terça-feira, 3 de novembro de 2009

Antes da Alvorada - A luz de um vampiro (Capítulo introdutório)



“E o criador disse: - Andarás pela terra e se alimentarás dos meus filhos, mas só terás até Antes da alvorada. A luz do dia consumirá tua carne e tu te reduzirás ao pó. - E as criaturas ainda assim perduraram, aprendendo com os vermes a fugir da luz, não conheceram a destruição.”
Quem, que por ventura, andando pelas ruas dessa velha cidade, em certo trecho desviasse seu pé na direção onde os ramos de flores dos canteiros beijam as calçadas, de modo à quase roçar o pé do passante. Tomando um caminho onde o bafo úmido das ruas dava lugar a um ar fresco e perfumado. Seguindo sempre em frente, distanciando-se do centro efervescente de pessoas e apertadas por úmidas paredes de pedra. Além, as árvores silenciam o murmurinho irritante da cidade, dando lugar ao farfalhar delicado de suas folhas; filtrando do ar a fumaça seca e sufocante das chaminés das grandes fábricas. Mas se esse mesmo alguém seguisse adiante certamente daria com uma muralha natural de coníferas, sobreposta por uma névoa densa e fresca. E se sua curiosidade o levasse mais além, e por ventura cruzasse a cerração e a floresta de pinheiros; daria com portões imensos e avistaria acima, em uma elevação natural, uma residência de tamanho descomunal. Sombria, Misteriosa. Para não falar das criaturas que a habitam. Porém, se por acaso, em sua loucura ou ingenuidade, se dispusesse a transpor os seus portões, se depararia com mistérios que derrubaria todas as suas crenças, e provavelmente, encontraria o pior e mais inimaginável dos fins.
Nessa mesma residência, havia um amplo aposento, depois do Hall de entrada, ornamentado com um bom gosto e um requinte jamais imaginado. Repleto de obras de artes que, haviam séculos, não fora vistas por olhos humanos. Também possuía adornos de ouro e detalhes de madrepérola nas paredes, cuja arte não se devia a homem algum na face da terra. Tratava-se do salão principal daquela insólita construção
Naquele mesmo aposento uma bela criatura descansava em seu trono. Seus olhos de felino estavam vidrados na incandescência de um lampião dependurado na parede ao lado; uma das únicas luzes que permanecia acesa na silenciosa sala. A luz bruxuleava e a criatura admirava seu fulgor, em um transe místico. Mesmo aquele tão pequeno processo de combustão, exercia em seu admirador um efeito hipnótico. Para ele, nada era mais belo que a luz, uma dádiva divina dada de direito apenas aos homens. Para os vampiros, restara apenas à luz artificial, de beleza igual, porém de potencial limitado.
A criatura se empertigou em seu trono quando a luz, já então débil, se apagou. No seu tom, naturalmente suave de voz, chamou por seu escravo mais fiel; Caco, uma besta semi-humana, que assim como seu nome sugeria tinha uma fealdade assombrosa. Caco veio. Arrastando-se de quatro até a bela criatura, prostrou-se aos seus pés. Com a serenidade de sempre, seu senhor falou em seu timbre aveludado:
- O lampião apagou, acenda-o. – Caco obedeceu. Arrastou-se até o lampião. Desengonçado, pôs-se de pé. Riscou o talo de fósforo com suas mãos desajeitadas, e num estalo devolveu a luz ao lampião, em seguida ao aposento. A Luz de início explodira em seus olhos, então Caco se afastou apavorado para o canto enegrecido do aposento. Seus grandes olhos claros brilharam no escuro, reluzindo claramente seu medo; pavor selvagem de besta noturna. E mesmo quando, a luz atenuando-se, o salão voltou à claridade de outrora, Caco não saiu do seu canto escuro. Ao presenciar aquela reação a bela criatura disse com ar solene.
- Sentes medo da luz por que és criatura das trevas e a ama, curiosamente comigo acontece o contrario, a luz, ao invés de repelir, me atrai como um anjo sedutor de alva cabeleira. Sou escravo de seu fulgor, de sua beleza. A criatura olhou para a pobre besta ao seu lado e continuou. – Não temas o fogo besta horrenda; do fogo advém à luz das estrelas, a qual banha seus olhos à noite. O fogo, que queima tudo com sua pressa, com sua fome urgente, não escolhe aquele que vai devorar. Para ele não há mais fraco ou mais forte. A tudo e a todos o fogo consome sem remorso.
De seu canto Caco grunhiu. Seu senhor então estendeu-lhe a mão para um afago em sua grande cabeça quase despelada. Caco se aproximou afoito e quase feliz, se prostrando ao seu lado como dantes. – Não tenha medo meu fiel Caco, apenas ele. Apenas o fogo está acima de seu senhor.
