senti quando algo acontecia quando vi aquela massa de pessoas assumirem um temperamento incomum, quase selvagem; gritavam e se inquietavam em seus cantos, transmitindo uns aos outros sussurros e comemorações. Se acotovelavam e se aglomeravam ainda mais em direção ao palanque, quase esmagando a quem estava na primeira fileira. E desprendiam gritos e assoviavam, e esticavam ainda mais o pescoço a risco de cair em cima dos que lhe estavam à frente. Todos queriam um pouquinho do espetáculo, todos queriam uma visão privilegiada do que iria se suceder ali. Lembro que ainda não tinha idéia do que aconteceria quando vi subirem com aquele homem em cima do palanque. Dois homens o trazia com uma delicadeza que parecia que traziam um animal. Ele tinha as mãos nas costas, presas por grossas cordas. Trajava-se de andrajos, estava sujo e seu mau-cheiro podia ser sentido de longe. Sua face estava quase toda encoberta por aquela barba expressa e mal cuidada que exibia. Mechas desgrenhadas de seu cabelo também acabavam por esconder-lhe o rosto. Mas o brilho de seus olhos conseguia destacar-se em meio aquela profusão desleixada. Consegui enfim entender o que aconteceria ali quando mirei seus olhos. Tinha um brilho penoso desses que você ver quando fita um bicho ferido, e um vazio doloroso que nos faz desviar o olhar para também não ser tomado por aquele nada, também não ter esvaída nossas esperanças na vida ao encará-lo. Ao dar-me por mim do que se passaria ali, tentei sair, tentei fugir daquele circo de insanos, mas não me deixaram, de tão compactada que estava àquela massa humana, não consegui mover um pé do lugar. E imprensada da forma que me encontrava contra o palanque, não consegui nem mesmo me virar para não fitar o que ocorreria. Não demorou muito até que tudo estivesse acabado. Até aquele bando de selvagens sanguinolentos estivessem saciados de morte. Até que um corpo pendeu inexpressivo alçapão abaixo, depois de muito fazer vibrar de forma desvairada a platéia, enquanto se retorcia em sua agonia antecedente a morte.
Entendi uma coisa olhando cada uma daquelas faces excitadas deleitando-se de forma alucinante naquele espetáculo popular. Os homens guardam algo dentro de si, uma coisa selvagem e medonha que vive sedenta em seu cárcere, ávida por se alimentar de seja qual for o show, pouco se importam, só esperam um momento, uma oportunidade, um leve motivo para que possam emergir de dentro, vislumbrar o mundo de fora, mostrar a face, saborear a liberdade frente a qualquer espetáculo que lhe apresente oportunidade de se manifestar. E depois de saciarem como se pode, depois de perderem-se em pleno extravaso, depois do momento que dá passagem àquela loucura desvairada que levam dentro de si, revestem-se de novo em uma serena e lúcida imagem de cidadão decente. Por isso tenho medo do circo, ou de qualquer manifestação popular que se faça oportunidade dos homens libertarem aquela sede desvairada que levam dentro do peito.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O preço do silêncio


Que preço tem o silêncio? Custou-me a liberdade. Achei que estaria feliz quando ela parasse de gritar, mas agora que não ouso mais uma só palavra, mesmo de xingamento ou injuria. Agora, quando o que resta é um silêncio imaculado e opressivo, tenho um gosto amargo na boca. A ausência de nota no ar, que não delata nenhum movimento, nenhuma reação ostensiva, causa um vazio e trás velado nesse nada, algo de funesto que faz o medo morar quieto aqui no peito. Tento então afastar os pensamentos. E sempre que faço sinto-me como que fugindo de algo que quer me agarrar e esmagar-me como mãos negras em um espasmo de pavor. Seria o medo?
Faz um dia... Não, talvez já faça mais tempo. Seria o cativeiro que me enlouquece? Não foi a pior das nossas brigas, não dentre tantas outras, mas parece que dar-me as costas foi à única maneira que ela achou para resolver as coisas. Simplesmente parou de gritar, e devota-me então um tratamento de silêncio, de desprezo, de frio desprezo. Sempre pensei que ela fosse capaz de tudo, mas trancar-me no quarto até morrer? O engraçado é que não tenho nem fome nem sede. Penso que a teimosia me faz forte. Sempre fui assim; de um orgulho obstinado. Mas esse seu silêncio tem sido corrosivo, igual a uma aragem caustica que dilapida a pele a cada açoite. Porém, sinto-me ruindo é por dentro, a cada instante. Diluída nas ultimas lembranças, entorpecida, minha alma vai se impregnando da toxina do ódio e rancor e degenera-se aos poucos. À medida que esse suspense e silêncio tem o dom de tornar minha existência atemporal vou também me enchendo de maldade. Meu âmago é só ferida dolorida. Sinto arrebatado de mim toda pureza e bondade. E o que antes ainda era amor, perde-se na lembrança deste abandono.
Desnorteada, o que lembro daquelas primeiras horas foi que ela trancara atrás de si a porta, depois de olhar para o quarto com aquele vazio nos olhos e fingindo que não me enxergava ali, encolhida ao lado da cama. Corri para trancar a porta com raiva e vi que ela já estava trancada por fora. Era um castigo. Deveria engolir aquela humilhação e esperar até que acabasse. Era inevitável não me entregar ao pranto, que a aquela altura era enxuto como uma névoa de dor que apenas enfluía do peito. Ainda tenho o peito pesado desse pranto que não me quer molhar a face. Talvez também por teimosia. Penso que também estou me fazendo forte com relação às lágrimas.
Não voltei a vê-la. Também não me disse mais palavra. Depois de um vago momento de murmurinho, também a casa se engolfou naquele silêncio. Tentei fugir pela janela, mas me pareciam soldadas. Tive raiva dela e esse foi o princípio daquele sentimento negro que tomava-me como uma torrente arrasadora, com uma força desvairada. Questionei-lhe com sinceridade. O que ela queria tratando-me daquela forma. Trancando-me entre aquelas paredes limitadas por tantas horas. E o nada foi à resposta que só alimentava minha raiva. Então comecei a agir como ela. Usei as mesmas armas: gritei e lancei coisas contra a parede. Proferi um milhão de insultos e palavras imorais e novamente minha ira era alimentada. Exausta, adormeci. Quando acordei o quarto estava arrumado, as coisas no seu lugar de volta. Mas a porta ainda trancada e nenhuma palavra. Nenhum som por um bom tempo. Em algum momento a porta voltou a ser aberta. Rostos estranhos despontaram no limiar. Olharam com interesse para dentro. Aos gritos perguntei quem eram, o que faziam ali e o que ela queria com isso. Quem sabe advertidos do meus animo por ela não deram-me atenção. Olharam até quando quiseram com apenas a cabeça passando da porta e uma curiosidade irritante a amostra e depois foram embora trancando-me novamente. Enquanto eles estavam por perto uma chama quente de esperança e conforto queimava em meu coração. Então cheguei a encarar meus erros. Analisei a situação. E lançando a toalha branca cheguei a lhe pedir perdão abdicando de todo o ódio acariciado antes. Mas a resposta continuou sendo-me o seu silêncio. Logo a movimentação na casa se aquietou. Da presença dela e daqueles estranhos nenhuma resposta mais. Comecei a encarar com realidade a crueldade no coração das pessoas. Desacreditei de muitas coisas também, incluisive na bondade e no perdão. Ela havia me abandonado. Não era verdade o que me diziam de laços de amor e afeto. De um sentimento inquebrável entre a mãe e sua cria. Eu estava só naquele quarto, com aquele peso no peito e tão abandonada e maltratada que parecia que enlouquecia. Que parecia que não havia mais barreiras do tempo, que não havia mais necessidades físicas, que não havia mais nenhum alento na vida. Vida;... tudo de repente se embotava de uma forma que se resumia aquele silêncio. Aquele nada. Aquele vazio. Aquele ódio. E aquele medo que parecia me sufocar toda vez que virava o rosto ao lado para onde ficava a porta do banheiro. Penso que tenho que me lembrar de algo. Algo que tem a ver com aquele silêncio. Preencher aquela lacuna.
Então finalmente eu tento. Lembro daquela briga que não tinha nada de diferente das outras exceto por aquele cansaço. Sim já estava cansada, como um recipiente que de tão cheio a qualquer momento iria transbordar e me trazia aquela sensação de que não dava mais.
Os gritos continuam. A mágoa sufoca-me o peito. Tapo os ouvidos. Nada a faz parar. O recipiente parecia transbordar. Tranquei-me no banheiro e...
Sorrateira as mãos negras vêem novamente me torcer entre seus dedos, me esmagar. Finalmente consigo entender; ela chama minha atenção para um canto do aposento. Finalmente compreendo. Me encolho ainda mais em meu canto ao lado da cama. Tenho que encarar tudo de frente. Já não posso mais fugir. Com muito custo consigo finalmente fitar a porta do banheiro escancarada. O piso agora nodoado. Um súbito aperto comprime meu peito. Finalmente sinto o silêncio se quebrar em mil estilhaços. O som ecoando no vazio:
- Mãe. Tenho medo!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Caneludo e Beredir- “O cavaleiro sem cavalo”

