quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A bruxa Lazanee



No limiar entre o mundo dos vivos e dos mortos existe uma fina faixa de realidade que transcende a lógica dos dois mundos. Passado, presente e futuro se misturam num ciclo sem fim imune a qualquer interferência. É o melhor lugar pra se rever os que já se foram.

Maldição! Um grito de blasfêmia escapou da garganta da bruxa, debruçada em um fosso, esperando se desenhar nas trevas a mensagem dos deuses. O som ecoou no vazio, com o chão a quilômetros de distância, espargindo no vácuo um ruído macabro e raivoso.
“- A que me servem estes dons se me falham quando mais preciso?” Remoia em pensamentos. Mas, apesar de consternada, jamais deixava perder a expressão de indiferença sempre estampada no semblante. Afastou-se do abismo, desprendendo um profundo suspiro. “- Será que eu jamais voltarei ao vigor de outrora?” - Como resposta dos deuses para não deixá-la cair inteiramente no desânimo, a bruxa descobriu na quietude um som familiar, a mais ninguém perceptível.
Jamais era pega de surpresas em sua morada, porque sempre fora capaz de captar, mesmo a milhas de distância, os sons do que acontecia ao seu entorno. Agora, por exemplo, podia ouvir barulhos de passos, pesados e meio que apressados. Talvez um homem robusto se dirigia a sua gruta. Ou alguém carregando mais um enfermo para entregar aos cuidados de suas beberagens poderosas.
Deixou a grota úmida e limosa para dar num caminho apertado, assinalado por cristais de luz no teto incrustado nas rochas. Depois de um tempo, esse caminho mergulhava no clarão de fora. A luz feriu seus olhos claríssimos de toupeira. Ela teve que protegê-los com a mão para suportar a dor de enfrenta-la depois de tanto tempo mergulhada na penumbra de sua morada.
Só quando o viandante cruzou a entrada da gruta ela pôde vê-lo. Só então a bruxa se sentiu realmente intrigada.
“- Diabos! Por que meus dons me abandonaram?” Pensou, se esforçando para disfarçar o espanto. A sua frente estava o garoto discípulo do mestre Átila e trazia nos braços, desfalecida, ninguém menos que a filha do seu antigo mestre. A criança que deveria ser dela, se ela tivesse jogado com os truques certos.
- Precisa me ajudar! - Implorou o rapaz, com expressão visivelmente perturbada.
Lazanee não deixou de sorrir diante do frágil controle emocional do rapaz, mas perdeu toda sua treinada impassibilidade ao chegar mais perto e perceber o estado da moça. Suas roupas estavam empapadas de suor, mas sua pele estava fria como o mármore. Seus olhos tinham as órbitas em reviravolta, espargindo uma luminescência azulada de brilho trêmulo. Seus dedos hirtos se contraiam a todo instante e sua boca entreabria e fechava-se, exprimindo sons inaudíveis.
Lazanee guiou-o até uma câmara espaçosa e agradável, iluminada por cristais de luz no teto e aquecida por uma pequena fogueira ao centro. Indicou-lhe a existência de um leito macio ao canto, onde ele a depositou.
- Encontrei-a assim, caída já faz algum tempo, não sabia o que fazer... - Explicou o rapaz. A preocupação afobava-lhe a voz.
- Está em transe. - Esclareceu a bruxa. - Nesse momento sua alma transita em outro mundo:
- Pode ajudá-la? - O ar sério da bruxa fez o rapaz perguntar. A mulher suspirou pronta para admitir:
- Temo que não possa fazer muito, não estou tão bem quanto antes. - Era melhor ser sincera à alimentar falsas esperanças.
- Mas, então?
- Ela ficou muito tempo em outro plano, pode não saber como voltar e a cada segundo adiante são minadas suas forças.
- O que quer dizer?! Que ela morrerá?!
- Provavelmente.
- Temos que tentar acordá-la!
A mulher balançou a cabeça desanimada. - Não será tão fácil. - O rapaz começou a passear pelo aposento nervosamente, para lá e para cá.
- Tem que fazer alguma coisa! - Esbravejou impaciente.
- Acha que não quero? Ela também me é bastante cara... Mas, parece um estado natural, parece que algo lhe chama para o outro mundo e ela permanece lá por vontade própria.