A criatura de extrema beleza sentada ao trono tinha uma aparência humana, talvez de um desses deuses pagãos, esculpido a cera pela mais hábil mão. Olhos de pupila estreita como a de um felino. O nariz era reto. Uma tez alva como a lua. A boca rosada e sedutora, dotada de belos dentes brilhantes, entre eles, caninos salientes. Alvos dentes eram os seus, de um brilho feroz. Seu corpo era esbelto, de pele macia e pálida, lembrava a de um adolescente. Todo ele era uma forte alusão a juventude eterna. Porém, seu braço firme como aço, sua seriedade indissolúvel e sua frieza espectral, fazia reforçar sua autoridade inquestionável de senhor de sua raça, senhor de seu mundo.
Aquela bela criatura, tão bela era quanto fatalmente mortal. Bem assim o chamavam os que não eram de sua raça; a beleza mortal. Dos seus não recebia outro nome se não 'Dhwan', que em um dialeto obsoleto, era como sua raça lembrava-se de chamar aquele que estava à cima de todos e quem havia lhe dado o sangue da existência.
Além de Caco, naquele castelo, havia centenas de bestas semi-humanas iguais espalhadas pelos cantos enegrecidos da mal iluminada construção, farejando o passo de Dwhan, com seu servilismo grotesco. Pronto a satisfazê-lhe o desejo a qualquer sinal de sua vontade. Porém, seus olhos iluminados de uma eterna vigília, assim como estavam atentos a servir, espreitavam também uma única chance, um mínimo momento de fraqueza onde pudessem cravar-lhe os dentes a suas costas e por um fim àquele ódio eterno.
Dwhan também odiava aquelas criaturas e por isso os fizera seus servos, mantendo sua criação abortada sob seus olhos, a seu eterno dispor. Conhecia sua natureza odiosa e entre o seu desprezo os castigava com sua presença. O medo de sua figura era-lhe uma eterna tortura que lhe empregava. Bastava um olhar seu, para uma delas, acometido de extremo pavor, sucumbirem de ataque cardíaco. Ele não precisava fazer nada, se quer mover um dedo, bastava apenas olhar.
No inicio, Dwhan até que se divertia às vezes fazendo isso. Porém, ora ou outra também se via criando novas bestas como distração. Havia, contudo, algumas centenas de anos que não mais fazia, quem sabe ficara entediado.
Aquela noite mal começara e Dwhan já estava em estado de letargia, embebido na luz do lampião. É que aquela prometia ser uma das mais belas noites de sua imortalidade. Noite de lua azul, de uma claridade quase diurna, as estrelas brilhavam como diamantes. A luz de fora invadia as vidraças, refletindo e tomando os salões e os aposentos como uma festa de musas invasoras, a espalhar sua névoa cintilante a sua volta. A romper com insistência a escuridão tão bem vinda. A aquela claridade prata nem as bestas resistiam. Amantes das estrelas, saiam com seu passo vacilante até fora e embebiam seus olhos a luz da noite. Voltavam a cabeça aos céus, e apenas neste instante podiam experimentar a beatitude dos devotos; eram os filhos do criador se rendendo a uma criação divina.
Dwhan alisava a cabeça de Caco quando uma besta se aproximou. Com seu olhar em terra, incapaz de erguer a cabeça do chão, tentando disfarçar o tremor em seus membros, com uma voz frouxa e rasgada, anunciou a chegada de visitantes.
- Mande-os entrar. Seu senhor ordenou, já esperando aquelas visitas.
A besta deu um sinal ao outro, então uma multidão em passos firmes se adiantou no salão. Havia no mínimo 30 deles. Todos belamente vestidos; botas de um couro escuro e eximiamente curtido, longas capas de veludo com bordado de ouro, luvas finas, gravatas de seda presas por camafeus de madrepérola e âmbar. Todos, sem exceção, possuíam vestimentas de um requinte e bom gosto invejável. Dir-se-ia tratar-se de uma elite de aristocratas, de uma beleza selecionada por todo o mundo.
Uma das criaturas mais belas na face da terra são os vampiros. Misto de homem e fera, herdara o melhor dos atributos dos dois, associado a uma delicadeza que não cabia a nenhum deles. De uma palidez nacarada; de um sorriso sedutor, a entrever dois caninos lisos e alvos como a neve; de um olhar vítreo, de brilho trémulo e melancólico. E suas mãos? Mãos delicadas, de finíssimos dedos, adornados por unhas peroladas, grandes e afiadas. De dorso delicado, porém firme como um tronco de um forte carvalho. Dotados de um donaire nunca visto em nenhuma criatura terrestre. Com toda sua agilidade e graça, os vampiros, podiam até tornar prazeroso, a sua vitima, aquela fatal escolha.
As graciosas criaturas se prostraram com o mesmo respeito bestial diante de seu senhor. Ajoelhados e de olhar preso ao chão, ao chefe do grupo foi dado o beneficio de pronunciar-se...