Imagem encontrada na Web


Houve um tempo em que no mundo todos os cavalos eram selvagens, exceto alguns poucos em que a mão do guerreiro já havia amaciado o animo e lhe feito montaria. Por tal feito qualquer homem assumiria então titulo de nobreza além de ascender belicoso degrau no exército real de Erin. Eu cresci admirando esse número tão reduzido de homens que haviam conseguido domar feras tão bestialmente selvagens e com isso aumentado o poderio do exército real. Dizia para todos: - Um dia hei de ser cavaleiro. Mas não havia quem não risse de mim depois daquela afirmativa. Levava uns tabefes na cabeça e ouvia: - Para cavaleiro antes tu precisas de um cavalo, meninote franzino. Depois de homem feito, perdi as contas das vezes que me meti ao meio da manada selvagem esperando agarrar também o meu a unha. Fora a sorte que não me dera um crânio rachado pelas patas esmagadoras daqueles corcéis. Porém as fraturas ainda as tenho hoje. Como eu insistia que ainda seria cavalheiro, deram a me chamar pelas ruas de “O Cavaleiro sem cavalo”. Era a maior humilhação para quem tinha um sonho como o meu. Mas não desistiria dele, apesar de tudo. Não sei que tipo de arte ou sorte tomava tão nobres guerreiros a ponto de conseguir levar um daqueles corcéis para casa. Até hoje não descobri. Sabia que metiam-se ao meio do bando em pleno tropel, agarravam o que lhe parecessem o mais franzino e distante dos outros e não largavam-lhe o pêlo por nenhuma arte do mundo. Eram então arrastados por dias até que o cavalo tomasse cansaço e também não lhes sobrasse nenhuma pele no corpo. Então os nobres animais reconheciam a coragem e o sofrimento do guerreiro e se deixavam ser amansados. Mas isso era sorte de um homem por cada temporada em que a manada se enveredava para as margens do povoado. Eu assim já havia tentado muitas vezes, mas nenhum deles deixava se quer eu chegar perto de seus pêlos. Depois tinha de agradecer a sorte de permanecer vivo depois de ter me metido no caminho da tropa tantas vezes.
Havia alguns dias que a manada tinha se aproximado e também já havia deixado aquelas terras para trás. Eu amargava aquela nova derrota e muitos arranhões no orgulho e no corpo. Mas aconteceu que não demorou para que em uma noite eu tivesse um sonho demasiado misterioso. Nele o senhor dos cavalos selvagens procurava por algo dentre os charcos do norte. Três noites se repetiu o mesmo sonho. Pensei que o senhor dos cavalos me representasse nessa busca incessante por um titulo de cavalheiro e por isso pouco dei importância ao fato. Porém, ao quarto dia o sonho mudou. Uma voz agradável chamava-me pelo nome a me dizer: - Beredir, Beredir, seu cavalo o espera nos charcos do norte. E para mim parecia que vinha da égua branca, fêmea do senhor dos cavalos.
Curioso por aquela mensagem misteriosa, não resisti, me enveredei pelos charcos nórdicos. E, com efeito, o que encontrei enterrado a lama, preso a uma rede de junco? Nada senão um exemplar daquelas criaturas. Digo exemplar porque não passava de um potrinho magrela e possivelmente recém-nascido. De corpo minúsculo e canelas enormes. Porém adorável com seus olhinhos oblíquos expressivos e aquela vivacidade de diabrete. Esperneava em meio às moitas e seu relinchar lembrava o canto esganado de uma gralha. A pobre criaturinha perdera-se ao embrenhar-se naquele pântano. E findada sua temporada na terra dos homens sua manada agora ia longe deixando o desditoso para trás. Foi custoso seu libertar daquela ramagem intricada, tanto pelo seu espernear, quanto porque suas pernas compridas muito atrapalhavam o resgate. Mas logo visto liberto, saudou-me com muitas lambidas compridas em agradecimento. Meu ser se encheu de contentamento porque eu tinha enfim meu cavalo, e ele não me custara nenhuma pele do corpo.
Muitos foram os risos de chacotas a que fui vitima no reino quando me viam trazer nos braços aquele embrulho diminuto e esquisito e depois de me perguntarem: O que trazes ai Beredir? Eu ter respondido: Meu cavalo. Assim, em meio ao alarde dos risos ouve motivos para muitos gritarem: Vejam-lhe o cavalo deste cavaleiro, não é ele quem leva seu próprio cavalo? Pouco me importava, pois já tinha tomado amor àquele potrinho desengonçado e naqueles primeiros meses, de tão pequeno que era, para onde ia levava-o comigo, no braço.
Para todos, ele era cria de uma égua amansada e por isso era maior o riso. Mas bastou alguns anos passarem para ter enfim minha montaria pronta. A essa altura, ninguém sabia do mistério que ameaçava a linhagem dos cavaleiros puros. Em tantos anos, nem sinal da manada selvagem. Os potrinhos que nasciam eram mirrados, não serviam para guerra. Enquanto que meu caneludo metamorfoseara-se em um garanhão garboso e reluzente ao qual ninguém conseguia montá-lo se não eu. Era então cavaleiro, mas ninguém dava-me importância pela forma como havia conseguido minha montaria. Até que nova mudança se sucedeu.
Tive outro sonho. Neste a égua branca dizia-me. “Beredir. Tome seu garanhão e leve-o para os rochedos do sul porque a passagem entre o reino dos homens e o reino dos cavalos está selada para sempre, e algum de nós resolvemos ficar, mas agora o bando carece de um senhor.” Tinha nas mãos uma escolha; obedecer à voz onírica devolvendo Caneludo aos seus, a sua família de cavalos selvagens e assim perder um fiel companheiro ao mesmo tempo em que abria também mão de um sonho de infância, ou manter caneludo a meus lado não comparecendo ao encontro. Por fim a consciência foi meu guia. A voz havia me dado era justo que eu a restituísse. Na manhã seguinte avisei a todos que o bando estava próximo, os poucos que acreditaram seguiram comigo até os rochedos sulistas. A voz mais uma vez não havia blefado. Os mais belos e ariscos cavalos do mundo se agrupavam entre as pedras. Suas crinas balançavam ao vento, as patas arranhavam a terra, as narinas chispavam. Mas nenhum tropel diante dos homens, nenhuma debandada repentina. Parecia até que nos aguardavam. Tirei a cela e os arreios de Caneludo, e com o coração esmigalhado deixei que ele se juntasse a sua manada.
Observei admirado vir a seu encontro a mesma égua branca de meu sonho. Reconheceram-se; relincharam e empinaram com alegria acercando-se um ao outro para depois empinarem novamente e balançarem o pescoço. Logo o bando o havia cercado e aquele ritual de reconhecimento se repetiu da parte de cada um deles. Era um belo espetáculo para todos que estavam ali. Mas logo deu o momento de eu ir embora. Com a cela e os arreios nas costas virei-me para seguir resignado. Entretanto, para minha surpresa, não tardou até que Caneludo estivesse a meu lado esbanjando aquela mesma alegria. O olhei espantado. Ele por sua vez saudou-me com suas costumeiras lambidas compridas. Voltei-me para a égua branca. Ela nos fitava. Logo estava diante de nós também. Todo o bando seguiu-lhe o exemplo. E assim, eu, Beredir “O cavaleiro sem cavalo”, acabei levando naquela manhã um bando inteiro de cavalos selvagens para o estábulo do exercito do rei.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O dia da Profecia