O rapaz refletiu em silêncio por alguns minutos e então perguntou: - Há alguma chance para eu alcançá-la e então trazê-la de volta?
- Não seria uma tarefa fácil, não sabemos em que lugar do outro mundo seu espírito anda, poderia jamais encontrá-la. Além disso, se sua vontade estiver fraca, poderá não conseguir convencê-la a voltar. Quanto mais tempo se passa no outro plano, mergulhada em lembranças queridas e na companhia de entes amados perdidos, mais se torna difícil se desprender e querer voltar. Isso vale pra você também. - Advertiu, pois sabia que ambos tinham fraquezas que os tornam suscetíveis no outro mundo, afinal, ambos eram órfãos.
- Não se preocupe. - Disse o rapaz resoluto. - Encontrá-la não será tarefa difícil pra mim, vou tentar trazê-la de volta. Jamais vou desistir!
Lazanee concordou, percebendo uma mudança leve nos ventos do destino. Talvez sua sensibilidade não estivesse tão desgastada.
- Lhe darei algo que ajudará a transcender, mas... Isso te deixará por um fio. - Alertou.
- Eu não me importo. - A resposta do rapaz foi rápida. E Lazanee não conseguiu evitar sentir-se comovida, mesmo em meio a sua amargurada inveja. A moça herdara a sorte da mãe para o amor.
A bruxa forrou o chão em volta da fogueira com palha e algodão, alimentou a fogueira com mais lenha até ouvir seu crepitar vigoroso e o calor abrasador envolver todo o aposento.
- Isso manterá seus corpos quentes e iluminará o caminho de volta. - Explicou. Depois pediu pra que o jovem trouxesse o corpo da moça até um dos leitos improvisados. E só então deu-lhe um frasquinho com o filtro da passagem.
Foi com o olhar baixo e um tom desconsertado que o jovem se dirigiu à feiticeira para pedir um último favor.
- Há algo que quero que faça caso eu não consiga... - Pediu em tom humilde. - Quero que enterre nossos corpos juntos. - Toda inquietude que atormentava a feiticeira se desvaneceu desse momento em diante. Talvez nem fosse à volta de seus dons, mas o fato é que agora sabia que não havia o que temer.
- Prometo que farei, mesmo sabendo que não será preciso. Seus corpos estarão juntos muito antes que o fim chegue. A bruxa sorria com ternura ao desprender aquelas palavras.
Uma onda de rubor manchou o rosto do rapaz.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Antes da Alvorada - A luz de um vampiro (Capítulo introdutório)



“E o criador disse: - Andarás pela terra e se alimentarás dos meus filhos, mas só terás até Antes da alvorada. A luz do dia consumirá tua carne e tu te reduzirás ao pó. - E as criaturas ainda assim perduraram, aprendendo com os vermes a fugir da luz, não conheceram a destruição.”
Quem, que por ventura, andando pelas ruas dessa velha cidade, em certo trecho desviasse seu pé na direção onde os ramos de flores dos canteiros beijam as calçadas, de modo à quase roçar o pé do passante. Tomando um caminho onde o bafo úmido das ruas dava lugar a um ar fresco e perfumado. Seguindo sempre em frente, distanciando-se do centro efervescente de pessoas e apertadas por úmidas paredes de pedra. Além, as árvores silenciam o murmurinho irritante da cidade, dando lugar ao farfalhar delicado de suas folhas; filtrando do ar a fumaça seca e sufocante das chaminés das grandes fábricas. Mas se esse mesmo alguém seguisse adiante certamente daria com uma muralha natural de coníferas, sobreposta por uma névoa densa e fresca. E se sua curiosidade o levasse mais além, e por ventura cruzasse a cerração e a floresta de pinheiros; daria com portões imensos e avistaria acima, em uma elevação natural, uma residência de tamanho descomunal. Sombria, Misteriosa. Para não falar das criaturas que a habitam. Porém, se por acaso, em sua loucura ou ingenuidade, se dispusesse a transpor os seus portões, se depararia com mistérios que derrubaria todas as suas crenças, e provavelmente, encontraria o pior e mais inimaginável dos fins.