N. A.


Antes da Alvorada é um dos meus contos vampirescos, conta a história de uma menina que após ter a família exterminada e ser cruelmente torturada por um bando de vampiros é acolhida pelo senhor supremo deles. Clara, a luz referida no subtítulo, acaba se tornando ao mesmo tempo a ventura e a perdição do mórbido e entediado chefão das criaturas sanguinolentas.

3 comentários:

Duachais Seneschais disse...

(o comment anterior saiu desconfigurado ehehe)
Esse primeiro trecho ficou bem forte! Eu gostei. Bonito. Impactante.
Ah! Essas descrições de vampiros me fascinam!
Lindo! Dwhan é lindo!
Adorei suas descrições, são envolventes e dão atmosfera ao trabalho. Achei que são muito bonitas, detalhadas, envolventes.
Estou curiosa. Quem são esses servos de Dwhan? Vc citou 'criações abortadas'. São eles humanos e tentativas de vampiros? De 'filhos' para Dwhan? Ou são algum outro tipo de vida?
E onde podemos ler a continuação? Você já fez? Está mais para frente? Esse capítulo é uma excelente apresentação dos vampiros. Fascinantes, belos e fortes!

Algumas sugestões:

"Quem, andando pelas ruas ... desviasse seu pé..." essa frase ficou sem conclusão. Aconteceria o que? Vc falou da pessoa (quem) que faria algo (desviasse o pé), mas não falou o que "desviar o pé" causaria, onde levaria. Vc concluiu esse pensamento várias frases a frente. Bem, não sei se isso é corrente, pelo menos nunca notei. ^^ Se vc conhecer algum texto assim, pode me mostrar? Não achei ruim, só estranho, diferente, sabe?

"Repleto de obras de artes que, havia séculos, não fora vistas por olhos humanos. " - 'Fora' é singular, se está se referindo às obras, acho que o mais-que-perfeito fica 'foram'.

"Senteis medo da luz por que sois criaturas das trevas" - Acho que aqui tb o presente do indicativo fica 'sentes' (tu) ou 'sentis' (vós).

"Voltavam à cabeça aos céus" - voltavam a cabeça aos céus

Celly Monteiro disse...

Dua, vc é um anjo, nem sei com agradecer por esses péstimos.^^
Confesso que nunca fui uma pessoa muito atenta, faço tudo no furor do momento, e depois que esse furor passa simplesmente trato tudo com uma espécie de desleixo, miserável, por assim dizer. É difícil me livra desse defeito, mas um dia eu consigo rsrsr
Valeu, valeu mesmo.
Esse começo é um problema msm, já pensei em várias formas de tentar melhorá-lo, mas nenhuma delas ficou do meu agrado, fica meio sem gracinha. Nem sei o pq desse meu apego a essa forma de escrita não muito convencional, e digamos, muito própria. Talvez um dia eu resolva de uma vez por todas consertá-lo e quem sabe então eu o ache melhor tbm.
Esse texto está incompleto, eu só postei ele assim pq não tinha nada pra postar no momento, e só não postei todo pq vi que ia ficar muito grande, era só uma forma de inaugurar o blog com minha escrita.
É o 1° capítulo de um livro que comecei a escrever há muito tempo, depois dessa noite é que tudo começa a se desenrrolar, por isso que esse trecho não conta nada sobre a história do livro. Acabei abandonando essa história pq aconteceu algo estranho; depois que li crepúsculo vi que a trama do meu livro estava muito banal, pq em síntese é sempre isso, a mocinha vive o livro todo sonhando que o seu amor vampiro a torne tbm imortal para viverem juntos pra sempre. Fiquei desmotivada apesar da confiança que tenho na minha história.
Sobre Caco e as outras bestas realmente esse trecho não diz muito, quem sabe um dia eu poste ai a história de como Dwhan criou essas criaturas, e como por um motivo bem significativo se tornaram o que são. Em resposta só posso dizer que vc quase acertou, Dwhan queria criaturas perfeitas pq é devoto da perfeição e da beleza, mas o resultado foram criaturas assombrosas. A sua intensão era apenas dar vida a novas criaturas atravéz do próprio sangue, mas aconteceu que elas acabaram se tornando vassalos, escravos subjugados, símbolos do poder e do orgulho dos vampiros, da supremacia de uma raça sobre as outras.

Celly Monteiro disse...

Pretendo postar a continuação do capítulo, não fiz ainda pq sei que vai ficar muito grande e cansativo para um post. Mas acho que é melhor do que deixá-lo incompleto não é?.
bjs Dua.

Meus selinhos ^^

Meus selinhos ^^
Meus selinhos ^^