Quando eu era pequena já me falavam que esse dia chegaria. Sentia meu coração se comprimir de agonia e o medo deixava-me lívida. Ao menos uma coisa naquela profecia era coerente com a verdade. As pessoas são facilmente corrompidas. Por dinheiro, fraqueza, pelo amor, sim pelo amor também. Mas não por isso, sempre senti que eles falavam a verdade. Sem qualquer razão lógica, eu simplesmente sentia. Não era apenas crendice de fanáticos religiosos. Havia uma gravidade no final daquela afirmação, algo de definitivo que me provocava um tremor e essa certeza. Então pensava nas pessoas, imaginava o tanto de dor e sofrimento que seria trazido ao mundo nesse dia. Então sempre era tomada por uma compaixão profunda que muitas vezes se refletia em dor física. E esse amor sempre me foi como um estigma. Ainda mais nocivo que aquela ameaça iminente. A humanidade aos poucos foi caminhando para seu declínio. Construindo passo a passo a sua ruína. Meu grito não era o bastante. Meu alerta desesperado, um fiasco. Tacharam-me de louca, me forçaram a um tratamento doloroso de descargas elétricas como se fosse eu a doente. Eu, uma das poucas pessoas que tinha os olhos aberto ao que acontecia. Mas com um tempo isso não mais importava. Me mantive a deriva. As pessoas se ofereciam de bom grado a tornar-se hospedeiros de demônios fotossensíveis. E que ironia, meus profetas fanáticos também não se salvaram. Nascia na terra um novo exercito. E os humanos simplesmente se entregavam em troca do alivio. O inferno pelo limbo. Eu não podia deter o destino. Estava escrito. Eu nada podia.
Mas ainda havia aquele amor, a dor. E quando o dia finalmente chegou, quando céu começou a sangrar. Aquele estranho me disse. Era uma alma serena e intocada em meio à profusão de gritos selvagens em aflição, de pessoas em correria desesperada por conta daquele liquido acido que escorria do céu. “O que eu faço?” Eu pensava. “Como lutar contra isso?” Meu corpo se comprimia em espasmos de dor. Eu hiperventilava. Pessoas passavam sangrando por mim. O acido corroia-lhe o corpo e os demônios se agarravam as aquelas almas prolongando-lhe a vida enquanto houvesse naquele recipiente um resquício de carne, enquanto houvesse ainda um abrigo. Sem qualquer piedade, queriam apenas não se dissolverem ao sol. A estridência daqueles gritos quase fazia estourar meus tímpanos, eu os ainda ouso até hoje. Jamais parou de repercutir em meus ouvidos aquela sinfonia infausta.
Porém ele disse: “Seu amor...” E sua voz parecia o repicar de sinos em meio àquela confusão. Meus olhos o fitaram, e quando ele teve assim a minha atenção, completou dizendo: - Essa sempre foi à única salvação possível. Nova luz pareceu raiar no céu quando ele me disse isso. Uma luz límpida e não rubra como a que outrora eu via. Então meu ser se tomou de leveza. Toda a agonia, toda aquela dor deu lugar a beatitude que me vinha como consolo. Finalmente eu havia entendido. Imediatamente consegui entender o que aqueles gritos me pediam. Comecei a cerrar as portas de prédios que poderiam servir de abrigo, quebrar vidraças, desforrar telados. Muitos iguais a mim começaram a seguir o exemplo. Trabalhamos incansáveis até que não houvesse mais abrigo na terra. O dia da salvação havia chegado.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cinderela estrangulada