Nessa mesma residência, havia um amplo aposento, depois do Hall de entrada, ornamentado com um bom gosto e um requinte jamais imaginado. Repleto de obras de artes que, haviam séculos, não fora vistas por olhos humanos. Também possuía adornos de ouro e detalhes de madrepérola nas paredes, cuja arte não se devia a homem algum na face da terra. Tratava-se do salão principal daquela insólita construção
Naquele mesmo aposento uma bela criatura descansava em seu trono. Seus olhos de felino estavam vidrados na incandescência de um lampião dependurado na parede ao lado; uma das únicas luzes que permanecia acesa na silenciosa sala. A luz bruxuleava e a criatura admirava seu fulgor, em um transe místico. Mesmo aquele tão pequeno processo de combustão, exercia em seu admirador um efeito hipnótico. Para ele, nada era mais belo que a luz, uma dádiva divina dada de direito apenas aos homens. Para os vampiros, restara apenas à luz artificial, de beleza igual, porém de potencial limitado.
A criatura se empertigou em seu trono quando a luz, já então débil, se apagou. No seu tom, naturalmente suave de voz, chamou por seu escravo mais fiel; Caco, uma besta semi-humana, que assim como seu nome sugeria tinha uma fealdade assombrosa. Caco veio. Arrastando-se de quatro até a bela criatura, prostrou-se aos seus pés. Com a serenidade de sempre, seu senhor falou em seu timbre aveludado:
- O lampião apagou, acenda-o. – Caco obedeceu. Arrastou-se até o lampião. Desengonçado, pôs-se de pé. Riscou o talo de fósforo com suas mãos desajeitadas, e num estalo devolveu a luz ao lampião, em seguida ao aposento. A Luz de início explodira em seus olhos, então Caco se afastou apavorado para o canto enegrecido do aposento. Seus grandes olhos claros brilharam no escuro, reluzindo claramente seu medo; pavor selvagem de besta noturna. E mesmo quando, a luz atenuando-se, o salão voltou à claridade de outrora, Caco não saiu do seu canto escuro. Ao presenciar aquela reação a bela criatura disse com ar solene.
- Sentes medo da luz por que és criatura das trevas e a ama, curiosamente comigo acontece o contrario, a luz, ao invés de repelir, me atrai como um anjo sedutor de alva cabeleira. Sou escravo de seu fulgor, de sua beleza. A criatura olhou para a pobre besta ao seu lado e continuou. – Não temas o fogo besta horrenda; do fogo advém à luz das estrelas, a qual banha seus olhos à noite. O fogo, que queima tudo com sua pressa, com sua fome urgente, não escolhe aquele que vai devorar. Para ele não há mais fraco ou mais forte. A tudo e a todos o fogo consome sem remorso.
De seu canto Caco grunhiu. Seu senhor então estendeu-lhe a mão para um afago em sua grande cabeça quase despelada. Caco se aproximou afoito e quase feliz, se prostrando ao seu lado como dantes. – Não tenha medo meu fiel Caco, apenas ele. Apenas o fogo está acima de seu senhor.
A criatura de extrema beleza sentada ao trono tinha uma aparência humana, talvez de um desses deuses pagãos, esculpido a cera pela mais hábil mão. Olhos de pupila estreita como a de um felino. O nariz era reto. Uma tez alva como a lua. A boca rosada e sedutora, dotada de belos dentes brilhantes, entre eles, caninos salientes. Alvos dentes eram os seus, de um brilho feroz. Seu corpo era esbelto, de pele macia e pálida, lembrava a de um adolescente. Todo ele era uma forte alusão a juventude eterna. Porém, seu braço firme como aço, sua seriedade indissolúvel e sua frieza espectral, fazia reforçar sua autoridade inquestionável de senhor de sua raça, senhor de seu mundo.
Aquela bela criatura, tão bela era quanto fatalmente mortal. Bem assim o chamavam os que não eram de sua raça; a beleza mortal. Dos seus não recebia outro nome se não 'Dhwan', que em um dialeto obsoleto, era como sua raça lembrava-se de chamar aquele que estava à cima de todos e quem havia lhe dado o sangue da existência.
Além de Caco, naquele castelo, havia centenas de bestas semi-humanas iguais espalhadas pelos cantos enegrecidos da mal iluminada construção, farejando o passo de Dwhan, com seu servilismo grotesco. Pronto a satisfazê-lhe o desejo a qualquer sinal de sua vontade. Porém, seus olhos iluminados de uma eterna vigília, assim como estavam atentos a servir, espreitavam também uma única chance, um mínimo momento de fraqueza onde pudessem cravar-lhe os dentes a suas costas e por um fim àquele ódio eterno.
Dwhan também odiava aquelas criaturas e por isso os fizera seus servos, mantendo sua criação abortada sob seus olhos, a seu eterno dispor. Conhecia sua natureza odiosa e entre o seu desprezo os castigava com sua presença. O medo de sua figura era-lhe uma eterna tortura que lhe empregava. Bastava um olhar seu, para uma delas, acometido de extremo pavor, sucumbirem de ataque cardíaco. Ele não precisava fazer nada, se quer mover um dedo, bastava apenas olhar.
No inicio, Dwhan até que se divertia às vezes fazendo isso. Porém, ora ou outra também se via criando novas bestas como distração. Havia, contudo, algumas centenas de anos que não mais fazia, quem sabe ficara entediado.
Aquela noite mal começara e Dwhan já estava em estado de letargia, embebido na luz do lampião. É que aquela prometia ser uma das mais belas noites de sua imortalidade. Noite de lua azul, de uma claridade quase diurna, as estrelas brilhavam como diamantes. A luz de fora invadia as vidraças, refletindo e tomando os salões e os aposentos como uma festa de musas invasoras, a espalhar sua névoa cintilante a sua volta. A romper com insistência a escuridão tão bem vinda. A aquela claridade prata nem as bestas resistiam. Amantes das estrelas, saiam com seu passo vacilante até fora e embebiam seus olhos a luz da noite. Voltavam a cabeça aos céus, e apenas neste instante podiam experimentar a beatitude dos devotos; eram os filhos do criador se rendendo a uma criação divina.
Dwhan alisava a cabeça de Caco quando uma besta se aproximou. Com seu olhar em terra, incapaz de erguer a cabeça do chão, tentando disfarçar o tremor em seus membros, com uma voz frouxa e rasgada, anunciou a chegada de visitantes.
- Mande-os entrar. Seu senhor ordenou, já esperando aquelas visitas.
A besta deu um sinal ao outro, então uma multidão em passos firmes se adiantou no salão. Havia no mínimo 30 deles. Todos belamente vestidos; botas de um couro escuro e eximiamente curtido, longas capas de veludo com bordado de ouro, luvas finas, gravatas de seda presas por camafeus de madrepérola e âmbar. Todos, sem exceção, possuíam vestimentas de um requinte e bom gosto invejável. Dir-se-ia tratar-se de uma elite de aristocratas, de uma beleza selecionada por todo o mundo.
Uma das criaturas mais belas na face da terra são os vampiros. Misto de homem e fera, herdara o melhor dos atributos dos dois, associado a uma delicadeza que não cabia a nenhum deles. De uma palidez nacarada; de um sorriso sedutor, a entrever dois caninos lisos e alvos como a neve; de um olhar vítreo, de brilho trémulo e melancólico. E suas mãos? Mãos delicadas, de finíssimos dedos, adornados por unhas peroladas, grandes e afiadas. De dorso delicado, porém firme como um tronco de um forte carvalho. Dotados de um donaire nunca visto em nenhuma criatura terrestre. Com toda sua agilidade e graça, os vampiros, podiam até tornar prazeroso, a sua vitima, aquela fatal escolha.
As graciosas criaturas se prostraram com o mesmo respeito bestial diante de seu senhor. Ajoelhados e de olhar preso ao chão, ao chefe do grupo foi dado o beneficio de pronunciar-se...


N. A.


Antes da Alvorada é um dos meus contos vampirescos, conta a história de uma menina que após ter a família exterminada e ser cruelmente torturada por um bando de vampiros é acolhida pelo senhor supremo deles. Clara, a luz referida no subtítulo, acaba se tornando ao mesmo tempo a ventura e a perdição do mórbido e entediado chefão das criaturas sanguinolentas.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
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