E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...
Lord Byron


A noite cai lentamente cobrindo o mundo de sombras. O perfil imponente dos prédios é agora manto de treva que retalha o céu, salpicado de pontos luminosos ofuscantes, de tão fria consistência. À noite trás o alivio, é mais um dia de escravidão que se encerra. Arrasta seu corpo cansado pelas ruas da cidade. As mãos doloridas de empunhar vassoura e esfregão. Vai sonhando com a liberdade. Com o dia em que não precisaria mais de fazer faxina na casa de patrão sovina e explorador. Suspira de pensar como seria bom se um dia a salvação caísse do céu. E se tivesse belos olhos e uma graninha no banco seria ainda melhor. Seu passo a guia pelas ruas do subúrbio da cidade. O pé pequeno desvia a tempo de uma poça d água salvando de estragar o sapatinho de couro legitimo que herdara da patroa. Que pés pequenos e graciosos ela tinha a caminhar distraidamente arrastando-se rua acima. Enquanto a pequena diarista avança as ruas do seu subúrbio sonhando em escapar daquela sina, uma sombra se esgueira pelos becos seguindo seu perfil meio que encantado. Viu o pezinho pequeno apertado no sapato de couro gasto e a visão lhe aflorou uma gana assassina. Possuía uma paixão ardente por corpos pequenos. Adorava sentir como ossos frágeis podiam ser simplesmente esmigalhados. Deleitava-se ao experimentar o poder de ter se desfazendo entre os dedos uma carne quente e macia, de ouvir o som das fibras do tecido ósseo se esfarelando. Enquanto a perseguia uma sede crescia dentro dele e urgia em ser aplacada.
A surpreendeu em uma esquina. A excitação dilatava-lhe as pupilas. O peito arfava. O mundo estalava e se dissolvia em sensações de êxtase enquanto apertava-lhe aquele frágil pescoço que mais parecia osso de galinha sobre a pressão descomunal de seus dedos. A pequena diarista surpreendida, não teve chance se quer de gritar ou balbuciar derradeira suplica enquanto se via sendo erguida e comprimida contra uma parede por uma mão que esmagava-lhe o pescoço. Seu corpo esperneou ligeiramente. Suas mãos se estenderam até o punho algoz que lhe oprimia. Suas unhas ainda cravaram-se na carne latente do esforço que fazia. O pequeno sapatinho lhe escorregou dos pés. Um único suspiro assinalou-lhe a salvação para a vida de escravidão que lhe afligia.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida de boneca quebrada

A colocaram na vitrine, assim ninguém percebia que estava quebrada. Veio com defeito de fábrica. Uma perna solta. Mas na vitrine ninguém percebia, e ainda servia para atrair compradores. Dali ela via o mundo, os passantes apressados, os olhares compridos dos pequeninos. Às vezes sorria, quase sempre resolvia. Eles entravam. “Eu quero aquele” e apontava o dedo diminuto em sua direção. O contentamento fazia bater seu coração de plástico. “Aquela não serve, veio com defeito” “Ah!” Mas não fazia diferença. Sempre escolhia outra e o contentamento era o mesmo. Se tivesse glândulas lacrimais a boneca choraria. Polimérico sintético era um material frio, e ainda por cima durava muito poluindo o mundo. Não sabia para quê durar tanto se ainda tinha vindo com defeito. E de fato, estava ali desde muito tempo. Acabava vendo todos irem embora um dia. Mas não dava para sentir saudade. Os passantes passavam apressados. Aprendeu que tudo passava. Menos ela.
E até o belo astronauta passou. Era feito daquele mesmo material que ela, porém lhe parecia que tinha sido de poeira das estrelas. Tinha aquele olhar sonhador de quem tinha contemplado o céu de perto. Era mesmo um lunático, ela sabia. Nunca havia saído antes da fábrica de bonecos. Para ele nunca importou aquela perna quebrada. Quando a viu lhe lançou aquele mesmo olhar sonhador, e lhe chamou de princesas das galáxias. Fazia de tudo para arrancar-lhe risadas. Saía de sua caixa à noite para ir visitá-la. Cantava trovas de amor. Da princesa, o astronauta tornou-se menestrel. Mas também aquela felicidade durou pouco, logo encontrou comprador. E o inevitável aconteceu. Desde então o coração de plástico também tomou defeito. Mas ela sabia que tinha sido bem feito, desde o principio fora impossível aquele amor, não deveria era ter se permitido se iludir. Romance de loja de brinquedos não pode se consumar. Mesmo que o destino os unisse no mesmo lar, os seus sacos de brinquedos não seriam os mesmos. E um amor alimentado por encontros furtivos era a coisa mais sofrida e perigosa de se concretizar. Ainda por cima era quebrada, não havia nenhuma chance de alguém lhe comprar. O sofrimento foi merecido. Aprendeu que era perigoso se enganar. Se vida de brinquedo não é fácil, imagina de boneca quebrada.
Mais um dia, com efeito. O dono olha o rendimento satisfeito. Sorri para sua boneca quebrada. Tão bonita, mas com defeito. Ao menos para alguma coisa servia. Apaga as luzes e fecha as portas. Escuro, solidão e silêncio. Até outro dia que será daquele mesmo jeito. Enquanto que uma redoma de vidro a separa do mundo. Mas fazer o quê? Ninguém quer uma boneca que veio com defeito.

sábado, 7 de agosto de 2010

Beijos e Sangue



Beijos e sangue é mais uma das iniciativas da escritora Jossi Borges  juntamente com Rebis Kramrisch em reunir autores brasileiros que compartilham uma paixão em comum; a literatura fantástica. Mais uma vez o trabalho obtém resultados primorosos com a reunião de contos envolventes, onde o sobrenatural se mescla com um tom especial de romantismo, uma combinação que faz o nosso coração bater mais forte a cada folhear de página seguinte. Uma reunião onde o talento e a criatividade estão presentes dando uma coloração nova aos mitos, abrindo as fronteiras do imaginário, empregando consistência aos sonhos, tornando-se sem dúvida uma produção capaz de levar a magia em sua melhor face ao cotidiano do leitor. Para aqueles que acha que não estou falando a verdade, lá vai um resumo de cada conto:


BERONIQUE

O Adeus: Em um mundo intermediario as beiras do inferno, povoado por infernais e arcanjos caidos, uma jovem morta prematuramente não consegue esquecer o desejo de voltar à vida, até que por amor um arcanjo caído resolve ajudá-la.

Encontro inusitado: Uma jovem estudante de intercambio leva para casa um misterioso objeto que acabara encontrando por acaso, quando o dono desse objeto resolve resgatá-lo ela acaba vivendo uma situação arrebatadora.



CADU LIMA SANTOS

Jocasta a dama da noite: Um rapaz boêmio tem um encontro com uma dama fantasma que mudará sua conduta para com a mulher que ama.

CELLY MONTEIRO

Comandante John: O amor impossível entre uma sereia e um homem do mar resulta em um último e desesperado ato de renuncia.

Lampejo: O esforço de um vampiro para agradar sua protegida humana e assim devolver a paz ao próprio coração.

GEORGETTE SILEN

O selo vermelho: A armadilha de um vampiro contra sua antiga amante e seu rival.

O Sétimo: Uma jovem toma uma decisão derradeira diante da maldição que assola seu noivo e a impede de ser feliz.

JOSSI BORGES

Luar Florentino: Um homem da Florência ganha o coração da filha, quando se sente arrendado pelo charme sedutor da mãe e acaba se colocando inadvertidamente entre mãe e filha sem poder imaginar o que o instinto maternal de uma mulher tão misteriosa pode fazer.

Segredos Noturnos: Um vampiro se vê fascinado por uma criatura que compartilha o amor pela noite assim como ele.

M. BLANNCO

Travessia: Enquanto que é perseguida por uma hoste cruel e seu corpo consumido pela peste uma mulher se esforça para preservar de profanadores valiosos conhecimentos entregues a seu povo por uma raça superior, o auxilio lhe vem como um alento ao mesmo tempo em que marca um encontro que resultará em dor e uma longa espera por um reencontro.

PRISCILA MENDES DE ALCÂNTARA

Escuridão: Uma adolescente filha de uma ninfa faz descobertas sobre sua natureza e paternidade ao tempo que tem o destino selado definitivamente quando é reclamada por um demônio.

REBIS KRAMRISCH

O Teatro Mágico: Em um mundo de feitiços e conflitos uma jovem maga utiliza de sua mente analítica e de vantagens afetivas para devolver a paz ao coração de um homem atormentado pelo peso dos próprios atos.

T. G. LIRA

Ar de Evasão: Um encantamento mal-sucedido acaba aprisionando uma jovem em um ciclo de teletransportes involuntários enquanto sua vida se torna uma zona a sua única companhia e um fantasma preso a terra por assuntos mal resolvidos.

YANE FARIA

Entre a cruz e a espada: Em um planeta distante com um céu adornado por sessenta luas uma jovem conta com a ajuda de seu prometido e companheiro de aventuras para se libertar de leis sociais opressoras e um dom divino que se apresenta a ela como uma maldição.

Sem restos de duvidas uma antologia de causar tremor e suspiros...

R$ 32,68

Tema: Literatura Nacional,

Número de páginas: 134

Peso: 224 gramas

Edição: 1(2010)

Disponível no site:






sábado, 24 de julho de 2010

Reminiscências [Fragmento]

Um sapatinho apertava um pé minúsculo que corria freneticamente, parava para em seguida desempenhar a mesma corrida frenética. Uma saia azul esvoaçava com o movimento, completando uma vestimenta repleta de panos. Uma moça misteriosa corria de maneira selvagem por um caminho de pedras que seguia em desfiladeiro. Sua expressa cabeleira ondulava com o vento e o movimento lembrava o tremular de uma bandeira negra. O ar a sua volta estava turvado por uma névoa que vinha da praia mais abaixo. Com grande facilidade ela cruzou o caminho íngreme de pedras escuras e limosas e desceu até a praia. Lá começou a catar os presentes nacarados que o mar deixava na areia. Escolhia dentre todas as maiores e mais rosadas conchas para abrigá-las no bolso improvisado com a dobra da saia. Seguiu assim até dar com uma piscina natural formada pela água do mar represada pelo encontro de algumas pedras. A piscina era verde e refletia cristalina, de uma beleza irresistível a jovem. Chegou-se a ela agachando-se na margem de forma a quase molhar toda a barra da saia. De dentro do bolso improvisado retirou umas das maiores e mais perfeita concha e empenhou-se a lavá-las na superfície cristalina. Assustando com o encrespar da água, alguns peixinhos que sobreviviam naquele lugar tão limitado perto da imensidão do mar. Entretida com o movimento dos bichinhos ela parou o que fazia só para observar aquelas criaturas prateadas de olhos graúdos, tão ariscos quanto ela. Como eu sabia daquilo não poderia dizer, o fato é que era me dado a entender. Quando a superfície do lago voltou a sua forma lisa, o reflexo no espelho d’água se tornou mais nítido, foi então que eu pude reconhecer algo de mim naquela moça. Os olhos que fitavam distraídos a superfície do laguinho eram os meus, apesar de todo o resto da minha aparência estar bem mudada, talvez pela singularidade das roupas e do cabelo.
– Eles não estão interessados, mas eu estou. Uma voz de repente se fazia ser ouvida. Fomos arrebatadas daquela curiosa contemplação por alguém que se chegava a seu lado. A moça que se parecia tanto comigo, se levantou abruptamente para encarar o recém-chegado com o mesmo interesse que devotava aos peixinhos miúdos. 
- O que disse? Ela perguntou, com expressão séria. Uma onda de reconhecimento invadiu o ambiente, tinha certeza que ela conhecia o desconhecido alto e loiro que a fitava, com olhos mais azuis que o próprio céu. 
- As delicadas conchas que tens entre as mãos, que ofertava distraída aos peixinhos, eu a quero. Ele explicou. A que mais lhe agradar terá que ser minha. O rapaz tinha um sorriso nos lábios cheios de uma sedução totalmente direcionada a moça.
Esta, por sua vez, desviou o rosto. – Vocês comerciantes não teriam produto melhor de negocio? Ou seriam assim tão aficionados ao que fazem que mesmo algo sem valor que escolhi para mim querem agora barganhar? Pelo o seu tom de voz despreocupado dava-se para ver que a jovem nada fazia se não um gracejo com o motivo de desafiar o rapaz. 
O rapaz não perdeu a oportunidade para lançar uma nova investida contra a resistência que a menina fazia a seu charme. – Quem disse que não tem valor, se é algo seu, agora para mim é um tesouro também. 
- Tal qual aqueles que trouxestes do mar? A moça tornou-se enfim curiosa.
- Não, ali só tem ouro e prata. Jóias frias e com pouco significado. Essa concha que tens nas mãos para mim é muito mais valiosa. Queres negociar? 
- Não. Já que é de tanto valor prefiro guardar comigo tal tesouro. A moça respondeu. Os olhos do rapaz brilharam de contentamento frente à reação da jovem, pareciam ferver de entusiasmo quando ele começou a negociar. – Mas esse teu tesouro só terás valor comigo. A jovem levantou os ombros, indiferente. - Dou-lhe uma lembrança eterna por ele que marcará com algo bom todas as suas vidas, ou mesmo saciarei qualquer curiosidade tua sobre os mistérios do mundo, claro que valendo apenas uma pergunta. Ele tentou barganhar. 
- Não há moeda melhor de cambio para vocês comerciantes, que algo que não poderiam trocar? Brincou a jovem. – Se negocio é porque disponho. O Jovem afirmou.
Curiosa, a moça arqueou a sombracelha direita. Os olhos do rapaz brilharam, ela estava prestes a cair, era muito fácil.
- Quem és tu afinal? Caira como um pato.
- Sou um negociador. Ele disse estendendo a mão junto com um sorriso de vitória. A moça rebateu o olhar com incredulidade.
- Eu disse que só responderia apena uma pergunta. O rapaz justificou-se. 
- És um enganador. A moça protestou mostrando sorriso. – Desse fato eu já sei.
- Então não desperdiçasse sua chance com algo tão fácil. Ele sorriu ainda de mão estendida. Com um sorriso a jovem esticou a mão, ficou algum tempo com os dedos dobrados em cima da palma da mão do rapaz, enquanto os dois se olhavam silenciosos, experimentando o momento de primeiro contato de pele.
Mas um chamado ao longe a fez sobressaltar-se. 
- Chamam-me. Ela justificou, largando na mão do jovem a concha rósea que tinha presa entre os dedos.
- Então é mesmo Catarina o seu nome? Ele perguntou. Ela apenas assentiu, antes de sumir rapidamente pelo mesmo caminho.

terça-feira, 20 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Aberta seleção de contos para antologia sobrenatural


Beijos e Sangue será a nova antologia de contos sobrenaturais organizada pela escritora Jossi Borges. A antologia envolverá contos que englobe a tema: vampiros, lobisomens e/ou outros seres fantásticos (sereias, ninfas, duendes, gárgulas e afins). Preferencialmente, com algum toque de romantismo, embora esse item não seja imprescindível. Os escritores interessados devem enviar seus contos para avaliação nos seguintes emails:

jossiborges@gmail.com  ou my.nation.underground@gmail.com

Mais informações na comunidade: Escritores do Sobrenatural

quinta-feira, 10 de junho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um conto da Fantasista no JC



Semana passada um amigo publicou um dos meus contos em sua coluna no “Jornal da Cidade” o JC, um conceituado jornal daqui de Aracaju. Disponível também na página virtual do jornal:

 

Sua coluna é uma das minhas preferidas. Acabei recebendo muitas dicas de quem entende do assunto. Foi uma ótima experiência. Obrigada Osmário.



quinta-feira, 20 de maio de 2010

Regresso - Um fragmento mais meu do que todos os outros

O caminho de casa tem cheiro de amêndoas. Um farfalhar ruidoso de bicho fugindo, folhas rugindo, passos morosos e pneus apressados. Nada como caminhar um pouco por um volume único de “O Senhor dos Anéis” e outro de “A Dama das Camélias” seguindo uma trilha guarnecida de autótrofos. É bom estar longe de um ambiente fechado, trepidante e abafado, que enquadra o mundo com suas janelas reduzindo tudo a uma seqüência de fleshs de imagens. No fundo, o gosto, leva um pouco de liberdade. Salpicado daquele jeito de noticias boas e ruins. A tepidez do sol emprega nova cor ao meu rosto. No futuro, possivelmente pintinhas novas acrescentadas à constelação. Já não me importo com os olhares curiosos nem os rebato com hostilidade. A meu lado tremula a superfície espelhada de um rio poluído. Confidente de segredos obscuros de toda uma população. Ainda assim tão bonito. Adornado pelo perfil intricado das Rhizophoras, Laguncularias, Avicennias e dos Conocarpus. As suas margens se escondem alguns batráquios, que só preferem chiar à noite. Incita minha imaginação tentar descobrir o que mais se abriga naquele ambiente úmido, misterioso, protegidos por aquele sombreado refrescado e tão fértil. Enquanto caminho todos os cheiros se apresentam com estranha nitidez. Ainda mais expressivos que qualquer som ou qualquer imagem. Em algum momento silvestre; levemente almiscarado. Ou até mesmo fétido, ácido, nauseantemente gorduroso... Porém, a cada instante o açoite do vento me traz de novo aquele cheiro doce de amêndoas frescas, maduras. Caminho sem nenhuma pressa enquanto que para mim mais um ciclo se fecha. Lá se vai mais uma manhã de inutilidade. Mas não me importa o cansaço, o calor que empapam as roupas e faz latejar a cabeça; o caminho de casa tem cheiro de amêndoas [...]

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Heitor

Imagem encontrada na web
Há muito que não via pai, nem mãe, nem família nenhuma. A família de um guerreiro são os companheiros de batalha. Os irmãos vão caindo juntos com os inimigos, nem sempre com sepultura. Seus pertences sujeitos a pilhagem. O corpo; alimento para as aves. Os anos correm como por milagre; sem cama quente, sem comida decente. O calor humano se manifesta no campo e vai se dissipando suplantado pela lembrança das feridas, ou então avivado no ventre escuro dos abutres.
Quantas famílias seu braço pusera em segurança mesmo banhado de sangue? Quantos homens deu liberdade batendo-se com o inimigo como se fosse fera? E agora resta só o silêncio. O fim era frio, turvo, e solitário como o fundo do oceano. Não havia nenhuma gloria em perecer em um campo de batalha distante dos olhos daqueles por quem lutou. Imerso em total anonimato. Tão distante mesmo da memória daquela que lhe gerou. Sem um rosto conhecido. Sem uma palavra de conforto. Cercado de inimigos. Sentindo que era só mais um homem entre tantos. Sem nem mesmo pertencer mais a um lado do campo de batalha. Seus feitos se dissipam naquela aragem, em instantes não será mais nada. Seu braço forte encontrou imponente digno e agora o silêncio é sua mortalha. As aves desempenham um vôo solene, apenas espreitam pacientemente o nefasto momento de se regalarem-se de sua carne. A fumaça ao longe não vem de pira funerária, é apenas marca daquele novo embate.
Triste engano que se descobre apenas no fim; o único inimigo sempre foi à morte.
Seu último banho é de sangue. O vento vai levando aquele odor acre, indo se misturar com as outras mostras de barbaridade. O ceifeiro cruel lhe reduz a cacos pouco antes que tudo acabe como uma forma de castigo por bater-se com outros homens. Cerra lentamente os olhos, torcendo que aquela tortura não se prolongue. Seus ouvidos ainda ouvem com normalidade. Passos se aproximam para romper o silêncio de forma ultrajante. Prepara-se para ter o momento de morte violado. Que levem tudo; mesmo sua bela armadura agora de nada lhe serve mais.
Mas que surpresa! Mãos delicadas acolhem sua cabeça depositando-as em superfície macia, morna, perfumada. Sente carícias ternas em seu cabelo sujo de sangue. Sente saudade daquele calor emanado pela a vida. Gotas mornas gotejam em seu rosto. Por incrível que pareça não é sangue. Aquele cheiro lembra sua mãe que um dia esquecera para se tornar homem. Traz lembranças de braços femininos no qual se refugiou nos momentos de cansaço daquele terror da guerra. Abre os olhos para vislumbrar a Valquíria bondosa que vem acompanhá-lo ao fim. Seus olhos fitam uma desconhecida. Um rosto sem qualquer significado. Não imagina que em algum momento foi mesmo herói, que seu nome por alguém é lembrado. A morte afasta qualquer alento. Naquele colo finalmente expira. Vai embora sem deixar qualquer legado.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Beijos e Névoas - Antologia de Contos Sobrenaturais



Segunda Antologia de contos sobrenaturais.

"A IDEIA de uma antologia de contos sobrenaturais e fantásticos, com toques de romantismo, deu realmente muito certo. Dois meses após o lançamento da primeira antologia em e-book, Beijos & Sombras, agora estão de novo reunidos alguns dos autores do primeiro livro, e duas novas autoras e também uma HQ inédita, que Rebis nos presenteia, um verdadeiro poema em quadrinhos, plena de lirismo e sentimentos
Celly Monteiro é uma exímia contista de fantasia. Um aroma de conto de fadas romântico, com toques bem dosados de lendas e encantamentos celtas, se desprende de suas linhas... e quando chegamos ao fim, queremos mais!
No conto de Didi, um arrepio na espinha... Suspense e um toque de terror que nos remete aos mistérios de Allan Poe e Conan Doyle... Um conto repleto de suspense, escrito como os melhores do gênero.
Jossi Borges, com seu conto de suspense e sobrenatural, tece uma trama onde o amor é sugerido de forma discreta, mas plena.
Com Mia Hertz, o mesmo erotismo em doses altas, para nos deixar febris e mexer com nossa imaginação... Seus contos, com homens-lobos e metamorfos atiçados por hormônios e feromônios, são uma incursão em sonhos de luxúria.
Rebis Kramrisch (Snake Eye’s) traz dois contos e uma história em quadrinhos, cheios de uma magia e um encantamento que brilham e cintilam como as estrelas em uma noite de Halloween. Fantasia e beleza, que vai prender você, leitor.
Telyka Madelynne é romântica e realista ao mesmo tempo, e mostra em Mulher de Fases, uma história onde sentimos toda a selvagem beleza desse estilo, mesclando lendas amazônicas, paixões arrebatadas e um toque surpreendente de sobrenatural.
Enfim, você está preparado para penetrar no mundo mágico do amor sobrenatural e da fantasia? Então prepare-se, pois esta nova antologia vai deixar você com o coração acelerado!" 

Texto de Jossi Borges

Para adquirir a obra acesse:  http://amorelivros.justtech.com.br/

domingo, 4 de abril de 2010

A Moça Da Encruzilhada - Conto de Yane Monteiro

A rua onde moravámos era cortada por outra, formando uma espécie de cruz torta. E essa cruz se localizava a mais ou menos sessenta metros de nossa casa. Exatamente nessa esquina ocorreu um acidente com uma vítima, uma moça feirante que caiu de cima de um caminhão pau-de-arara e quebrou o pescoço, vindo a falecer no local. O episódio não teria passado de uma triste tragédia se algum tempo depois ele não viesse a tona com direito a pavorosas passagens macabras...

Para ler o resto do conto acesse o link:

 http://meianoiteexsecrabile.blogspot.com/

quinta-feira, 11 de março de 2010

Pausa para a vida real - Parte II


N. A.



Quando meus contos já estavam formando filas, bonitinhos, esperando ansiosos para sair da gaveta fria e empoeirada e tomar um lugar decente em sua nova morada, eis que surge algo para atrapalhar... Aí se pudéssemos viver sem pão, só de ilusão! Mas as obrigações existem e há muito vem batendo na porta, gritando no ouvido sem qualquer atenção. É chegada a hora de encarar tudo de frente... É isso aí, devo fingir que sou decente me afogando em leituras enfadonhas pra terminar meu TCC...


Pois é, quando eu achava que já estava finalmente livre, olha lá mais obrigações acadêmicas.

As responsabilidades me arrebatam de volta para o mundo frio, monocromático e entediante de pessoas de carne e osso e realidades assustadoras que incluem bancas examinadoras. rs

As novas postagens demorarão um pouco, mas peço que os visitantes fiquem a vontade para xeretar o que quiserem. Leiam, deixem recados, se for possível, porque estarei sempre por aqui para responder. E quem sabe, em breve, eu esteja de volta definitivamente.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O estranho do vale sombrio


"Aqueles que se dizem senhores do próprio destino não passam de fantoches enganados."

As primeiras pedras do deserto doíam nos meus pés descalços como se eu estivesse pisando em brasas vivas. O sol de rachar batia em minha pele branquinha e me torturava. Eu não fazia ideia de que era tão difícil voltar. Aquele mundo me parecia tão absurdo, se eu olhasse pra trás ainda veria a planície coberta de uma vegetação amarelada, úmida e macia que há pouco eu tinha pisado, e na milha seguinte era como se o inferno me saldasse numa atmosfera quente, pesada e sufocante. Só havia alguns minutos que caminhava tentando encontrar o caminho de volta, mas parecia que uma semana tinha transcorrido. Exausta, cai de joelhos. Não sei quanto tempo fiquei ali sem forças para levantar, com meu corpo pesado e meus pulmões doendo do esforço de respirar aquele ar carregado. Sei apenas que depois de um tempo uma sombra passou por mim. Levantei o olhar, mas não havia ninguém. Mais ao longe, de algum lugar desconhecido, a voz do Cura me chamava. Depois disso o vento soprou fresco em meus cabelos, folhas farfalharam em algum lugar e eu podia ouvir pássaros cantando uma melodia misteriosa. Barulhos de passos apressados passaram por mim, voltei apressadamente minha cabeça para acompanhá-los, o mundo todo oscilou com o movimento, então eu cai com a cabeça na terra quente enquanto tudo a minha volta se misturava em um vórtice azul e ocre.
 Aqueles passos eram meus, eu corria sôfrega floresta adentro, deixando um rastro de seda e renda rasgada pelo caminho enquanto que os sapatos e as meias já havia perdido na entrada do bosque. Os galhos fustigavam a pele macia das minhas pernas e dos meus braços pequeninos, as lágrimas nodoavam meu rosto. Eu corria como um bicho selvagem e em alguns segundos eu já estava no antro mais escuro e insondável do vale. Só parei por que tropecei e caí. Tentei me levantar, mas meu pé estava preso em uma raiz. Tentei me desprender, mas a raiz estava enroscada em meu tornozelo parecendo um tentáculo pavoroso, e quanto mais eu puxava mais ela se enroscava em um aperto dolorido. Só então olhei em volta e percebi até onde havia adentrado. Estava cercada de raízes lodosas, gigantescas e assustadoras, iluminadas por uma luminescência verde de aparência espectral que espargia de alguns cantos parecendo olhos vigilantes. Ao dar-me conta de onde havia parado, senti medo. Uma espécie de desespero me fez lutar contra o tentáculo que agora puxava parecendo querer carregar-me a um daqueles antros enegrecidos que se reversavam dentre os lumes. Foi a custo que consegui libertar meu pé daquele aperto forte. Tentei me levantar, mas escorreguei no chão limoso. Meu pé estava machucado graças a meu esforço pra tentar livrar-me daquele tentáculo. Eu não conseguia andar o quanto mais correr como meu desespero pedia e toda a minha tentativa de fugir dali se resumiu a um patinar de quatro naqueles musgos, em pleno escuro. A minha volta, naquela floresta, era emitido um ressoar rouco e selvagem que aumentava ainda mais o meu pavor. Incapaz e desesperada, só pude chamar por ela. Ela que era o único motivo pelo qual eu havia ido até ali, como um capricho apenas. Chamei por Sorém e chorei debruçada no antro escuro daquela floresta sombria. Fiquei ali por muito tempo. Tanto que quem encontrou-me, encontrou-me a soluçar, molhada de lágrimas e suja do lodo e da terra úmida daquele lugar.
- Por que chora o filhotinho de homem? Depois de algum tempo ouvi de longe aquela indagação vinda de uma voz aveludada. Levantei minha cabeça abruptamente para vê-lo, mas não conseguia divisar nada naquele escuro. A voz continuou a indagar e pareceu-me até um conforto uma voz daquela naquele lugar, naquela situação em que eu estava.
- Estou perdida, não consigo encontrar o caminho de volta. Respondi sentando e enxugando os olhos com as costas do braço.
- Está com medo? O estranho perguntou.
- Não. Respondi incapaz de admitir mesmo em uma situação como aquela. A voz parecia cada vez mais perto.
- Está sim, eu sei, eu sinto. Ele afirmou. – Está com medo da floresta. Acrescentou. – Onde está a sua mãe?
- Ela me abandonou, foi embora e me deixou sozinha. Respondi não conseguindo reter a contração de novos soluços.
- Coitadinho do filhotinho de homem. Ele comentou finalmente deixando-se ver enquanto sorria um riso escarnecido. Era um homem, alto e resplandecente, emanando luz do próprio corpo. Mesmo ainda não tendo vivido muito eu já sabia, só de olhá-lo, que ele era o homem mais belo que eu poderia conhecer em toda minha vida.
- Não devia ter vindo a um lugar como esse. Ele comentou chegando mais perto.
- Ela já tinha me dito isso. Comentei perdida em lembranças.
- Sua mãe?
- Sim. Respondi. "Aquela que eu tinha como mãe ao menos. Sorém, minha irmã mais velha que me criara e me amava como mais ninguém, mas isso só até alguns dias atrás." Meus pensamentos estavam contaminados de rancor.
- Não vai puni-la desse jeito, ela não te quer mais. Ele disse agachando-se perto de mim, com o rosto na altura do meu.
- Eu sei. Mas agora quero ir embora. Respondi.
- Está arrependida de ter vindo aqui não é filhotinho?
- Sim, ela não se importa se estou aqui, não adianta. Estranhamente em sua presença eu expressava meus pensamentos abertamente.
- Sim, ela não te quer, mas você veio ao lugar certo, aqui todos te querem.
Quando ele disse aquilo olhei em volta, aquelas luzes me pareceram mais do que nuca com olhos, olhos que me espreitavam cobiçosos. Por um momento apurei minha visão e divisei mãos ossudas penderam de um corpo totalmente escondido pelas trevas, apenas os olhos luziam, um brilho fosco e verde que faziam meu estômago se contrair de medo. Podia ter sido apenas minha imaginação incitada pelo meu medo, mas não quis tirar a prova, balancei a cabeça nervosamente para ele e disse em tom choroso e rebelde:
- Não, eu quero sair daqui. Fui firme apesar da nova ameaça das lágrimas. Ele, em resposta, sorriu e por um instante me esqueci do medo e do esforço de reprimir as lágrimas para apenas me perder em admirada contemplação de sua imagem. Sua pele pálida fosforescia em meio ao breu podendo apenas tornar-se visível em meio às trevas, no entanto seus olhos resplandeciam luz vigorosamente como dois diamantes reluzentes, duas estrelas ou mesmo dois archotes de brilho prateado, iluminando o foco de sua direção. E enquanto sorria, simplesmente não podia compreender o que ele era, se belo, divino, ou a criação de um sonho meu; um devaneio.
- Sua vontade não importa aqui. Ele disse me despertado para realidade.
- Você já pertence a essa floresta, não te deixarão sair daqui, jamais retornará para o mundo que conhece. Acrescentou com um ar sério estarrecedor. Nada pude fazer se não chorar copiosamente, esquecendo da vergonha de me deixar ser flagrada chorando, estava arrependida de ter ido ali apenas para punir Sorém, mas nada mais poderia ser feito depois do erro cometido. No entanto eu o ouvi dizer; - A não ser... Parou de propósito esperando ver minha reação. Assim como ele queria perguntei, incapaz de me conter. – A não ser o quê? levantei o olhar até ele, esperançosa.
- Minha voz é maior que a de todos aqui, se eu a quiser para mim eles não brigarão por ti.
Eu abracei meu joelhos semi-escondendo meu rosto. – Não quero ir com você também. Disse com firmeza.
- Quanta resolução para um filhotinho desse tamanho! Ele comentou, sua voz aveludada parecia um afago naquele lugar frio e escuro. – Mas, sinto afirmar que você já é minha. Sussurrou para mim como se me contasse um segredo. Sua expressão era impassível. Abaixei meu rosto escondendo-o novamente, tentando entender o que aquilo poderia significar. Com gestos delicados ele me fez erguê-lo novamente para que eu pudesse encará-lo. Seu toque era misteriosamente quente e reconfortante.
- Posso ver a curiosidade que se esconde atrás desses olhinhos. Ele comentou enquanto fitava-me de maneira perscrutadora. – Você quer conhecer o mundo e todos os mistérios que há. Afirmou. Eu não respondi, mas era verdade. Como ele sabia?
- Eu sou a porta aberta para todos os mistérios. Revelou com expressão séria, e aquela era uma coisa que eu já sabia, olhando para ele não poderia nunca duvidar.
- Quero sair daqui. Disse, pensando em como poderia fazê-lo, não me vinha nada na cabeça.
Ele se levantou, passou por mim olhando distraído tudo a sua volta, e voltando seu olhar novamente para mim, por cima do ombro, negociou.
- Poderá vir comigo agora e se tornar minha filha, compartilhar de minha herança, ou voltar para seu mundo, sendo que mais tarde se tornarás minha esposa.
Eu nada pude dizer, estava confusa e nada compreendia do que se passava ali, então ele sorriu novamente, chegando mais perto, baixando-se para me olhar nos olhos novamente e novamente esqueci que tinha medo e que estava perdida. Mas ele ainda esperava uma resposta.
- Meu pé está machucado. Respondi. Com outro sorriso misterioso ele afirmou que sabia, me ergueu no colo e seguiu, refazendo comigo em seus braços o mesmo caminho que eu tinha percorrido naquela manhã, com minha alma imersa em magoa e revolta.
Seus braços eram quentes e confortáveis. Suspirando como resquícios de um último soluço me encolhi, aconchegando-me nele enquanto era levada para a borda da floresta.
Abri os olhos indiferente ao sol que me cegava, a surpresa estava evidente em meu semblante. Como eu pudera esquecer, eu já o tinha visto antes, eu já conhecia Vaska!!!

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^